Descrição de chapéu Coronavírus dia dos pais

Pais da área da saúde contam como foi ter de se afastar dos filhos por causa da Covid

Profissionais relatam ter sentido medo da contaminação e frustração pelo distanciamento

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo
Desde que os abraços e beijos tornaram-se perigosos por conta de um vírus que matou mais de 560 mil brasileiros, os profissionais de saúde que atuam na linha de frente do atendimento a pacientes com Covid-19 ganharam novos desafios junto a seus filhos.

A Folha traz as histórias de três pais que alteraram a rotina da convivência com seus filhos por conta do coronavírus.

O medo da Covid-19 acometer os filhos ameaçou a paz do enfermeiro Luiz Mariano da Silva Junior, 40, que é pai de Noely, 17, e Marianna, 8, e “pãe” de Pedro Henrique, 3. Ele precisou de tempo e paciência para explicar a eles a necessidade de se distanciarem e os cuidados para evitar a infecção pelo coronavírus.
Luiz Mariano da Silva Jr 40,  conversa com sua filha  Marianna, 8, por camera de celular no Hospital Ignácio Proença de Gouvêa , na Mooca (zona leste)
Luiz Mariano da Silva Jr 40, conversa com sua filha Marianna, 8, por camera de celular no Hospital Ignácio Proença de Gouvêa , na Mooca (zona leste) - Eduardo Knapp/Folhapress
Junior é separado. As filhas vivem com as respectivas mães e o caçula mora com ele no Conjunto A.E. Carvalho, na região de Itaquera, na zona leste da capital paulista. O enfermeiro trabalha no Hospital Municipal Dr. Ignácio Proença de Gouvêa, na Mooca, também na zona leste. Conhecido como João XXIII, o hospital é referência em atendimento a pacientes com Covid-19.

“Soube da existência do Pedro quando ele tinha 11 meses. Eu e a mãe dele convivemos por um período e na separação, em setembro do ano passado, o Pedro ficou comigo”, conta.

A grande preocupação do enfermeiro, que trabalha com pacientes em UTI, foi o risco de contaminação e de levar a infecção para dentro de casa.

“Nunca na minha vida vi tanta gente morrendo. É desafiador. Hoje, eu me sinto um pouco mais seguro porque estamos vacinados e conhecemos mais sobre a doença. Mesmo assim, tomo uma série de cuidados. Uso um sapato para chegar no serviço, outro para trabalhar e outro para entrar em casa”, afirma.

Durante pelo menos três meses, Junior se isolou das filhas. Abraços e beijos continuaram pela tela do celular, nas chamadas de vídeo, uma tentativa de amenizar os efeitos da distância.

Antes da pandemia, os encontros com as meninas aconteciam no mínimo três vezes na semana, mas nunca houve limites.

“Essa separação foi muito dolorosa, um cenário inimaginável para mim. Tinha medo de estar assintomático e contaminá-las. Houve muita conversa com elas.”

Com Pedro, a dificuldade aumentou. Difícil explicar a uma criança pequena por que ela não pode abraçar e beijar o pai.

“Havia momentos em que ele chorava, pedia que eu não fosse trabalhar e que eu deixasse de ser enfermeiro. Explicava que as pessoas precisavam de mim. Eu o eduquei em relação ao distanciamento físico, mas é difícil tirar uma criança de cima de você”, conta.

Para Junior, no caso de profissionais de saúde, a relação entre pais e filhos ficou sensibilizada. “Acho que ainda não sabemos mensurar as sequelas emocionais que a Covid irá nos deixar.”

“O Dia dos Pais vem com a dádiva de poder estar com os meus filhos. Sempre tive o 'eu te amo' muito na minha boca para eles. Com a fragilidade exposta do momento em que vivemos, essa necessidade de unir, ver e mostrar o 'eu te amo' ficou muito mais evidente. Nesse dia dos pais eu só quero abraçar os três [filhos] e dizer que os amo incondicionalmente”.
Fernando Teichi C. Oikawa, cardiologista do Hospital Sancta Marggiore (unidade Paraíso), mostra foto  da filha Maria Antônia, com pouco mais de dois meses, no celular
Fernando Teichi C. Oikawa, cardiologista do Hospital Sancta Marggiore (unidade Paraíso), mostra foto da filha Maria Antônia, com pouco mais de dois meses, no celular - Eduardo Knapp/Folhapress
O cardiologista Fernando Teichi Costa Oikawa, 41, diretor do Sancta Maggiore, unidade Paraíso, referenciado para Covid-19, passou pelo melhor e pior momento de sua vida ao mesmo tempo. Pouco depois que a filha Maria Antônia, hoje com pouco mais de dois meses, nasceu, ele contraiu Covid-19. O médico retornou às atividades na semana passada.

