Descrição de chapéu Obituário Vera Lucia Leme Rhein Felippe (1949 - 2021)

Mortes: Ensinou a aceitar as limitações para ir mais longe

A professora Vera Lucia Leme Rhein Felippe foi mais uma vítima da Covid-19

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São Paulo

Quando eu precisava explicar quem era a Vera Felippe, dizia que foi a professora que me ensinou a andar de bengala. Mas é uma simplificação muito grosseira.

Andar de bengala tem a ver com coordenar movimentos de pernas e braços. O que ela fez foi me ensinar a olhar para dentro com orgulho e alegria na hora de assumir para mim e para o mundo minha deficiência visual.

Ela me mostrou que eu poderia chegar aonde quisesse, desde que não tivesse medo de pedir ajuda quando preciso.

Logo virou tanto amiga quanto professora. Em um feriado, soube que eu queria assistir a uma apresentação de música contemporânea, daquelas em que a pianista toca o instrumento por dentro, beliscando as cordas.

Vera Lucia Leme Rhein Felippe (1949-2021)
Vera Lucia Leme Rhein Felippe (1949-2021) - Reprodução/Facebook de Vera Lucia Leme Rhein Felippe

Ela disse que iria comigo para treinarmos a caminhada na rua de noite. Ninguém acreditou que fosse sério. Até o último instante, achávamos que apareceria uma desculpa para desmarcarmos a aula inusitada. Mas, na hora combinada, ela estava me esperando lá na estação de metrô para observar meus passos.

Ao final, disse que amava esse tipo de música, que a relaxava muito. Nunca acreditei, mas fiquei grato pela mentirinha carinhosa.

Mais de dez anos depois de nosso curso, achei que era hora de buscar a ajuda da Vera novamente, agora para tratar de desafios que ficam do lado de dentro de casa. Aprendi com ela a picar cebola, descascar abacaxi e fazer escondidinho.

Ainda não virei o cozinheiro que deveria e no fundo esperava novas oportunidades de assar pão de queijo na casa dela.

Provavelmente esteja precisando de umas aulas de reforço com a bengala, agora que a visão não é a mesma da que eu tinha há 15 anos. Mas, principalmente, estou é com uma saudade imensa de uma das pessoas mais importantes na minha vida.

Vera se recuperava de um acidente vascular cerebral sofrido em 2019. Dizia que, depois de ter ensinado tantos a lidar com limitações, era sua vez de passar pelo processo.

Foi internada em fevereiro ao sofrer uma fratura do fêmur. Após seis dias no hospital, testou positivo para a Covid-19. Morreu na manhã de sexta-feira (12), em decorrência da doença.

Ela deixa o marido, João Álvaro Felippe, que também dedicou sua carreira à reabilitação de pessoas com deficiência visual, e os filhos Felipe e Mariana.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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