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Globo demite chefe de núcleo investigativo por suposta relação com delegado acusado de corrupção

Tyndaro Menezes foi citado em peça do MP-RJ na qual aponta suposta negociação financeira; jornalista afirma não haver crime

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Rio de Janeiro

A TV Globo demitiu na segunda-feira (16) o chefe do núcleo de jornalismo investigativo, Tyndaro Menezes, após a divulgação de uma suposta relação comercial com um delegado acusado de corrupção pelo Ministério Público do Rio de Janeiro.

A informação sobre o caso aparece numa peça em que o MP-RJ pediu a prisão preventiva do delegado Ângelo Ribeiro, medida negada pela Justiça. Menezes não foi alvo de nenhum pedido de prisão ou busca da Promotoria, mas teve o nome citado no documento.

Procurado, o jornalista afirmou: "Não cometi nenhum crime e a verdade se estabelecerá."

A TV Globo disse, em nota, que "não comenta questões relacionadas a compliance".

Sede da Polícia Civil do Rio; delegado suspeito foi afastado
Sede da Polícia Civil do Rio; delegado suspeito foi afastado - Tomaz Silva/Agência Brasil

"O profissional citado não está mais na empresa. A Globo reitera que tem um Código de Ética, que deve ser seguido por todos os colaboradores, e uma ouvidoria pronta para receber quaisquer relatos de violação. Todo relato é apurado criteriosamente assim que a empresa toma conhecimento e as medidas necessárias são adotadas."

Menezes estava havia 30 anos na emissora, na qual começou como office boy. Em sua carreira, conquistou diversos prêmios jornalísticos.

O núcleo chefiado pelo jornalista teve episódios conflituosos com o Gaeco (Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado), responsável pelo documento que menciona Menezes.

Um deles foi a tentativa de censurar a TV Globo ao pedir liminar para proibir a divulgação do conteúdo de qualquer parte do inquérito policial que investiga os assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

Ribeiro, delegado envolvido no caso, foi afastado pela Justiça da Polícia Civil e da Alerj (a Assembleia Legislativa do estado), onde estava lotado atualmente. Ele foi alvo na semana passada de uma operação do MP-RJ sob acusação de receber propina do empresário Arthur Soares em troca de proteção em inquéritos tributários da Delegacia Fazendária, unidade que comandou até 2015.

Ao pedir a prisão de Ângelo numa peça anexa à denúncia chamada cota, o MP-RJ descreveu outros casos considerados suspeitos pelos promotores. Essas informações foram obtidas a partir do celular do delegado, apreendido anteriormente.

"Percebe-se que ele [Ribeiro], de dentro da Alerj, é um grande articulador político e negocial. Comporta se como um autêntico empresário e homem de negócios, que se utiliza dos cargos e funções públicas que ocupa para fazer contatos, firmar parcerias de negócios, lícitos e ilícitos, e para movimentar uma gama de favores e ingerências a pessoas que o protegem e a outras ligadas a estas", afirma a Promotoria.

Algumas das mensagens que tratavam de negócios considerados suspeitos citavam Menezes.

A reprodução das mensagens no documento não contempla a íntegra dos diálogos e, em alguns casos, não é sequer possível identificar o autor dos textos.

Contudo, é possível notar que o delegado, associado a outros empresários, discute captar a Rede d’Or como cliente para uma empresa de material médico.

Uma das dificuldades aparentes do grupo seria, de acordo com as mensagens, a forte influência do ex-secretário de Saúde Sérgio Côrtes sobre a área de compras da rede hospitalar por meio de seu cunhado, Sérgio Vianna.

Côrtes foi preso em um desdobramento da Operação Lava Jato em abril de 2017. Foi solto e depois voltou a ser detido em agosto de 2018. Ele confessou parte das acusações de corrupção que lhe foram atribuídas pelo Ministério Público Federal.

As mensagens extraídas do celular de Ribeiro que mencionam Menezes são de julho de 2017 a junho de 2018, antes da segunda prisão de Côrtes.

