Descrição de chapéu Obituário Carlos Leonam Rosado Penna (1939 - 2024)

Mortes: Inventou os aplausos ao pôr do Sol na praia de Ipanema

Fotógrafo, repórter e colunista social, Carlos Leonam foi fonte inesgotável de histórias fantásticas sobre o Rio de Janeiro

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São Paulo

Ele foi companheiro de bar de Vinicius de Moraes, Tom Jobim e João Gilberto. Jogou futebol de botão com Chico Buarque, em Roma. Viajou de fusca pelo interior da Bahia com Glauber Rocha.

A vida de Carlos Leonam foi recheada de histórias tão fantásticas quanto inusitadas.

Fotógrafo, repórter e colunista social no Rio de Janeiro na década de 1960, ele contou e protagonizou histórias que se confundem com as lendas do bairro de Ipanema daquela época.

"Todo mundo o conhecia pelo vozeirão e pela quantidade infinita de histórias que tinha para contar. O fato mais simples, quando contado por ele, tornava-se o mais fantástico. Ele tinha esse talento de contar episódios inacreditáveis como se fossem banais", lembra Manoela Penna, 46, filha mais velha de Leonam.

Fotógrafo, repórter e colunista social, Carlos Leonam foi fonte inesgotável de histórias fantásticas sobre o Rio e suas grandes personalidades na década de 60
Carlos Leonam Rosado Penna (1939 - 2024) - Leitor

Filho do botânico mineiro Leonam de Azeredo Penna e da professora Dorcelina Rosário Penna, Leonam nasceu no bairro do Catete. Viveu até os 29 anos em Botafogo e depois se mudou para Ipanema, lugar em que fez e ajudou a contar a história.

Segundo reza a lenda, Leonam foi o "inventor" do ritual de aplaudir o pôr do Sol na praia de Ipanema. Em uma entrevista ao jornal O Globo, o jornalista Zuenir Ventura recordou o dia em que surgiu o ato, que se tornaria um marco da praia.

Num fim de tarde em um dia de início de verão, Leonam assistia ao sol se pôr, ao lado dos amigos Glauber Rocha, Jô Soares e João Saldanha, quando não se conteve com a beleza do momento e pediu uma salva de palmas. Tempos depois um publicitário, que acompanhou a cena, a recriou em um comercial de bronzeador para a televisão.

No seu livro "1968: O Ano que Não Terminou", Ventura também contou que foi Leonam quem cunhou a expressão "esquerda festiva".

"As histórias que envolvem meu pai são tão fantásticas que parece até haver uma licença poética nelas, mas ele de fato viveu aquele momento do Rio de Janeiro. Ele fez parte daquele cenário em que jornalistas, artistas, intelectuais fizeram a história da cidade e marcaram o país", diz Manoela.

Leonam gostava de contar do dia em que levou um "chega pra lá" de Pelé, quando o jogador o viu dando em cima de Gal Costa em uma boate. Também contava com naturalidade sobre o dia em que encontrou com Chico Buarque, em Roma, e jogaram uma partida de futebol de botão.

Também lembrava com carinho do dia em que estava no famoso bar Antonio’s, no Leblon, acompanhado de Vinicius de Moraes e João Gilberto, quando Tom Jobim chegou empolgado e convidou os amigos para ir até sua casa ouvir uma música que tinha acabado de compor. "A música era apenas 'Águas de Março'", diz Manoela, aos risos, ao lembrar da simplicidade com que o pai contava dessa lembrança.

O próprio Leonam reconhecia ser um grande privilegiado por ter vivido tantos momentos inacreditáveis. "Modéstia a parte, já vivi um punhado de momentos mágicos, cada mais mágico do que o outro. Em suma: tenho sido um privilegiado, um felizardo, por estar sempre no lugar certo, na hora do momento mágico único", escreveu em um livro, ainda não publicado.

Além de ser um grande contador de causos, Leonam registrou fatos históricos pelas lentes de sua câmera fotográfica. Ele estava em Roma na posse do papa João Paulo 2º, em 1978, acompanhou Copas do Mundo e Olimpíadas e ganhou um Prêmio Esso por uma foto do astronauta russo Iuri Gagarin no Alto da Boa Vista.

Fez ainda fotos emblemáticas, como a que registrou Leila Diniz coberta apenas por uma estola de pele e um retrato de Chico Buarque que virou a capa do disco "Construção".

Internado desde 13 de abril por causa de uma pneumonia, Leonam morreu no dia 25 de abril na Casa de Saúde São José, no Rio, aos 84 anos. Deixa os três filhos: Manoela, Caetano e Elisa, e dois netos, Cecilia e Oliver.


coluna.obituario@grupofolha.com.br

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