Relatório de inteligência da polícia troca local de ao menos duas mortes no Jacarezinho

Balanço da operação apresenta divergência em relação a boletins de ocorrência; polícia reconhece erro de digitação

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Rio de Janeiro

O relatório de inteligência da Polícia Civil alterou o local de ao menos dois óbitos provocados por seus agentes na operação do Jacarezinho, que terminou com 28 pessoas mortas na semana passada na zona norte do Rio de Janeiro.

Dois supostos confrontos aparecem no documento do setor de inteligência da Polícia Civil com um morto a mais cada do que o indicado nos respectivos boletins de ocorrências. Em outros dois casos, há uma vítima a menos no relatório do que nos registros feitos na Divisão de Homicídios (DH).

A Folha revelou na manhã desta sexta-feira (14) a existência de um erro, reconhecido pela Polícia Civil. A corporação também assumiu neste sábado (15) o novo equívoco identificado.

Os boletins de ocorrência foram registrados na DH no dia 6, o mesmo da operação. O relatório da inteligência foi concluído três dias depois.

Produzido como uma espécie de balanço da operação, a mais letal da história do Rio de Janeiro, o relatório foi distribuído para diversas unidades das forças de segurança do estado, entre elas a Divisão de Homicídios, que apura o caso por parte da Polícia Civil.

O documento também foi enviado ao Ministério Público estadual, que montou uma força-tarefa para apurar de forma independente o massacre.

O número de pessoas mortas num local interfere no trabalho de tentar reproduzir a dinâmica dos supostos confrontos. A eventual troca de local de corpos também altera a análise da trajetória dos tiros disparados.

Procurada, a Polícia Civil afirmou que houve erros de digitação no documento.

“Já está sendo corrigido o equívoco de uma unidade numérica”, afirmou a nota em relação às duas divergências.

A operação no Jacarezinho teve como objetivo, segundo a Polícia Civil, o cumprimento de 21 mandados de prisão contra pessoas denunciadas sob acusação de associação ao tráfico de drogas. O vínculo com a facção criminosa foi estabelecido por meio de fotos com armas em redes sociais.

A troca de tiros perdurou por mais de cinco horas. Os policiais invadiram ao menos cinco casas de moradores atrás de supostos bandidos. Homens em fuga, por sua vez, pularam lajes das residências. Ao fim do dia, ruas e casas da favela estavam repletas de marcas de sangue.

Dos 28 mortos, um era policial civil e 27 pessoas que, de acordo com o estado, atiraram contra os agentes. Três dos mortos eram alvo dos mandados de prisão. Segundo a Polícia Civil, todas as vítimas tinham antecedentes criminais, alguns deles antigos, ou vínculo com o tráfico confirmado por parentes.

Seis pessoas foram presas —sendo que três eram alvo de mandados expedidos pela Justiça— e foram apreendidos na operação cinco fuzis, uma submetralhadora, duas espingardas, 16 pistolas e 12 granadas.

A Defensoria Pública afirma que há relatos de mortos que haviam se entregado para a polícia antes de serem baleados. Além disso, critica o desfazimento das cenas dos crimes antes da realização de perícia.​

O relatório de inteligência indica as pessoas apontadas como lideranças da facção criminosa que atua no Jacarezinho, os policiais mortos na favela, o objetivo e os resultados da operação, e os antecedentes criminais das vítimas dos confrontos.

Ao descrever os mortos pela polícia, o documento os relaciona com os boletins de ocorrência registrados na Divisão de Homicídios da capital. Assim, foi possível cruzar os nomes com os locais dos óbitos.

De acordo com o BO sobre o suposto confronto dentro de uma casa em uma travessa próximo à rua do Areal, dois homens foram mortos. Foram apreendidos ali, segundo o registro na DH, uma pistola e duas granadas.

O relatório de inteligência, contudo, aponta três mortos vinculados a essa ocorrência: Pedro Donato de Sant'anna, 24, Francisco Fábio Dias Araújo, 25, e Caio da Silva Figueiredo, 16, único adolescente morto na operação.

O suposto tiroteio na travessa Santa Laura, por sua vez, aparece nos registros da DH como tendo sido palco da morte de seis homens. No documento da inteligência da Polícia Civil, aparecem cinco: Maurício Ferreira da Silva, 27, Rômulo Oliveira Lúcio, 29, Jonas do Carmo Santos, 31, Guilherme de Aquino Simões, 35, e Luiz Augusto Oliveira de Faria, 41.

A Polícia Civil afirmou, após o contato da Folha na quinta (13), que Pedro foi morto na travessa Santa Laura, e não naquela próxima à rua do Areal.

“Realmente houve erro de digitação na identificação do RO da morte de Pedro Donato de Sant’anna, RG 293490686, o qual, por erro material, foi vinculado ao RO 901-00430/2021, quando na verdade está vinculado ao RO 901-00436/2021. Já está sendo corrigido o equívoco de uma unidade numérica”, afirmou a nota.

A nova divergência identificada aparece nos supostos confrontos ocorridos numa casa na travessa João Alberto e na rua Darcí Vargas.

No primeiro caso, o boletim de ocorrência aponta dois óbitos. O relatório indica que a única vítima no local foi Jonathan Araújo da Silva.

Na rua Darcí Vargas, enquanto o registro na Divisão de Homicídios indica um morto, o documento da inteligência da Polícia Civil aponta Cleyton da Silva Freitas de Lima e Natan Oliveira de Almeida como as vítimas do local.

Neste sábado (15), a polícia afirmou que Cleyton foi morto no suposto confronto ocorrido numa casa da travessa João Alberto.

Os registros de ocorrências das 27 mortes de civis na quinta-feira (6) mostram que elas ocorreram em 12 pontos distintos da comunidade. Os documentos indicam o envolvimento de 27 policiais nos homicídios sob investigação.

Uma das ocorrências que mais chamou a atenção de defensores públicos e membros de entidades de direitos humanos ocorreu sem a apreensão de qualquer arma. Trata-se de um homem encontrado numa cadeira de plástico num beco da favela.

De acordo com o registro de ocorrência deste caso, a vítima, Matheus Gomes dos Santos, 21, foi encontrada por dois policiais após a troca de tiros. Moradores acusam a polícia de ter colocado o dedo do jovem já morto na boca, como aparece em foto, com o objetivo de humilhá-lo.

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