Descrição de chapéu

Analisar comportamento da mãe de Henry ofusca o que há de podre na forma como tratamos infância

Diante do horror, que deveria implicar a todos que tiveram contato com essa criança, paira a pergunta: como Medeia vai ao cabeleireiro com o filho morto?

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São Paulo

Tudo cheira a enxofre no caso da morte do menino Henry Borel, vítima inocente e indefesa da fúria de um adulto, cuja humanidade está em questão.

A repercussão de um caso como esse pode fazer crer que se trata de evento isolado, o que as estatísticas tragicamente desmentem. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Pediatria, foram assassinadas pelo menos 2.083 crianças de até quatro anos em menos de uma década, no Brasil. Que a violência contra a infância seja disseminada é fato que brasileiro algum poderá contestar, mas que ela ocorra no coração das famílias, tidas como esteio da sociedade, não parece ainda suficientemente elucidado.

Proteger a infância é tarefa que nossa sociedade tem sido incapaz de realizar a contento ao longo dos séculos. É sabido que os europeus que aqui chegaram se surpreenderam com pelo menos três características dos nativos: a nudez, a higiene pessoal (banhos diuturnos) e o cuidado ostensivo com a infância. Os relatos sobre o carinho e proteção oferecidos às crianças contrastavam com o alto indício de infanticídios relatados na Europa no mesmo período.

Daí a dificuldade, denunciada por antropólogos, dos brancos entenderem os interditos da vida na cultura indígena tradicional. Trata-se do fato de que o nascimento entre indígenas é considerado independente do parto, ou seja, o bebê só nasce quando é aceito dentro da sociedade como um igual. Antes dessa decisão ele poderá ser sacrificado, como se sacrifica um embrião na nossa sociedade, nos abortos eletivos permitidos por lei.

A partir do nascimento social da criança indígena, ela será protegida por toda a comunidade e cuidada especialmente por parentes mais próximos. Os que confundem os interditos da vida praticados em recém-nascidos em comunidades indígenas tradicionais com o crime de infanticídio em nossa sociedade cometem uma hipocrisia típica da nossa cultura: acreditar que as crianças correm perigo em um lugar além do nosso quintal quando, de fato, é sob nossas vistas que elas são mortas por balas perdidas, espancadas por pais e mães ou desaparecem sem deixar vestígios. Faz 70 dias que não se sabe o paradeiro de Henrique, 11, Alexandre, 10, e Lucas Matheus, 8, crianças moradoras de Belford Roxo, na Baixada Fluminense.

E a família? Inclui pai, mãe, padrasto, madrasta, avós, irmãos, tios, primos. A sociedade inclui pediatras, professores, psicólogos, conselheiros tutelares, políticos…

Monique Medeiros da Costa e Silva, mãe do menino Henry Borel, deixa à Delegacia de Polícia da Barra da Tijuca(16ªDP), após prestar depoimento sobre a morte do menino de 4 anos - Agência Brasil

Mas, diante do horror, que deveria implicar a todos que tiveram contato com essa pobre criança, paira a pergunta de um milhão de dólares: onde estava a mãe? O que vestia, onde ia, o que fazia a mãe? Como Medeia vai ao cabeleireiro, com o filho morto? Como se a maldade humana fosse menos compreensível aí.

Peço desculpas a todos que me pediram que comentasse sobre o comportamento dessa mãe, mas o trabalho do psicanalista é justamente desfazer ilusões. Tendo parido ou não, que uma mãe se omita diante da violência perpetrada contra seu filho não deveria surpreender ninguém, pois relações humanas são construções não garantidas por qualquer instinto.

A polêmica em torno do comportamento da mãe só serve de cortina de fumaça para a questão que esse caso só vem confirmar. Há algo de podre no reino da infância em nossa sociedade, que a idealização da família obtura.

Quanto ao suposto assassino, torço para que não se abuse da psicopatologia para definir seu comportamento imperdoável. A maldade humana é um fato que a psicologia não desmente.

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