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Rio de Janeiro

Operação no Rio com 25 mortos escancara falta de inteligência de ações da polícia

Impactos no cotidiano, como interrupção do metrô e falta de luz, acentuam desigualdades

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São Paulo

A guerra às drogas à brasileira fez nesta quinta-feira (6) no Jacarezinho, no Rio de Janeiro, 25 vítimas, entre elas um policial civil. Esses mortos se juntam aos milhares que, todos os anos, perdem a vida devido à forma como o Estado escolheu combater o tráfico de entorpecentes, que prioriza operações policiais em que tiros, prisões e invasões domiciliares são a norma.

O perfil de quem é preso ou morto nesse combate às drogas é jovem, negro e pobre. Não custa lembrar que em 2019 foram mais de 47 mil mortes violentas no país, das quais 74% de negros e 50% de pessoas que tinham de 15 a 29 anos. Quase um terço das condenações dos mais de 700 mil presos no país é por crimes relacionados a drogas, segundo dados do Ministério da Justiça referentes ao primeiro semestre de 2020.

Ainda que parte dos mortos em operações como a desta quinta esteja envolvida em confrontos com a polícia, fazem parte da estatística aqueles que perderam a vida executados por agentes de segurança, sem direito a processo e julgamento, e os inocentes, como os atingidos por balas perdidas.

Não que seja fácil o trabalho das forças de segurança em áreas ocupadas por grupos criminosos ou milícias: nas incursões, encontram bandidos armados com fuzis e granadas, que barram fisicamente o acesso a territórios inteiros. Os bandos também costumam impor terror a comunidades, com execuções extrajudiciais daqueles que violam as regras do grupo, toques de recolher e extorsões. O Estado não pode permitir que bairros ou comunidades inteiras se tornem áreas em que agentes dele não podem pisar e em que não pode oferecer serviços básicos e segurança.

No entanto, para muitas agremiações criminosas o tráfico de drogas é uma das principais, se não a maior, fonte de receita. É um negócio extremamente lucrativo, já que não paga impostos e não há controle de qualidade dos produtos; e o controle dos canais de distribuição e a escassez dos produtos permite inflar os preços. Com os ganhos, as facções podem se armar, recrutar recursos humanos e financiar outras atividades criminosas.

Enquanto isso, as forças de segurança do Estado por vezes fazem operações de maior inteligência, como aquelas que miram a lavagem de dinheiro proveniente dos entorpecentes ou aqueles que movimentam grandes cargas deles. Na maior parte do tempo, porém, o combate às drogas se resume a prender e matar pequenos traficantes.

Não é absurdo suspeitar que uma operação no Jacarezinho, que fica de frente à Cidade da Polícia —complexo de delegacias especializadas e órgãos da cúpula da Polícia Civil do Rio—, poderia contar com um pouco mais de inteligência.

Sobretudo se se considerar a imensa chance de atingir inocentes em uma favela com quase 40 mil habitantes, com ruas lotadas e comércio fervilhante. Se os moradores veem todos os dias criminosos circulando com pistolas, granadas e metralhadores antiaéreas —como esta Folha viu durante apuração de reportagem no ano passado—, a polícia também pode identificá-los e abordá-los em outras situações, sem que 25 pessoas sejam mortas.

Além do custo em vidas, tal política é ineficiente: ainda que faltem dados confiáveis recentes, não se tem notícia de que o consumo de drogas ilícitas como cocaína, crack e maconha tenha caído no Brasil. Assim, continuamos a medir o resultado da guerra às drogas em prisões e mortes, em vez de em número de adictos recuperados pelo sistema de saúde.

A incompetência já foi até contabilizada por pesquisadores da UFF (Universidade Federal Fluminense), que analisaram 11.323 operações no Rio nos últimos 15 anos considerando número de mortos, feridos, presos e apreensões e classificaram 85% delas como ineficientes, sendo 12,5% desastrosas, talvez a palavra mais adequada para definir o que acontece quando dois passageiros do metrô são feridos por bala perdida enquanto se deslocam pela cidade.

Operações como a do Jacarezinho nesta quinta-feira não só devastam a vida das famílias dos inocentes mortos como têm também implicações mais rasteiras que, somadas ao longo de toda a vida, alijam cidadãos de seus direitos mais básicos e acentuam as desigualdades.

A interrupção da circulação do metrô (dois feridos estavam em um vagão), o fechamento de unidades de saúde em meio à maior crise sanitária do último século e até a falta de energia elétrica em alguns pontos da comunidade depois da operação deixam claro o que a guerra às drogas tem de pior.

Erramos: o texto foi alterado

As duas vítimas atingidas dentro de um vagão do metrôe foram feridas, não mortas como afirmou versão anterior. O texto foi corrigido.

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