Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Após morte de Moïse, congoleses se assustam e evitam as ruas no Rio

Irmandade, língua e necessidade unem africanos em comunidades dentro de favelas

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Júlia Barbon Tércio Teixeira
Rio de Janeiro

"Como vocês sabem que a gente mora aqui?", pergunta Cyrille Mamanu, 25, com os olhos arregalados. A expressão séria ainda não deixa ver o aparelho fixo nos dentes, exposto num sorriso à medida que a conversa se estende e ele baixa a guarda.

"Sabe por que a gente está perguntando isso? Porque está chegando muita gente querendo saber onde a gente mora para poder fazer maldade também", explica-se aos repórteres. Até semana passada, ele não estava acostumado a receber esse tipo de visita.

Uma linha de trem de um lado e uma estrada esburacada do outro separam o asfalto de Barros Filho, bairro na zona norte do Rio de Janeiro, do conjunto de 63 "predinhos" de cinco andares onde Cyrille e parte da comunidade congolesa se concentraram ao, em sua maioria, fugir da violência no país.

Ângela Kalukmba, 53, veio para o Brasil em 1993 e mora na comunidade de Barros Filhos, zona norte do Rio de Janeiro - Tércio Teixeira/Folhapress

São cerca de 4.500 apenas na cidade, estima Fernando Mupapa, 53, presidente da Comunidade da República Democrática do Congo no Brasil (CRDCB). A maioria está agrupada nesse e em outros bairros da região, como Brás de Pina, Madureira e o Complexo da Maré.

Desde que Moïse Mugenyi ​​Kabagambe foi morto a pauladas num quiosque na Barra da Tijuca, no último dia 24, o clima está diferente. "Estou com medo até de sair na rua. Estávamos andando no bairro agora meio assim", diz Chadrack Nkusu, 26, que morou com o jovem.

Muitos nessas áreas conheciam e participaram dos protestos pela morte, quando a família diz ter sido intimidada por dois policiais militares. Moisés, como também é conhecido, vivia indo e vindo da casa da mãe, de amigos ou de familiares. Ali pouco importa quem, de fato, é parente de sangue.

"A mãe do outro é mãe para mim também. O mesmo respeito que tenho pelo meu pai, eu tenho pelo pai do outro", afirma com sotaque angolano a cabeleireira Sophia, que não disse o sobrenome. "Aqui quando se fala 'senhora' todo mundo já fica 'e eu sou velha?', mas para nós é sinal de respeito."

A cultura africana de irmandade, a língua francesa e a necessidade acabam unindo não só os congoleses como outras nacionalidades do continente. Sem ter a carteira assinada, optam pelas favelas pelo aluguel mais baixo e pela ausência de custos com água e energia.

Assim chegou há nove meses a angolana Mimosa Katanga Maria, 36, que quis dar seu nome em português. Veio sozinha e sobreviveu com a ajuda de colegas, depois que um amigo de seu filho "foi morto por bandidos" e a família passou a ser ameaçada.

"No começo foi difícil porque não tava com dinheiro, agora tá começando a vender", fala com a pronúncia carregada, sentada no azulejo da sala enquanto esmaga a farinha de mandioca com um pilão. A cabeça está envolta num lenço, e o corpo, coberto por um vestido estampado em azul.

Em mais nove horas de preparação, a massa vai se transformar na chikuanga (se lê "quicuanga"), espécie de broa servida com carnes e peixes. A panela vai render 25 unidades, cada uma vendida a R$ 5 sob encomenda, o que dá R$ 125 sem subtrair as despesas.

O aluguel nos "predinhos" de Barros Filhos sai por cerca de R$ 400, dependendo do imóvel. "A gente praticamente trabalha para pagar o aluguel", afirma Cyrille, aproveitando o tempo da entrevista para enrolar o "dread" do próximo cliente com agulha de crochê.

O jovem conta que fez curso técnico de eletricista na RDC, mas por aqui atua principalmente como cabeleireiro, como muitos africanos. Teve que aprender novos cortes quando chegou, como o famoso "disfarçado", curto com dégradé suave até a nuca.

Africano é vaidoso, diz ele, usando cordão da Dolce & Gabbana, chinelo vermelho escrito "Coke", calça jeans e uma camisa branca estampada com o rosto de Moïse. Esse, por outro lado, "se tivesse sido pego pelo esquadrão da moda, estava ferrado", brinca com os olhos marejados.

Já Chadrack conseguiu exercer a formação em pedagogia como professor de francês em comunidades, mas também nunca conseguiu emprego fixo. No apartamento onde os dois moravam com Moïse não há geladeira, e a comida tem que ser consumida logo ou refrigerada nos vizinhos.

A convivência em geral é tranquila entre africanos e brasileiros, contam —em Barros Filho há até asiáticos, o que é raro em favelas do Rio. A rivalidade só aparece no campo de futebol, quando congoleses vestem azul, vermelho e amarelo. "A gente joga quando dá, porque geral é de correria [trabalha muito]", diz o flamenguista Cyrille.

A igreja evangélica, com unidades espalhadas por várias ruas nessa região, é outro ponto em comum entre os dois povos. A Assembleia de Deus Betesda Internacional, em Brás de Pina, é uma das que reúne a comunidade com cultos em lingala e francês.

Mas mesmo com a integração, o brasileiro ainda conhece pouco sobre a cultura africana, avalia a angolana Sophia: "Quando você chega aqui e o brasileiro começa a te fazer perguntas, eu fico assim: ué, mas na escola tu não aprendeu? O que passam para você na aula de história?", questiona.

Muitos não sabem, por exemplo, que o mesmo gentílico (congolês) é usado para se referir aos cidadãos da República Democrática do Congo e da República do Congo, países distintos, ainda que fronteiriços. A migração do Congo para o Brasil ocorre em volume bem menor que a da RDC.

O número oficial de congoleses no país é inferior ao estimado pela comunidade. Foram 2.015 registros de residência concedidos desde 2010, somados a 1.400 que ainda devem estar aguardando o reconhecimento como refugiados, segundo levantamento feito pelo Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) para a Folha.

A cabeleireira Ângela Kalukmba, 53, tem na ponta da língua a data da chegada: 14 de outubro de 1993. "Como posso esquecer? Eu sou refugiada, não pode. No país dos outros você tem que saber tudo: a data que você chegou, por que você chegou, por que saiu de lá", afirma.

Outra imigrante, que não quis se identificar, pergunta sobre onde conseguir doações para a comunidade e conta como funcionam a realidade do conjunto habitacional, onde os tiroteios não são tão frequentes, mas existem. Você só não pode se meter nas coisas deles, diz, referindo-se aos traficantes.

No Rio de Janeiro, os riscos são invisíveis, pressente uma congolesa numa rua a alguns quilômetros dali. Ela sussurra que, enquanto conversa, não sabe quem está observando. Depois da morte de Moïse, passou a pegar Uber para lá e para cá, com medo.

"Africano não fica na rua sozinho, fica em grupo", explica Cyrille. Se estivessem juntos naquela noite, diz, o amigo teria voltado com o dinheiro do isopor que queria comprar para não precisar mais trabalhar para os outros. "Mas voltou num caixão", lamenta.

Como ajudar

Com vagas de trabalho
Cáritas: (61) 3521-0350 / (21) 99580-4488
caritas@caritas.org.br

Com doações à família de Moïse
www.justicapormoise.meurio.org.br

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