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Carreira longa leva brasileiros com mais de 40 anos de volta à escola

Pai estuda com o filho, garçom conclui ensino básico e idosa faz computação

Érica Fraga Ana Estela de Sousa Pinto
São Paulo

O envelhecimento nem sempre é uma barreira à busca por maior escolaridade.

O desejo de continuar trabalhando ou simplesmente de aprender coisas novas vem levando os adultos brasileiros a alçarem pequenos voos educacionais.

Herenice Cavalcante Teixeira, 68, toca um negócio de bordados computadorizados com o marido José Luiz, 69
Herenice Cavalcante Teixeira, 68, toca um negócio de bordados computadorizados com o marido José Luiz, 69 - Adriano Vizoni/Folhapress

Uma análise feita pelo economista Naercio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, mostra que, ao passar de 40 para 50 anos de idade, a geração nascida em meados do século passado aumentou sua escolaridade média de 5,64 para 5,96 anos. 

Um crescimento de 5,7%. Ao fazer essa mesma transição etária, os brasileiros nascidos uma década mais tarde tiveram um avanço maior, ao ampliar seus anos médios de estudo 7,08 para 7,59. Um salto de 7,2%.

Os números levantados pelo economista a pedido da Folha, a partir da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), indicam que os brasileiros têm buscado estudar à medida que envelhecem e que essa tendência vem se tornando mais rápida.

“A gente vai envelhecendo, e a mente da gente atrofia se não exercitar”, diz Geraldo Hilário Pontes, 67.

A história do ex-garçom, hoje aposentado, ilustra bem o progresso educacional capturado pelas estatísticas. 

Já adulto, Pontes fez o ensino fundamental a distância e, posteriormente, cursou o ensino médio no supletivo. “Era garçom, e, você sabe, garçom não tem muito tempo para estudar, ?”, diz.

Escola universal era uma realidade distante da infância da geração de Pontes. 

O Brasil acordou tardiamente para a importância da educação. A universalização da matrícula no ensino fundamental só ocorreu no início dos anos 2000.

Ao longo das últimas décadas, o volume de pesquisas mostrando o impacto da educação –ou do “capital humano”– sobre o desenvolvimento econômico disparou. 

O efeito positivo do aumento da escolaridade sobre a renda também se tornou mais conhecido.

Essas informações contribuíram para ações que levaram a um salto na escolaridade média dos brasileiros, puxado pela inclusão escolar de crianças e adolescentes. 

Paulo de Tarso, 55, e Rafael, 22, seu filho, na faculdade em que cursam engenharia da computação
Paulo de Tarso, 55, e Rafael, 22, seu filho, na faculdade em que cursam engenharia da computação - Karime Xavier/Folhapress

Ainda que num ritmo mais lento, porém, os adultos vêm correndo por fora, aproveitando oportunidades como o antigo supletivo –hoje chamado de EJA (Educação de Jovens e Adultos). 

 

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a população com mais de 30 anos duplicou entre 1992 e 2015, de 56 milhões para 113 milhões de pessoas. 

No mesmo período, o número de brasileiros nesse grupo etário matriculado na escola se multiplicou por quatro, de 759 mil para 3 milhões. Com isso, passaram de 2% para 5,5% do total de alunos do ensino básico no país.

Outros dados, como os compilados pelos economistas Robert J. Barro e Jong-Wha Lee para algumas dezenas de países, incluindo o Brasil, também apontam na direção do aumento da escolaridade entre os adultos. 

Eles mostram, por exemplo, que, no início da década de 1980, apenas 7,6% da população brasileira com idade entre 20 e 24 anos possuía o ensino médio completo. Quando essa geração se tornou cinquentenária, por volta de 2010, 21,2% de seus representantes tinham atingido essa escolaridade. 

O avanço educacional capturado pelos números pode ser, em parte, efeito estatístico da mortalidade mais alta entre os mais pobres e, portanto, menos escolarizados.

Mas, segundo especialistas, isso não explicaria todo o crescimento da escolaridade entre os adultos, até porque a expectativa de vida vem aumentando no país. 

Segundo Menezes Filho, esse é, aliás, um dos motivos que leva os adultos a estudarem à medida que envelhecem: “As pessoas estão vivendo mais e, por isso, buscando se educar mais, em parte porque sabem que precisarão trabalhar por mais tempo”, diz o economista.

Gisela Castro, professora do programa de pós-graduação em comunicação e práticas de consumo da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) confirma a tendência. Ela diz que há procura crescente de profissionais experientes por pós-graduação com o objetivo de adotar a carreira acadêmica como uma nova opção de trabalho.

“São pessoas de 50 anos ou mais ativas, procurando maximizar seu tempo numa vida produtiva”, diz ela.

O desejo de se manter ativo por muito tempo ainda foi exatamente o que motivou o desenhista industrial Paulo de Tarso, 55, a cursar uma segunda faculdade. 

 

Ele fez a primeira graduação na década de 1980 e trabalhou com desenho e desenvolvimento de produtos. Depois mudou para marcas e patentes, com o que ainda atua. Mas nunca perdeu o interesse por computadores.

Até que seu filho Rafael, 22, que estuda engenharia de computação na Fundação Salvador Arena –instituição sem fins lucrativos– lhe perguntou por que ele não voltava a estudar. Tarso acabou conseguindo uma vaga no mesmo local e curso do filho. 

“Se vou mudar de emprego, não sei. Mas a gente precisa estar preparado. Eu gostaria imensamente de trabalhar nessa área. Talvez voltar a dar aulas para retribuir o que estou recebendo”, diz ele.

O ex-garçom Pontes conta que ter voltado a estudar não o levou a mudar de área, mas o tornou um profissional mais completo: “Como o garçom lida com o público, eu passei a trabalhar melhor tendo mais conhecimento”.

O propósito de se tornar mais versátil também levou a pequena empresária Herenice Cavalcante Teixeira a voltar a estudar. Aos 68, ela toca um negócio de bordados computadorizados com o marido José Luiz, 69. Embora ele já cuide da parte técnica, Herenice também quer participar dessa etapa da produção. 

Série da Folha detalha visões e comportamentos das faixas etárias brasileiras

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