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Paulo Telles

Por que as escolas precisam ficar abertas

Fechar só faria sentido em cenário de lockdown absoluto, quando todas as outras medidas falharam

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Paulo Telles

Pediatra e Neonatologista pela Sociedade Brasileira de Pediatria e Membro do movimento Ciência pela Escola

São Paulo

Estamos no pior momento da pandemia no nosso país, temos na maioria dos regiões do estado de São Paulo mais de 100 casos para cada 100 mil habitantes. Uma nova variante, mais transmissível circulando, aumentando o risco de um colapso da saúde. Precisamos lembrar do conceito achatamento da curva, para que todos tenham acesso a atendimento adequado.

O fechamento das escolas no inicio da pandemia foi necessário, pois não conhecíamos o comportamento do vírus. Hoje já sabemos que as crianças não são supertransmissores, se infectam muito menos e, quanto mais jovem a criança, menor o risco de contaminação.

As complicações nessa faixa etária são raras e representam 0,6% dos óbitos (lembrando que as crianças são 25% da população). A taxa de internações pediátricas associadas ao Covid-19 segue baixa, e sem piora na gravidade.

Diversos estudos no Brasil e no mundo mostraram que a transmissão entre crianças dentro de escolas que seguiram protocolos adequados foi baixa, não colocando em risco maior alunos, professores ou funcionários.

Crianças se infectam mais em casa através dos cuidadores ou em locais sem protocolos, como condomínios, ruas, hotéis e eventos religiosos que seguirão abertos na fase vermelha das medidas para conter a pandemia em São Paulo.

Desta forma, fica claro que com protocolos a abertura é segura, não agrava a pandemia e não se justifica como medida de controle primária.

Só deve ser considerada de forma emergencial e temporária quando todas as outras medidas de fiscalização e controle de atividades não essenciais não surtir efeito e o iminente colapso persistir.

O fechamento prolongado das escolas gera efeitos graves na saúde da criança, como: deficit de aprendizagem, evasão escolar, violência doméstica, efeitos deletérios permanentes no desenvolvimento cerebral da criança, aumento de casos de abuso sexual, ansiedade, depressão, obesidade, automutilação e, em casos mais graves, suicídio.

A merenda escolar exerce importante papel na nutrição infantil e é considerada a principal refeição do dia para grande parte das crianças brasileiras. Aproximadamente 9 milhões deixaram de realizar uma refeição em casa por dia por falta de alimentos disponíveis, aumentando risco de desnutrição infantil.

O Programa Nacional de Alimentação Escolar cumpre um papel de proteção social, proporcionando redução da fome e desnutrição, contribuindo no crescimento e desenvolvimento biopsicossocial, na aprendizagem e no rendimento escolar.

Nas nossas comunidades mais carentes, a escola tem um papel que vai muito além de educar e ensinar. Tem papel social, humanitário, de vigilância sanitária.

Resumidamente, a abertura das escolas é urgente e necessária para qualquer sociedade que tenha valores dignos e preocupação com a infância e com o futuro. Mas para a abertura ser priorizada, duradoura e segura é preciso:

- reduzir circulação do vírus na comunidade por meio da conscientização da população para NÃO aglomerar, usar máscara e não sair de casa se tiver qualquer sintoma suspeito;

- preparar e cobrar as escolas para ter protocolos que sejam respeitados (higiene, profissionais e materiais de limpeza, número de crianças por turma/espaço, espaço adequado, uso de máscara, afastar casos suspeitos);

- priorizar a educação infantil, na qual o risco de transmissão da Covid é menor, e o impacto do fechamento, mais catastrófico;

- fazer monitoramento constante dos casos dentro de cada comunidade escolar;

- acelerar e priorizar a vacinação;

- entender de uma vez por todas que fechar as escolas só faz sentido em um cenário de lockdown absoluto, quando todas as outras medidas de controle falharam.

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