A mensagem mais antiga é um email enviado pelo delegado a uma pessoa não identificada em julho de 2017. Nele, Ribeiro pede 1% sobre o valor de uma compra não especificada e afirma: "E dividir com o Tyn obviamente."

Para o MP-RJ, Tyn é Tyndaro Menezes.

Em fevereiro de 2018, o jornalista relata a Ribeiro a conversa entre um repórter de sua equipe e Côrtes. Segundo a Folha apurou, a TV Globo entendeu que este profissional não sabia das conversas de Menezes com o delegado e segue na empresa.

"Ele jogou na cara dele o lance da rededor [Rede D’Or]. Que o cunhado dele é representante dele junto à dor. No esquema de importação de insumos. Ele quase desmaiou. [...] Acho que ele vai se assustar e talvez fazer o Serginho [Sérgio Vianna] se recolher para não trazer problemas para ele", escreveu Menezes.

Dois meses depois, Ribeiro procura o então chefe do núcleo investigativo do jornalismo da Globo.

"Chamei pra te contar que Danilo me procurou faz algumas semanas dizendo que SC [Sérgio Côrtes] quer conversar. Insiste que não sabia de nada sobre a condução que Serginho deu ao negócio da China. [...] Mas como vc havia dito, em algum momento ele chamaria para compor. Aquela sua movimentação balançou as estruturas."

Dias depois desta mensagem, Ribeiro envia outro texto a Menezes relatando que Côrtes aceitou repassar uma parte do negócio para ele. O delegado afirma que o jornalista receberia uma parte.

"[Côrtes] Disse que, por conta da sacanagem que o cunhado fez, irá destinar 15% da empresa para serem divididos entre Danilo e seu sócio, e entre mim e você", escreveu o delegado.

O documento do MP-RJ não diz se houve alguma resposta de Menezes sobre a proposta.

Num conjunto de mensagens de junho de 2018, Ribeiro conversa com o delegado da Polícia Federal Victor Cesar Carvalho dos Santos sobre o negócio.

Em determinado momento, o delegado federal pergunta: "Qual é o repórter mesmo?", no que Ribeiro responde: "Tyndaro Menezes. Agora é chefe de reportagens especiais da Globo. Só temos que ter cuidado com essa informação para não dar confusão para o amigo da emissora. Ele não ia integrar nenhuma empresa. Eu que iria obviamente prestigiá-lo."

A peça do MP-RJ não mostra o início do diálogo, motivo pelo qual não é possível saber como o jornalista foi mencionado inicialmente na conversa.

Numa mensagem seguinte, Ribeiro pede "máximo de cautela" com o nome de Menezes.

Apesar de citado, o jornalista não foi alvo de pedido de medida cautelar.

A emissora tomou conhecimento do caso na sexta-feira (13) e decidiu pela demissão na segunda-feira (16).

O MP-RJ afirmou, em nota, que os trechos das conversas "serão encaminhados, nos próximos dias, ao MPF para investigação específica por, inicialmente, serem de atribuição federal".

A Promotoria não respondeu se Menezes é considerado investigado e por qual razão a suposta negociação privada foi considerada suspeita e incluída na peça.

Ângelo Ribeiro disse, em nota, que sua conversa com Menezes "não aponta em nenhum momento crime ou ilícito de qualquer natureza".

"O jornalista Tyndaro Menezes apenas me apresentou ao empresário no passado", disse o delegado.

Em relação à acusação de corrupção, ele disse que "não houve qualquer retardamento ou arquivamento de investigação em benefício do referido empresário". "Tenho certeza que os fatos serão devidamente esclarecidos e que a Justiça reconhecerá a improcedência da denúncia."

Em nota, a Rede D’Or afirma "que não teve acesso ao conteúdo da escuta citada na matéria e portanto não tem como comentar".

"O ex-executivo citado no questionamento [Côrtes] não faz parte dos quadros da companhia há mais de 5 anos", diz o texto.

Procurado, Sérgio Côrtes não se manifestou.

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