São Paulo subterrânea guarda granitos anteriores aos dinossauros, diz geólogo

Hugo Cássio Rocha é o responsável por avaliar rochas achadas na construção de linhas e estações do metrô de São Paulo

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São Paulo

No meio do caminho tinha uma rocha —não só ela. Antes, apareceu uma bússola. Hugo Cássio Rocha, à época com 11 anos, engoliu o instrumento numa brincadeira na aula de geografia e o carregou por uma semana no estômago.

Encarou três hospitais paulistanos até que, em um deles, se livrou da bichinha. Logo, virou motivo de chacota entre colegas: "Você nunca vai se perder na vida!".

Filho de pai escriturário e mãe dona de casa, o menino levou a piada a sério. No fim dos anos 1970, entrou na faculdade de geologia da USP. Rocha se tornaria, então, um especialista em... rochas.

Geólogo, vale lembrar, é aquele profissional que estuda a origem, a formação, a estrutura e a composição da crosta terrestre. Ele também busca entender como determinadas ações, humanas e naturais, podem intervir no sistema.

O geólogo Hugo Cássio Rocha, 61, sobre caixas de amostras de rocha (na maioria) e solo retiradas de escavações do metrô de São Paulo
O geólogo Hugo Cássio Rocha, 61, sobre caixas de amostras de rocha (na maioria) e solo retiradas de escavações do metrô de São Paulo - Eduardo Knapp/Folhapress

"A maior parte das informações sobre a geologia da maior cidade da América do Sul vem do Metrô", explica Rocha, que trabalha na companhia desde 1986. "Justamente por causa dos estudos para construções das estações e das escavações de túneis."

Em seu caminho, rolaram muitas pedras. Granitos foram achados na zona norte (abundantes especialmente nas redondezas da Freguesia do Ó), entre 5 m e 50 m de profundidade. São datados de pelo menos 500 milhões de anos, do período que antecede ao dos dinossauros.

Com idade de 20 milhões a 30 milhões de anos, troncos fósseis estavam debaixo da estação da Luz, da linha 4-Amarela, na região central da capital, a cerca de 30 metros de profundidade. Outros, com aproximadamente 30 mil anos, surgiram mais próximos à superfície, a 10 metros dela, na Barra Funda, zona oeste.

Entre Santana e Tucuruvi, outra surpresa: áreas de um maciço de argila cinza com fissuras preenchidas de calcário, o que pode indicar, explica Rocha, a ocorrência de clima semiárido, típico de desertos, durante sua deposição.

"Isso nunca tinha sido encontrado na região metropolitana, o que pode sinalizar a existência de um deserto há aproximadamente 40 milhões de anos", diz Rocha.

Ele acompanhou escavações em diferentes pontos. Como especialista em obras subterrâneas, participou de projetos das principais linhas do transporte metroviário, como a 1-Azul, a 2-Verde, a 3-Vermelha, a 4-Amarela e a 5-Lilás —só para ficar entre as maiores.

Parte do resultado de seu trabalho está guardada em uma espécie de museu do Metrô, onde estão catalogadas cerca de 30 mil amostras retiradas de sondagens prévias às escavações de túneis e estações. O espaço, que fica ao lado da estação Brás, na zona leste da capital, é aberto somente para técnicos da área.

São Paulo possui dois grupos principais de rochas, explica Claudio Riccomini, 65, professor de geologia da USP. Com mais de 540 milhões de anos, as rochas pré-cambrianas estão localizadas nos arredores da cidade e embaixo dela.

Já a segunda agremiação é de rochas sedimentares que se formaram de 50 milhões de anos para cá, na era cenozoica, concentradas na porção central da metrópole, sobre as rochas pré-cambrianas.

O professor usa uma receita de massa como metáfora para explicar esses agrupamentos. A farinha seria a rocha pré-cambriana. O buraco no meio do monte de farinha aberto para colocar o ovo são as modificações naturais ao longo do tempo. Já o ovo representa os sedimentos que vêm se acumulando de 50 milhões de anos até os dias atuais, impactando a formação das rochas cenozoicas.

Na avaliação de Riccomini, o trabalho desenvolvido pelo colega Hugo Rocha contribui para aumentar a previsibilidade sobre as escavações em São Paulo, o que, nas palavras dele, configura importante contribuição científica e técnica com repercussão na segurança das obras e na redução de custos.

Devido à variação geológica e topográfica da cidade, algumas estações do Metrô são mais próximas da superfície, como quase todas das linhas 1-Azul e 2-Verde. Outras são mais profundas. Exemplos: as da linha 5-Lilás e as da futura linha 6-Laranja —esta última terá estação a 69 m de profundidade, o equivalente à altura de um prédio de 23 andares.

Nas últimas semanas, foram inauguradas as estações Vila Sônia, na linha 4-Amarela, e Jardim Colonial, na linha 15-Prata. Com as novas estações, o sistema metroviário da cidade de São Paulo passou a contar com mais 3,3 km de vias, totalizando 104,4 km e 91 estações.

Consultor nas áreas de geologia de engenharia, geotécnica, escavações e métodos construtivos do Metrô, Rocha foi o primeiro da família, quando jovem, a se formar e, futuramente, a ter um mestrado.

Professor de túneis da Universidade Presbiteriana Mackenzie, ele sempre estudou em escolas públicas, como a Professor Roldão Lopes de Barros, na Vila Mariana, na zona sul, onde engoliu o instrumento que sinaliza as direções horizontais e que, como apregoavam os coleguinhas, deram, sim, um novo prumo à vida de Rocha.

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