Quero que seja preso; quem estava presa era eu, diz procuradora agredida no interior de SP

Gabriela de Barros disse que não sai de casa desde o episódio e que teme ser morta; Justiça determinou prisão do suspeito

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Rio de Janeiro

Desde que foi agredida por um colega de trabalho na última segunda (20), Gabriela Samadello Monteiro de Barros não consegue sair de casa. Procuradora-geral de Registro, no interior de São Paulo, ela teme ser morta caso encontre o responsável pelo ataque, o também procurador Demetrius de Oliveira de Macedo, 34.

"Eu espero que ele seja preso, porque até então, quem estava presa era eu. Que não estava conseguindo sair de casa, trabalhar, andar sozinha na rua. Se eu encontrar com ele, ele vai me matar. Eu ainda acho que ele pode me matar", disse a procuradora, em entrevista à Folha conversa na noite desta quarta (22).

A Justiça autorizou a prisão preventiva do procurador nesta quarta (22) após pedido da Polícia Civil.

frame de video em que mulher está no chão e homem a agride e outra mulher faz expressão de medo
Cena em que procuradora está no chão e é ainda agredida pelo colega também procurador em sala na Prefeitura de Registro (SP) - Reprodução

Durante a conversa, Barros disse estar muito cansada e falou pausadamente ao longo de todo o relato.

A procuradora afirmou que ainda está fragilizada, sente dores no corpo e tem hematomas na face. Afastada das atividades e sem previsão de retorno, ela disse que os ferimentos foram profundos, mas preferiu fazer curativos a levar pontos.

"Eu tive um corte na cabeça, mas preferi não tomar pontos, porque teria que raspar o meu cabelo e eu não quis." O ferimento, conta, já está se cicatrizando.

Barros disse que pretende processar Macedo por danos morais e estéticos. A reportagem não conseguiu contato com a defesa do procurador.

Eles se conheceram no trabalho. Ambos foram aprovados no mesmo concurso para a Prefeitura de Registro, em 2013. Eles chegaram a ser amigos próximos ao longo dos últimos anos.

Barros lembrou-se de programas que fizeram juntos, incluindo viagens a praia e saídas após o trabalho para tomar cerveja.

A relação de amizade começou a mudar em 2019, quando uma colega de trabalho dos dois foi promovida à Procuradoria-Geral. Nos últimos quatro anos, relata Barros, Macedo passou a ignorar a presença dela.

"Ele já não me cumprimentava, ignorava a minha presença, ele não falava comigo, mandava bilhetes, pedia pra outra pessoa falar. Ele nunca foi um funcionário que merecesse ser nomeado como chefe, não tinha iniciativa de colaboração e comunicação", disse a procuradora.

​Na segunda, Macedo foi liberado pela polícia depois do registro do boletim de ocorrência no 1º Distrito Policial de Registro.

Questionada pela reportagem, a Polícia Civil disse, em nota, que não fez o flagrante na ocasião porque não estavam presentes todas as partes envolvidas. Os policiais militares que conduziram Macedo à delegacia não presenciaram o ato violento.

A procuradora-geral Gabriela Samadello Monteiro de Barros, 39, sangrando após ter sido agredida - Reprodução

Ainda segundo a nota da polícia, "havia pontos a serem esclarecidos, testemunhas a serem ouvidas, para melhor elucidação dos fatos, bem como o delegado não teve acesso ao vídeo das agressões na ocasião do registro da ocorrência, que posteriormente circulou nas mídias sociais".

Por esses fatores, ainda segundo o comunicado, a decisão do delegado foi por registrar a ocorrência sem a prisão, "ouvir os envolvidos presentes na delegacia, no intuito de iniciar as investigações, para cabal apuração dos fatos".

Ainda conforme a nota, a decisão da polícia na segunda não foi a de solicitar medida protetiva à vítima, "pois o caso analisado não se enquadra como violência doméstica ou familiar contra a mulher, também não se aplicando ao caso a Lei n.º 11.340/06 (Lei Maria da Penha)".

O delegado Daniel Vaz Rocha pediu a prisão do suspeito na 1ª Vara Criminal da cidade nesta quarta após a repercussão do caso. O documento afirma que Macedo apresentou "sérios problemas de relacionamento com mulheres no ambiente de trabalho, sendo que, em liberdade, expõe a perigo a vida delas, e consequentemente, a ordem pública."

O vídeo abaixo contém imagens agressivas.

O vídeo e as imagens da agressão, que circularam nas redes sociais, e o depoimento da procuradora-geral foram incluídos no inquérito policial.

O Tribunal de Ética e Disciplina da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de São Paulo determinou a abertura de um processo disciplinar sobre o caso, que terá 90 dias para ser concluído. A entidade disse que pediu a suspensão preventiva do suspeito durante esse período.

O vídeo que circula nas redes sociais mostra a agressão na sede da Prefeitura de Registro, local onde ambos trabalham.

Quando a procuradora já estava ferida no chão, outras duas mulheres apareceram na sala para ajudá-la. As cenas mostram que elas tentam conter o agressor, que, além da violência física, também xinga a colega.

A gravação compartilhada dura 17 segundos. Nesse intervalo, é possível ver que a vítima consegue se levantar, ensanguentada, com as mãos na cabeça e recebe o apoio de uma das funcionárias, mas o homem continua a agressão.

Nesta terça (21), foi publicado no Diário Oficial do Município de Registro o afastamento do procurador pelo período de 30 dias.

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