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Culto presencial é central para denominações religiosas, mas muitas flexibilizam regras em caso de riscos

Tema virou alvo de julgamento no Supremo Tribunal Federal após a decisão do ministro Kassio Nunes Marques

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São Carlos (SP)

O culto presencial e comunitário é um dos elementos centrais de praticamente todas as denominações religiosas, em especial quando elas realizam ritos que dependem da participação física do fiel. No entanto, muitas também levam em conta a necessidade de flexibilizar essas normas em situações excepcionais, quando existem riscos para os participantes.

A liberação de missas, cultos e atividades religiosas presencialmente no momento mais crítico da pandemia de Covid-19 no Brasil é alvo de julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal). No último sábado (3), o ministro Kassio Nunes Marques derrubou os decretos que proibiam missas e cultos, e o assunto foi levado para discussão no plenário.

Na versão mais recente do Catecismo da Igreja Católica, texto que condensa a doutrina do catolicismo num único volume e que data originalmente do papado de João Paulo 2º (1920-2005), enfatiza-se a importância das cerimônias em comunidade.

“Todas as vezes que os ritos, de acordo com sua própria natureza, admitem uma celebração comunitária, com assistência e participação ativa dos fiéis, seja inculcado que, na medida do possível, ela deve ser preferida à celebração individual ou quase privada”, afirma a obra, citando o documento “Sacrosanctum Concilium”, que traz orientações sobre a liturgia católica. “É toda a comunidade, o corpo de Cristo unido à sua Cabeça, que celebra”, diz o Catecismo.

Embora recomende a participação presencial na missa e o recebimento da Eucaristia (comunhão) todos os domingos, bem como a confissão frequente e individual com um sacerdote, o compêndio estabelece como mínimo a confissão e a comunhão uma vez por ano, preferencialmente na Páscoa.

Apesar disso, um decreto do Vaticano, promulgado em 2020 e ainda válido em 2021, permite que os bispos de cada região ofereçam absolvição geral dos pecados aos fiéis católicos durante a crise da Covid-19, desde que eles, por exemplo, acompanhem as missas a distância.

As diferentes igrejas protestantes também costumam enfatizar a importância da participação presencial dos fiéis, em especial nos cultos de domingo. “Os crentes, como indivíduos ou famílias, devem ordenar de tal sorte seus negócios ou trabalhos que não sejam impedidos de santificar convenientemente o domingo e tomar parte no culto público”, diz, por exemplo, a Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil.

Tanto presbiterianos quanto outras denominações, como batistas, também têm como sacramento a Santa Comunhão ou Ceia do Senhor, com pão e vinho. “A ceia do Senhor é uma cerimônia da Igreja reunida, comemorativa e proclamadora da morte do Senhor Jesus Cristo”, diz a Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira.

No entanto, diferentemente do que ocorre no caso católico, a maioria das denominações protestantes não considera obrigatória a realização da Ceia do Senhor, os quais são igualmente válidos sem ela (a frequência do sacramento, em situações normais, pode ser quinzenal ou mesmo mensal). Essa prática diminui, em tese, a necessidade das cerimônias presenciais.

No caso das cerimônias judaicas, uma das principais dificuldades dos ritos a distância, como as orações realizadas três vezes ao dia, é a necessidade da presença física dos pergaminhos da Torá (as Escrituras hebraicas), explica o rabino Michel Schlesinger, da Congregação Israelita Paulista. Os rolos da Torá, em situações normais, não podem sair da sinagoga.

“No momento, os rolos estão na minha casa, mas é algo absolutamente excepcional. É algo que fazemos porque acreditamos que é preciso mandar a mensagem inequívoca de que o momento é de ficar em casa”, explica Schlesinger, ligado ao chamado judaísmo liberal (linhas não ortodoxas). Já as congregações judaicas ortodoxas tendem a não abrir essa possibilidade. Do mesmo modo, ortodoxos costumam rechaçar o uso de transmissões pela internet no “shabbat” ou sábado, por avaliar que a prática viola o mandamento do descanso obrigatório nesse dia.

Um dos pilares da religião islâmica é a prática de cinco orações diárias, distribuídas desde a manhã até a noite. Embora possam ser feitas em comunidade, nas mesquitas, também é possível para o fiel muçulmano rezar individualmente e em qualquer lugar. Por outro lado, a tradição do Islã dá muito mais ênfase à oração comunitária nas mesquitas toda sexta-feira, acompanhada de sermões —prática mencionada inclusive no Corão, livro sagrado dessa fé. Ao longo da pandemia, autoridades religiosas espalhadas pelo mundo muçulmano produziram documentos dizendo que não era possível substituir as preces de sexta-feira nas mesquitas por equivalentes a distância.

No entanto, outros eruditos islâmicos têm citado um dos ditos atribuídos ao profeta Maomé — “Toda a Terra é uma mesquita”, teria afirmado ele — para justificar as cerimônias online. Segundo eles, o próprio trecho do Corão sobre as orações de sexta-feira não necessariamente fala da presença física — “Apressai-vos a recordar Deus”, segundo uma das traduções, e não “Apressai-vos para ir às mesquitas”.

Outro pilar do Islã, o “hajj” ou peregrinação para Meca, na Arábia Saudita, que todo fiel deveria fazer ao menos uma vez na vida, também sofreu restrições no período da pandemia de Covid-19 — as autoridades sauditas reduziram o acesso ao santuário. Além disso, o Corão afirma que o “hajj” é apenas para os que tiverem condições de fazê-lo. ​

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