A doença o obrigou a se mudar para um hotel, onde morou por 14 dias. “Sabe o que eu penso diariamente? Foram 14 dias que não recupero mais. Eu perdi meu chão. A gente nunca acha que vai acontecer conosco. Por mais de um ano e três meses eu entrei em hospital Covid e nada aconteceu. A minha filha tem 40 dias e eu me infecto!”

Oikawa teve acometimento pulmonar, dores musculares e articulares e cansaço. O que lhe causou muita aflição foi o afastamento da família e não saber como seria o dia de amanhã. “Estava com uma filha pequena, com sistema imune em formação e a esposa puérpera.”

​Para Oikawa, a Covid-19 mexe com três coisas que são o suporte de um ser humano: a cabeça, o fôlego e principalmente a família. “Ela te deixa longe daquilo que há de mais importante na vida”, afirma.

Mesmo passado o pior momento, o medo permanece. “Para eu voltar para a casa, fiz os testes para ver a transmissibilidade e não levar nenhum tipo de risco. É uma doença que machuca, porque você fica com medo de cheirar, beijar e trocar a sua filha”, diz o médico.

“Eu me cansava ao segurar minha filha e nunca contei à minha esposa —ela saberá ao ler a reportagem. Não queria deixar de segurá-la”, conta.

Neste domingo (8), Oikawa terá dois motivos para comemorar: será seu primeiro Dia dos Pais e a volta para casa. “Não preciso de mais nada. Quero acordar e estar com a minha família do começo ao fim do dia.”

“Valorizem mais suas famílias. Na hora que as pessoas adoecem, são as famílias que estão aqui dentro [do hospital]. Uma coisa que a Covid-19 veio para nos ensinar é que a família é o alicerce de tudo e sempre será. Muitos têm isso no discurso, mas poucos executam”, ressalta Oikawa.
Gustavo Sales, 40, intensivista e cardiologista, chefe da UTI do Hospital Albert Sabin, na Lapa, zona oeste de São Paulo.  Ele é pai de Helena, 7, e Júlia, 2
Gustavo Sales, 40, intensivista e cardiologista, chefe da UTI do Hospital Albert Sabin, na Lapa, zona oeste de São Paulo. Ele é pai de Helena, 7, e Júlia, 2 - Eduardo Knapp/Folhapress
A pandemia transformou a vida de Gustavo Sales, intensivista, cardiologista e chefe da UTI do Hospital Albert Sabin, na Lapa, zona oeste da capital, numa passarela de sentimentos.

Primeiro, o medo de uma doença nova e depois os desafios e as dificuldades que a Covid-19 trouxe no dia a dia. “Trabalho com duas UTIs no Hospital Albert Sabin, uma cardiológica com 9 leitos e uma geral com 18."

Com o crescente volume de internações, em certo momento foi necessário fechar a UTI geral para que todos os leitos fossem exclusivos para pacientes em tratamento contra a Covid-19. “Nesse dia caiu a ficha, quando todos os pacientes graves tinham o mesmo diagnóstico”, afirma.

"No começo da pandemia, minha esposa, a nefrologista Milena Sales, foi meu porto seguro. Certo dia, ela me deu coragem ao dizer 'a gente veio aqui para isso, estudou para isso e nossas filhas se orgulham de nós por isso. Vamos fazer o nosso melhor. Deus sempre vai nos proteger. Salvamos muita gente, sofremos com as famílias, e estamos aqui hoje muito mais fortes e treinados para as próximas batalhas'”, afirma.

A maior mudança para Sales foi no contato com a família. O médico se afastou dos pais. “A falta que isso faz nesses momentos de tensão é imensurável. Por outro lado, aumentei meu contato com minha esposa e filhas e passei a dar mais valor ao tempo, que a gente só percebe que perdeu no dia seguinte”, diz Sales, que é pai de Helena, 7, e Júlia, 2.

“Minha filha menor praticamente viveu na pandemia. Toda a parte de interação dela com a gente eu perdi”, lamenta.

Os abraços que Sales ganhava das filhas quando chegava em casa do trabalho tiverem que ser controlados. Por conta disso e do isolamento social, as crianças mudaram o comportamento. Entraram numa fase de estresse e ficaram mais irritadas e brigonas entre as duas, segundo o médico.

“Quando chego em casa digo para não encostar no papai porque tem um bichinho voando no hospital que cola no papai. Enquanto o papai não passar o sabão, o bichinho não vai embora. Se não for lúdico com elas, não vão entender.”

“Eu e minha esposa somos médicos. Como explicar para a menor que a mãe não pode dar de mamar a ela quando chega em casa?”

Para esquecer um pouco a situação ainda caótica, Sales treina jiu-jítsu e faz passeios a cavalo em Passa Quatro (MG).

O Dia dos Pais não será como o esperado. “Queria almoçar com o meu pai, mas acho que não vai dar. Vejo meu pai esporadicamente, mas a cinco ou seis metros de distância.”
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Leia tudo sobre o tema e siga:

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.