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Municípios de SP dizem que 68% dos hospitais já usam remédios antigos ante escassez de 'kit intubação'

Médicos afirmam que situação preocupa; ministério aguarda chegada de 2,3 milhões de doses nesta quinta

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São Paulo
Após o alerta dado nesta quarta (14) pelo governo estadual sobre a urgência em receber o chamado "kit intubação" para evitar um colapso hospitalar, municípios de São Paulo afirmaram que 68% dos serviços de saúde do estado já zeraram o estoque e que remédios alternativos, menos modernos, estão sendo usados para supri-los.

O levantamento foi feito pelo Cosems (Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo), com dados fornecidos pelas unidades de saúde ao MedCovid (Sistema de Monitoramento de Consumo e Estoque dos Medicamentos do Kit Intubação), desenvolvido pelo governo estadual.

Na terça (13), dos 3.126 serviços de saúde no estado, 2.127 não tinham neurobloqueadores, medicamento que é utilizado para relaxar a musculatura na intubação, e em 961 foi zerado o estoque de sedativos.

Médicos e gestores da rede pública de saúde paulista ouvidos pela reportagem consideram o desabastecimento preocupante, mas ressalvam que não há sinais de que os remédios acabem em 24 horas.

“Não há percepção generalizada entre os intensivistas de que o estoque acabe amanhã [quinta, dia 15], mas todos estão preocupados com o problema. Em todos os lugares, tem alguma dificuldade de abastecimento muito clara”, diz o médico Ederlon Rezende, consultor da Amib (Associação de Medicina Intensiva Brasileira).

No Hospital das Clínicas de São Paulo, o estoque dura 15 dias e há novas compras de medicamentos a caminho, afirma o superintendente do HC, Antonio José Pereira.

Em Campinas, a Rede Mário Gatti (municipal) afirmou ter estoque suficiente para atender a demanda atual. "A rede também tem recebido dos fabricantes entregas parciais que têm permitido manter o estoque mínimo. Há medicamentos suficientes para atendimento de 7 a 10 dias", declara a gestão em nota.

"As compras estão abertas com poucos fornecedores demonstrando possibilidade de venda. A falta de medicamentos ocorre em nível nacional por conta da demanda aumentada e porque parte da produção das fabricantes está requisitada pelo Ministério da Saúde."

O governo de São Paulo enviou ofício ao Ministério da Saúde na terça (13), conforme revelou a coluna Monica Bergamo, afirmando que precisava receber medicamentos do kit intubação em 24 horas para repor estoques e evitar o desabastecimento .

"A situação de abastecimento de medicamentos, principalmente daqueles que compõem as classes terapêuticas de bloqueadores neuromusculares e sedativos, está gravíssima, na iminência do colapso, considerando os dados de estoque e consumo atualizado pelos hospitais nesses últimos dias", afirma o documento assinado pelo secretário de Saúde, Jean Gorinchteyn.

Segundo ele, a partir dos próximos dias faltarão medicamentos caso nada seja feito. ​

Em entrevista coletiva na manhã de quarta, Gorinchteyn afirmou que o uso dos medicamentos alternativos tem garantido o procedimento médico nas unidades de saúde, sob a chancela da Sociedade Brasileira de Anestesiologia e a Associação de Medicina Intensiva Brasileira.

O presidente do Cosems e secretário de Saúde de São Bernardo do Campo, Geraldo Reple, afirma que esses remédios têm o mesmo fundamento clínico que os do kit, mas, em alguns casos, são mais antigos ou trazem mais chances de complicações.

“O último caso é fazer o procedimento sem eles. Mas intubar um paciente sem sedativo ou relaxante é tortura, não podemos aceitar.”

Para o médico Paulo Menezes, coordenador do comitê de contingenciamento do governo paulista, a situação é mais crítica em municípios que enfrentam grande dificuldade de reposição de medicamentos.

A Feohosp (Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes do Estado de São Paulo) fez um levantamentoentre seus cerca de 300 associados no qual 160 apontam que os estoques têm, em média, de 3 a 5 dias de duração. A situação foi considerada gravíssima, e começam também a escassear os antibióticos.

“Vamos monitorando a situação através de um grupo online com mais de 200 hospitais, a cada dia a situação é mais desesperadora, afirma o diretor-presidente da Fehosp, Edson Rogatti.

"Mesmo nos hospitais que apontam entre 8 e 10 dias de estoque a situação é delicada, pois são hospitais maiores que também recebem grande volume de novas internações a cada dia e, dependendo da região, o estoque cai bruscamente de um dia para o outro.”

Matão, Guarujá, Votuporanga, Presidente Epitácio, Fernandópolis e Rio Preto são exemplos de hospitais que operam com estoques entre 2 e 3 dias de margem apenas, mas a situação no estado todo é grave e os hospitais que acumulam dez dias de estoque são raros.

Rogatti diz que os hospitais entraram em contato com mais de 22 fornecedores na segunda e na terça, sem sucesso.

“A Secretaria estadual tem ajudado, mas também não está conseguindo grandes volumes. Estamos batalhando por importações que estão sendo lideradas pela Confederação das Santas Casas, mas os estoques no exterior também não estão disponíveis e tememos pelo pior. Se o volume de internação não cair rapidamente, não conseguiremos repor os estoques e será uma situação trágica”, diz.

O governador João Doria (PSDB) anunciou que fará uma compra emergencial no exterior. No entanto, não informou a previsão de chegada dos remédios.

Gorinchteyn frisa, porém, que a situação exige a compra imediata e centralizada pelo governo federal para que os medicamentos cheguem mais rápido aos estados. Segundo ele, foram enviados nove ofícios ao Ministério da Saúde nos últimos 40 dias solicitando a adoção de "medidas expressas e urgentes" para a recomposição dos estoques, e nenhum deles recebeu resposta.

Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que aguarda para esta quinta (15) a chegada de 2,3 milhões de medicamentos para intubação vindos da China para imediata distribuição entre os estados com estoque crítico. Os remédios foram doados por um grupo de empresas que reúne Petrobras, Vale, Engie, Itaú Unibanco, Klabin e Raízen.

Mais cedo, a pasta falara em 3,4 milhões de doses a receber nesta semana. Ressaltou, ainda que até agora foram distribuídos a estados e municípios mais de 8 milhões de medicamentos para intubação —1,4 milhão deles à secretaria estadual de Saúde de São Paulo. ​

Além disso, disse que está em andamento dois pregões e uma compra direta via Opas (o braço da Organização Mundial da Saúde para as Américas), mas não informou a quantidade.

Colaborou Carolina Vila-Nova

Erramos: o texto foi alterado

Diferentemente do publicado, o ministério aguardava os medicamentos para esta quinta, não para quarta. O texto foi corrigido. ​

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