Pioneiro, laboratório de fabricação digital da USP enfrenta crise

O Fab Lab SP perdeu técnicos, diminuiu funcionamento e restringiu acesso à comunidade

Eduardo Moura
São Paulo

Pioneiro no Brasil, o laboratório de fabricação digital na faculdade de arquitetura da USP sofre com perdas em seu quadro de funcionários e a falta de investimentos.

Fundado em 2011, o Fab Lab SP perdeu técnicos, diminuiu o funcionamento e restringiu o acesso à comunidade em geral —um dos requisitos para fazer parte da rede internacional de laboratórios inspirada em iniciativa do MIT.

"Os investimentos no laboratório pararam em 2014, com a crise financeira da USP. Para um laboratório de ponta isso é fatal", diz o professor Paulo Fonseca de Campos, diretor do Fab Lab SP.

 

O laboratório segue as diretrizes da rede internacional Fab Foundation. As exigências vão desde equipamentos —como impressoras 3D e cortadoras a laser— até o acesso pelo público geral, não só alunos, professores ou técnicos.

Se a situação se prolongar, o professor diz que o laboratório terá que se dissociar da rede internacional. Ou seja, deixa de ser um Fab Lab.

Isso não quer dizer que o laboratório deixará de existir. As máquinas, ainda que demandando manutenção, continuarão lá. Mas se desvincular da rede não é algo trivial.

Por exemplo, um projeto de próteses eletromecânicas de braços, de baixo custo e desenvolvido por um aluno de design, foi feito em colaboração com um Fab Lab na Rússia.

Outro, de concreto de baixo peso, o microconcreto pré-fabricado —que pode ser utilizado em construção de habitações, calçadas ou em contenção em barrancos e encostas, por exemplo—, teve parceria com um laboratório do Porto, em Portugal, que tinha um equipamento robótico necessário para o projeto.

Sem estar vinculado à rede internacional, o Fab Lab SP dificilmente conseguiria desenvolver estes e outros projetos da mesma forma, com acesso aos mesmos equipamentos e troca de capital intelectual.

Entre os prejuízos pela saída da rede, perde-se em capacitação, participação em eventos, parcerias, além de limitar o trânsito de pesquisadores de diferentes laboratórios.

Em 2013, o laboratório venceu dois editais da USP que somavam cerca de R$ 1,1 milhão, mas o aporte nunca foi feito. Desde então, não recebeu mais investimentos, diz o professor.

Ele diz que de 2011 para cá, o local perdeu seis técnicos, por meio de programas de incentivo ao desligamento voluntário, e tem cinco impressoras 3D inoperantes e duas máquinas de corte a laser que necessitam de reposição de peças. 

O período de funcionamento costumava ser de 8h até 22h. A partir do início de 2018, passou a funcionar somente no período da tarde, das 14h às 19h. Na última segunda-feira (2), porém, o laboratório voltou a operar em horário integral, pois conseguiu-se o remanejamento de um funcionário, que atuava em outra unidade da USP. O funcionário, que atuava como auxiliar de cozinha no bandejão da USP, agora foi escalado para dar apoio técnico à marcenaria do laboratório da FAU.

Uma das exigências da Fab Foundation é o "Open Day": um dia inteiro dedicado à visitação e utilização pela comunidade externa e que deve ocorrer pelo menos uma vez por semana. Desde meados de 2017 o local não consegue cumprir esse compromisso.

Disciplinas e projetos dos cursos de design e arquitetura demandam o uso do laboratório. Com menos técnicos e funcionamento mais restrito, o acesso fica mais difícil.

Beatriz Simões, aluna de design e membro do grêmio, o GFAU diz que "o significado dessa crise é um sucateamento do laboratório que não é de hoje. O meu receio é que as pessoas se acostumem".

Nos corredores da FAU, é possível ver cartazes com os escritos "LAME resiste". LAME é o Laboratório de Modelos e Ensaios, onde fica o Fab Lab.

Sobre os editais e os funcionários, a reportagem entrou em contato com a universidade mas não obteve resposta até a conclusão desta edição.

O orçamento da USP, de cerca de R$ 5 bilhões anuais, é oriundo de uma parcela fixa de 5% do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). Pelo menos desde 2014 a folha de pagamento compromete praticamente todos os recursos recebidos do governo. Em 2017, o comprometimento representou 96,41% dos R$ 4,6 bilhões recebidos pelo Tesouro estadual.

A implantação da rede Fab Lab Livre SP, lançada pela prefeitura em 2016 —que tem 12 unidades em locais como Cidade Tiradentes, Itaquera e Chácara do Jockey, além da região central— foi auxiliada pelo laboratório da FAU.

O funcionamento dos Fab Labs da prefeitura, que depende de licitação, foi renovada por mais 24 meses. A empresa que atualmente toca os espaços, o Instituto de Tecnologia Social (ITS), venceu o edital.

Laboratórios de 30 países fazem parte da rede

Baseada na cultura de "do it yourself" (faça você mesmo), os Fab Lab (laboratórios de fabricação) nasceram no MIT (Massachusetts Institute of Technology), nos EUA. 

Atualmente há 49 Fab Labs no Brasil, dos quais 18 ficam no estado de São Paulo. Grande parte dos laboratórios foi apadrinhado pelo Fab Lab na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo), da USP. O apoio funciona através de aconselhamento e de workshops oferecidos pela equipe da FAU em diferentes locais do país.

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