Descrição de chapéu maternidade machismo

Mães retomam projetos e sonhos décadas depois da maternidade

Mulheres contam como os filhos transformaram suas vidas e não as deixaram desistir de si

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São Paulo

Entrar em uma universidade não era algo que fizesse parte da realidade de Cleonilde de Oliveira da Silva, 55, em sua juventude no interior do Maranhão. Por isso, quando ela precisou parar toda a vida para se dedicar exclusivamente aos três filhos, hoje com 34, 32 e 30 anos, não pensou duas vezes. Era o caminho possível.

Natural de Codó (299 km de São Luís), Cleonilde concluiu o magistério antes de se casar, aos 20, e parou de estudar. “Onde morava não tinha nem faculdade, só tinha o segundo grau [hoje ensino médio]”, conta a hoje assistente social e estudante de gerontologia da USP (Universidade de São Paulo).

A hoje assistente social Cleonilde de Oliveira da Silva, 55 anos, começou a primeira faculdade aos 45 anos. Formada aos 49, voltou a estudar e, atualmente, é graduanda de gerontologia na USP - Mathilde Missioneiro/Folhapress

Em busca de melhores condições, a assistente social migrou com o marido e os dois filhos mais velhos —Thiago e Saulo— para a periferia de São Paulo. Na capital paulista, nasceu, Lucas, fazendo que ela deixasse projetos que não cuidar deles, além de se dedicar a atividades na Igreja Católica do bairro onde mora até hoje, Vila Nova Curuçá, região de São Miguel Paulista, extremo leste de São Paulo.

Sem rede de apoio, não havia escolha. “Toda mãe termina abrindo mão de alguma coisa. São sonhos que ficam ali, dormindo.”

As possibilidades se abriram para Cleonilde depois que o filho mais velho se formou em geografia na USP. Foi ele, entre outros amigos, que lhe deu forças para buscar a realização de seus projetos. Aos 45, ela começou a faculdade de serviço social, que concluiu aos 49.

Ao encerrar o curso superior, com os filhos já crescidos, tentou uma colocação no mercado de trabalho, mas não encontrou vagas. Resolveu estudar ainda mais. “Como estava em casa sem fazer nada, busquei cursos e vi uma especialização em gerontologia na USP. Depois, fui me informar. Com a ajuda do meu filho, prestei uma prova para já graduados e passei. Aqui estou eu, a apenas seis meses de me formar.”

Em 2019, ela participou de um intercâmbio de um mês na Colômbia, além de ter estado no Equador por um curto período para ter contato com a realidade os idosos daquele país. “Quando eu escolhi ficar com meus três filhos, abri mão de uma profissão, de estudar, de cuidar de mim. Valeu 100% a pena por causa deles, mas, hoje,eu teria voltado antes a estudar e tentar estar no mercado de trabalho”, afirma.

A cantora Juliana do Amaral Pinto, 47, tem plena consciência de que sua história seria diferente se não tivesse se tornado mãe jovem. Mas, segundo ela, foi a maternidade que, como “mola propulsora”, a fez inverter a ordem dos projetos, sem perder o rumo do que queria.

A mãe de João Gabriel, 26, e Luiza, 17, começou neste ano a estudar letras na USP, faculdade que deixou para trás quando João nasceu. “Engravidei do João no susto; foi uma gravidez não planejada e eu não era casada. Quando o João nasceu, eu tinha 21 anos e estava fazendo letras na USP, mas já cantava; estava começando um trabalho profissional em música.”

Ela focou na carreira de cantora e, um ano depois do parto, gravou seu primeiro disco —a rede de apoio que tinha, afirma, contando com mãe, sogra e até babá, a coloca em um lugar de privilégio diante de outras mulheres

A cantora Juliana Amaral, 47 anos, voltou para a faculdade de letras, na USP, 26 anos após ter o primeiro filho. Ela diz que a maternidade foi a "mola propulsora" de sua vida, deu impulso ao sucesso de sua carreira, mas que, após criar os filhos, resolveu voltar a estudar e fechar um ciclo - Adriano Vizoni/Folhapress

O tempo passou, Juliana teve a segunda filha, gravou o segundo disco, separou-se, casou de novo e, agora, resolveu voltar a estudar. “Vou terminar, vai acontecer. A história de fazer a faculdade foi um momento pessoal, de entender que eu precisava fechar esse ciclo”, afirma.

A cantora lembra os momentos iniciais da vida de mãe, de como tudo era novo e difícil. “João nasceu prematuro, de 31 semanas, e passou 35 dias na UTI. Foi um caos. De uma hora para outra virei mãe, casada, dona de uma casa. De fato, mudou tudo para sempre.”

