Projeto oferece atendimento psicossocial para vítimas de estupro em MS

Estado lidera taxa de abusos sexuais no país, cujas denúncias caíram em 2020

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Campo Grande (MS)

Há dez anos, a psicanalista Viviane Vaz recebeu de uma conhecida da igreja batista que frequentava em Campo Grande uma lista de nomes: eram dez mulheres que se prostituíam para sobreviver e recebiam cestas básicas como ajuda de custo.

A responsável pelo projeto, Rosankelly Lopes, estava doente e queria que a iniciativa fosse mantida.

Ao conversar com as mulheres atendidas, Viviane percebeu um ponto comum: o abuso sexual na infância. "Todas tinham algum tipo de histórico que as levou para esse caminho não por uma escolha delas, mas por um entendimento de que era para aquilo que elas serviam, como se fossem um objeto de satisfação para o outro."

Crianças fazem aula de defesa pessoal no Projeto Nova, em Campo Grande
Crianças fazem aula de defesa pessoal no Projeto Nova, em Campo Grande - Mathilde Missioneiro/Folhapress

Em dois anos, o hoje batizado Projeto Nova passou a oferecer tratamentos psicológicos em parceria com a Universidade Católica Dom Bosco. De lá para cá, a iniciativa evoluiu para um antedimento psicossocial de longo prazo que conta com diferentes abordagens, como oficinas de corte e costura e culinária e cursos de defesa pessoal.

Gabriela (todos os nomes foram trocados para preservar as identidades), 37, e sua filha, que sofreu abuso quando era criança, estão nas aulas que trabalham movimentos de artes marciais. Antes de chegar ao projeto, a jovem de 16 anos havia tentado se matar três vezes. "Ela dizia que quando tivesse 15 anos não ia mais viver."

As duas relatam que as aulas têm impacto importante na disciplina e na paciência. O instrutor Murillo Rivarola, que ministra o curso semanal, pede às mulheres que tentem canalizar a raiva e os sentimentos ruins para a hora da luta. "É para deixar tudo dentro do tatame."

Os outros cinco filhos de Gabriela também são atendidos pelo Projeto Nova, que investe na integração familiar, como forma de fortalecer os vínculos em casa, além de trabalhar a fobia social, muito comum entre as vítimas.

A filha de Gabriela, por exemplo, não fazia amizades nem tirava fotos, pois se achava feia. Agora, aos poucos, apesar da timidez, passou a se arrumar. A história é similar à da filha de Sheila, 32, que também sofreu abuso na infância e tentou suicídio. "Era uma menina muito fechada, acanhada, quase não falava. Hoje já se abre mais, não quer ficar sem vir ao projeto", diz Sheila.

As oficinas de corte e costura, que Gabriela e Sheila frequentam, começaram para distrair as mães, que levavam as crianças para o atendimento psicológico. "Quando a criança vem para o tratamento, a mãe fica nervosa", explica a educadora social Otília dos Santos. "Elas vêm muito fragilizadas, com autoestima baixa, às vezes só têm no pensamento aquilo que aconteceu."

Mas as aulas acabam servindo também como forma de as mulheres completarem a renda familiar. No início da pandemia, por exemplo, elas aprenderam a fazer máscaras e conseguiram vender os produtos.

As vendas ajudam ainda a manter o projeto, que atende 28 mulheres e 60 crianças. Bazares, eventos e doações individuais compõem 60% do orçamento. O restante vem de uma instituição mantenedora.

A estrutura atual inclui uma assistente administrativa, duas educadoras sociais, uma estagiária de pedagogia, uma assistente social, uma supervisora de psicologia e um quadro de 12 psicólogos, além de estudantes da área, que atuam de forma voluntária.

Gênero: feminino

Série discute, em oito minidocumentários e reportagens especiais, diferentes aspectos da violência contra a mulher no Brasil

Já a demanda por atendimento ocorre tanto de forma espontânea, por indicação ou após palestras organizadas pelo projeto, como encaminhada pelo poder público, que por vezes não dá conta dentro do seu próprio sistema.

Um dos desafios é garantir a aderência ao tratamento, que costuma ser longo e requer encontros semanais. "Aqui é central, mas eles moram todos na periferia, tem família que me fala que gasta R$ 50 para vir", conta Viviane.

As atividades principais não foram interrompidas durante a pandemia, mas a equipe já se prepara para o aumento da procura depois do fim das restrições impostas pela crise sanitária —em que muitas vítimas não puderam escapar da convivência com os agressores.

No Brasil, 85,2% dos casos de estupro são cometidos por conhecidos, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

"A cultura do estupro é muito enraizada no nosso país, em especial no estado", diz a coordenadora sobre Mato Grosso do Sul, que lidera estatísticas de estupros e estupros de vulnerável no país. "Existe muito essa crença de que o pai é dono como se fosse uma parte dos bens, então tem muitos casos de pais, avós, tios, padrastos que abusam."

denuncie

Vítimas ou testemunhas podem denunciar eventos de violência contra a mulher pelo Ligue 180 (basta teclar 180 de qualquer telefone fixo ou celular). O serviço está disponível também por WhastApp, pelo número (61) 99656-5008, e pelo Telegram, no canal Direitoshumanosbrasilbot, 24 horas por dia, incluindo sábados, domingos e feriados.

A ligação é gratuita.

Sobre o especial Gênero: Feminino

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