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câncer

Intubação como a de Bruno Covas não é consenso entre médicos

Extubação ocorreu na noite desta segunda; segundo oncologista do prefeito, é prematuro prever evolução do câncer

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São Paulo

A transferência para a UTI e a intubação do prefeito Bruno Covas (PSDB) na manhã desta segunda (3) geraram acalorados debates éticos nos bastidores médicos.

Afinal, diante de um câncer avançado, com novas metástases, em estado de caquexia (perda de peso e massa muscular acentuada), alimentação venosa, o prefeito não deveria estar sob cuidados paliativos, com terapias que aliviassem o sofrimento, que o deixassem confortável em relação aos sintomas, mas não intubado?

Mesmo diante de uma situação aguda como o sangramento detectado no local do tumor inicial, na cárdia, entre o esôfago e o estômago, médicos paliativistas ouvidos pela Folha dizem que o quadro poderia ser manejado com medicamentos antifibrinolíticos, que cessam o sangramento, e uma transfusão de sangue, se ele tiver condições para isso. E longe da UTI.

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, durante coletiva de imprensa no Palácio dos Bandeirantes - Governo do Estado de São Paulo -27.jun.2020

Mas até mesmo entre os paliativistas há divergências de opiniões, especialmente entre aqueles que atuam em grandes hospitais. Eles dizem que a decisão de encaminhar um doente oncológico grave para a UTI deve se basear em três​ pilares.

O primeiro é a própria doença (ainda há chances de manejá-la?); o segundo, a decisão do paciente (o que é sofrimento para um pode não ser para o outro); e o terceiro, o contexto geral (por exemplo, a disponibilidade de recursos, como leito de UTI).

Já os oncologistas dizem que a intubação só faz algum sentido se a complicação que gerou o sangramento for reversível e se existirem boas chances de Bruno Covas retornar ao tratamento de quimioterapia e imunoterapia interrompido pelo agravamento do quadro.

Por exemplo, se o sangramento tiver sido provocado por uma infecção que possa ser tratada rapidamente com antibiótico. A hipótese contudo, é considerada menos factível —o mais provável é que tenha sido causada por crescimento do tumor.

À Folha o oncologista Tulio Flesch Pfiffer, que faz parte da equipe médica que acompanha Covas, disse que ele tinha um problema agudo e reversível que precisou ser abordado, no caso a hemorragia digestiva, provocada por uma lesão ulcerada da cárdia, local onde tudo começou.

"É muito cedo para concluir o que isso significa em termos de evolução do câncer."

Na noite desta segunda o prefeito foi extubado, após o sangramento na cárdia ter sido estancado com procedimento endoscópico de hemostasia.

Sobre a opção de cuidados paliativos, Pfiffer diz que a discussão do tema é relevante, mas, como médico, ele acredita que essa questão sempre tem que iniciar com o paciente. "Certamente não está no momento de eu abordar esse tipo de discussão além do foro íntimo."

Em meio à comoção que o caso tem gerado, há os que se lembrem da forma como o avô do prefeito, o governador Mário Covas (1930-2001), lidou com o câncer avançado e o fim de vida.

Em 26 de fevereiro de 2001, um dia após a sua última internação no InCor (Instituto do Coração), percebendo que seu estado de saúde piorava e exausto da luta contra o câncer, Covas disse aos médicos que o assistiam: "chegou meu fim".

Pouco antes da hospitalização, ele foi enfático em se recusar a ir para a UTI. Não queria perder o contato com a mulher, Lila Covas, e os filhos. A equipe médica acatou o pedido do governador.

À época, o infectologista David Uip, que o acompanhava e que hoje faz parte da equipe que cuida de Bruno Covas no Hospital Sírio-Libanês, disse: "Vamos até onde a dignidade mostrar que seja o caminho. Dignidade, às vezes, é ter uma postura de observação, evitando o sofrimento".

A saúde de Mário Covas começou a ficar debilitada em 1998, após diagnóstico de um câncer na bexiga, que foi reconstituída em uma cirurgia. Em 1999, foi localizado outro tumor na região abdominal. Por fim, em janeiro de 2001, apareceu um câncer na meninge.

Dois anos antes da sua morte, o então governador havia sancionado a lei estadual 10.241, conhecida como Lei Mário Covas, que permite a suspensão de tratamentos que prolonguem a vida de pacientes em estado terminal ou sem chances de cura.

A legislação garante ao paciente o direito de "recusar tratamentos dolorosos ou extraordinários para tentar prolongar a vida".​

Mário Covas tinha 70 anos e uma visão muito clara e objetiva de finitude da vida. Bruno tem 41 anos e um filho de 15. Em nenhum momento desde o diagnóstico do câncer, em 2019, ele se deu por vencido.

Na nota que divulgou neste domingo (2) anunciando a licença de 30 dias, o prefeito disse que se dedicaria integralmente à recuperação e tinha a certeza de que superaria mais essa batalha. Isso também se chama autonomia do paciente.

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