Descrição de chapéu Obituário Justino Alfredo (1901 - 2021)

Mortes: Ex-pracinha, venceu o preconceito com sabedoria

Justino Alfredo era o último combatente da Força Expedicionária Brasileira em Campinas

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São Paulo

As pessoas fazem guerra sem armas. Ninguém melhor que o ex-combatente na Segunda Guerra Mundial, Justino Alfredo, para fazer tal observação.

Após uma caminhada de 101 anos, Justino, o último pracinha da FEB (Força Expedicionária Brasileira) em Campinas (a 93 km de SP), morreu no dia 12 de abril, em decorrência de complicações renais. Em meio às internações, foi diagnosticado com Covid-19, mas curou-se da doença.

“Imagine uma pessoa que você não tem o que atacar. Calmo, seja na tempestade ou no sol. Ouvia mais do que falava e com isso exalava grande sabedoria”, afirma o genro Francisco de Assis Ferreira, 73, aposentado.

Natural de Campinas, Justino era o segundo entre nove filhos de uma dona de casa e um funcionário da antiga Companhia Paulista de Estradas de Ferro.

Considerado um guerreiro antes mesmo de enfrentar soldados nazistas na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial, driblou dificuldades impostas pela vida e cuidou de sua família. Com pouco grau de instrução, Justino foi trabalhador braçal. Antes da guerra, trabalhou num curtume.

Justino Alfredo (1919-2021) durante um desfile de 7 de Setembro, em 2019, em Campinas. É o primeiro à esquerda (de terno escuro); os demais são o genro Francisco (terno preto) e oficiais do Exército
Justino Alfredo (1919-2021) durante um desfile de 7 de Setembro, em 2019, em Campinas. É o primeiro à esquerda (de terno escuro); os demais são o genro Francisco (terno preto) e oficiais do Exército - Arquivo pessoal

Em 1940, Justino fez o tiro de guerra em Campinas e dois anos depois foi convocado para o 6º Regimento de Infantaria, em Caçapava (a 116 km de SP). De lá, foi à Vila Militar, no Rio de Janeiro, e em seguida para a Itália, onde permaneceu durante um ano e oito meses, entre 1944 e 1945.

Ao retornar, casou-se com o grande amor de sua vida, a Olete. Entre amizade, namoro e casamento, ambos se relacionavam havia 80 anos.

A guerra deixou marcas. Justino desenvolveu uma doença conhecida como pé de trincheira, causada pela exposição ao frio intenso. Durante a guerra, ele fez longas caminhadas na neve.

“Emocionalmente, desenvolveu um olhar diferente para a vida, de como as coisas acontecem. Entre os aprendizados, a convivência com pessoas diferentes”, conta Francisco.

No pós-guerra, foi lavador de carros no centro de Campinas.

“O médico José Alfio Piazon, seu companheiro de guerra, o levou para trabalhar como servente na antiga assistência médica municipal de Campinas, o pronto-socorro de hoje. Ele gostou da área da saúde e fez o curso de técnico em enfermagem”, relata Francisco.

Como o primeiro negro a atuar na área de saúde pública em Campinas como técnico em enfermagem, Justino conheceu o preconceito racial nas inúmeras situações desagradáveis pelas quais passou, como médicos que se recusaram a sair na ambulância com ele.

Justino venceu o preconceito com um trabalho de qualidade.

Ao longo da vida, teve três paixões: a família, principalmente a esposa; a associação dos expedicionários, que fundou em Campinas; e a Ponte Preta, time que arrancou de Justino muitas declarações de amor.

Em 1926, aos sete anos de idade, ele assistiu ao primeiro jogo da Ponte Preta. Contava com orgulho que havia ajudado a construir o estádio em Campinas.

Justino deixa a esposa, quatro filhos, nove netos, nove bisnetos e uma tataraneta.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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