Se algumas mulheres escolhem pausar e sabem que podem retomar projetos depois, grande parte não tem essa possibilidade. “A maioria não tem condições de escolher coisa nenhuma, não tem a possibilidade. Tem, muitas vezes, que continuar trabalhando e até abrir mão de cuidar dos filhos" diz.

"Minha vida profissional não só continuou, como progrediu e eu cresci profissionalmente, porque a estrutura familiar que consegui construir foi extraordinária.”

A ideia de que “filhos são do mundo” foi o que fez a hoje arquiteta e urbanista Thais Vieira de Almeida, 55, despertar para a necessidade de buscar uma profissão 30 anos depois do nascimento da primeira filha. “Eu tinha medo de me tornar um peso para eles”, conta ela, mãe de três.

Thais descobriu a primeira gravidez aos 18, um ano depois de começar a namorar. A criança nasceu quando ela tinha 19, e a única perspectiva possível era parar os estudos para poder cuidar da filha.

“Fiquei assustada, mas achei maravilhoso estar grávida. Conversava muito com o bebê. Dizia: 'aconteça o que acontecer, você será muito bem-vindo’.”

Ela concluiu o ensino médio, e os anos seguintes foram de dedicação à família. Cinco anos depois da primeira filha, Vivian, hoje com 35, nasceu Giulia, 30, e, depois, o caçula Vítor, 27. Thais conta que, a partir de uma idade das crianças, começou a trabalhar, mas sempre com coisas que não a afastassem dos filhos.

“Fazia salgado e tive um ateliê de pintura, sempre em alguma coisa que eu conseguisse estar próxima deles. Ter tido eles cedo foi bom; a gente cresceu juntos.”

Com os filhos adultos, preocupada em se tornar um peso e incentivada pela filha mais velha, prestou o Enem e conseguiu uma bolsa na Unip, onde estudou arquitetura e urbanismo. “Eu entrei na faculdade junto com o caçula”, diverte-se. O curso, iniciado em 2012, foi concluído no ano passado, em meio à pandemia.

A psicóloga Paula Spinola diz que ter projetos e saber que uma mulher pode fazer o que quiser, reforçando sempre sua autoestima, é o caminho para que não desista de retomar as rédeas da vida após a maternidade.

“Às vezes, pela própria questão patriarcal, as mulheres são criadas para acreditar que o amor vem da história romantizada de que a mulher precisa casar e ter filhos, mas há muitos outros desenhos possíveis”, diz.

Muitas, contudo, não têm escolha. “Dependendo da condição financeira, de casamento ou não casamento, se é mãe solo, a trajetória muda. Se você tem que trabalhar porque a necessidade pede, você fica perdida. Muitas mulheres se afundam entram em depressão, ficam mal, isso interfere na busca dos sonhos”, afirma.

A chefe de cozinha Tais Camenzind, 41 anos, com a família. Após fazer seis fertilizações, ela parou tudo para cuidar dos filhos. Quase dez anos depois, voltou a estudar e hoje diz que se sente realizada - Arquivo pessoal

Tais Camenzind, 41, despertou para projetos além da maternidade quase dez anos depois do nascimento do primeiro filho. Ela não pensava em ser mãe até os 27 anos, quando se separou do primeiro marido e encontrou o atual companheiro.

A maternidade passou a ser a meta de vida ao descobrir dificuldades para engravidar. Após seis tentativas de fertilização, ela deu à luz Junior, hoje com 11 anos. Uma das trompas havia se rompido, e a chefe de cozinha tinha certeza que não poderia ter mais filhos até que, de forma natural, engravidou de Miguel, 9.

Pouco mais de um ano depois descobriu-se grávida das gêmeas Laura e Valentina, 7. Com essa configuração familiar, ela, que tanto quis ser mãe, se sentiu perdida.

“Eu pirei. Pensava: ‘Nunca mais vou ter minha vida de volta’. Minhas meninas ficaram na UTI, porque não respiravam bem. Era tudo muito pesado, cheguei a ter cinco babás até que, um dia, eu falei: ‘Chega; quero ser dona da minha família’. E passei dois anos só cuidados dos filhos.”

Ainda assim, sentia que havia cometido erros, deixando algo para trás e sentia um vazio. “Foi escolha minha? Foi, mas eu precisava ter alguma coisa produtiva, alguma coisa que fizesse eu me orgulhar de mim e meus filhos também.”

Após a crise pessoal, resolveu matricular-se no curso de gastronomia da faculdade Anhembi Morumbi, em São Roque, ao lado de Mairinque, onde mora. “Fui fazer gastronomia para mim, para minha família."

Recém-formada, hoje diz que tem prazer no que faz. "Apesar de trabalhar muito, sou uma pessoa mais leve, pois amo o que faço. Eu tenho prazer em cozinhar.”

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