Citadas por Temer, fake news não são tema principal da redação do Enem 2018

Exame pediu texto sobre manipulação do usuário pelo uso de dados na internet

Paulo Saldaña
São Paulo

A disseminação de notícias falsas na internet era uma das principais apostas para o tema da redação do Enem entre professores de cursinho antes da prova. Mas o candidato que escreveu neste domingo (4) apenas sobre o assunto não entendeu a proposta de redação do exame e pode perder pontos, segundo especialistas.

Até o presidente Michel Temer afirmou pelo Twitter que o tema da redação "trata das notícias falsas", um "assunto atualíssimo".

Segundo professores consultados pela Folha, entretanto, este não era o foco da proposta.

O enunciado da prova pedia que os alunos escrevessem uma dissertação sobre "Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet". Havia quatros itens de apoio: três textos que, em geral, falam sobre como o uso de banco de dados e algoritmos direcionam conteúdos consumidos e um quadro com dados sobre o perfil dos usuários de internet no Brasil.

Procurado, o Palácio do Planalto não se manifestou até o momento.

Além da redação, os participantes fizeram neste domingo a prova de linguagens e ciências humanas. No próximo domingo, será a vez de ciências da natureza e matemática.

Para o professor Vinicius Beltrão, consultar da Plataforma SAS de educação, as fake news poderia ser uma boa argumentação no texto, mas não o eixo principal da redação. "O candidato se limitaria muito ao falar apenas sobre fake news. Existe um universo enorme sobre o tema, desde um teste sobre signo a pesquisas sobre produtos, em que se compartilha uma série de informações e comportamentos."

A professora de redação do Objetivo, Viviani Xanthakos, diz que o candidato que falou só de fake news tangenciou o tema. "Falar sobre fake news era uma possibilidade, mas a proposta tratava muito mais do entendimento sobre como algoritmos influenciam a liberdade de escolha dos indivíduos", diz ela. 

A fuga do tema —quando o candidato não entende o que foi pedido— é um dos critérios de nota zero. Também são passíveis de nota zero a menção a um trecho desconexo ao texto, cópia dos textos de apoio ou não usar o tipo textual esperado (dissertação).

Segundo Xanthakos, privilegiar as fake news na redação talvez não seja motivo para anulação da prova, mas deve tirar pontos. "Quem falou só disso provavelmente tangenciou o tema e isso baixará a nota inteira da redação. Pode não chegar no zero, mas perde muito ponto".​

A professora prevê um aumento de notas medianas na redação por causa da confusão que a proposta pode causar. No ano passado, quando o tema foi "os desafios para a formação educacional de surdos no Brasil", aumentou o número de estudantes que tiveram a redação anulada por terem fugido ao tema.

O total de notas zero na redação subiu de 291.806, em 2016, para 309.157 no ano passado. Em termos percentuais, os exames zerados passaram de 4,8% para 6,5%.

O diretor do Cursinho da Poli, Giba Alvarez, explica que no Enem a proposta da redação envolve não só o enunciado em destaque, mas também o material de apoio. "Um dos riscos é o participante achar que, por ser um tema muito presente, ele pode sair só argumentando sobre fake news. Não era o tema principal", diz. "A proposta era muito mais sobre algoritmos e efeito bolha, de manipulação de comportamento e menos de politica", completa. 

Como a diferença de pontuação na parte objetiva entre aprovados em cursos concorridos costuma ser pequena, garantir pontuação alta na redação pode ser decisivo na hora de garantir uma vaga na universidade pública.

A redação do Enem é corrigida a partir de cinco critérios, cada um valendo 200 pontos. Dessa forma, o candidato pode alcançar a nota máxima de mil pontos.

A compreensão da proposta é uma delas. Além de demonstrar domínio da língua escrita, o participante precisa mostrar que sabe construir bons argumentos, dentro de um texto coeso e encadeado e, por fim, elaborar uma proposta de intervenção para o problema abordado


Competências avaliadas na redação do Enem

COMPETÊNCIA 1: Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa.

COMPETÊNCIA 2: Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo em prosa. 

COMPETÊNCIA 3: Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista. 

COMPETÊNCIA 4: Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação. 

COMPETÊNCIA 5: Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado que respeite os direitos humanos.


Segundo Giba Alvarez, os participantes que falaram sobre fake news podem perder pontos sob o critério de compreensão da proposta, mas também na proposta de intervenção. Para ele, a proposta deste ano inova em não direcionar o candidato em focar a discussão no Brasil, o que costumava ocorrer em outras edições.

"As últimas redações do Enem focavam grupos específicos, como criança, mulheres, surdos. Este ano o grupo social atingido é a população em geral. E isso é um problema, faltou definir território", diz Alvarez.

A redação do Enem tem sido motivo de polêmica em várias edições do exame. Seja por conta do tema proposto ou mesmo por questionamentos à correção. 

Em 2012, por exemplo, alunos descontentes com a nota da redação entraram com ações judiciais para ter vista à prova e à correção. O MEC (Ministério da Educação) tem reformulado desde então o sistema de correção e consolidou um sistema de visualização dos textos e da correção.

A escolha de temas também causou polêmicas. O Enem tem a tradição de pedir que alunos escrevam sobre temas ligados aos direitos humanos. 

Em 2015, o exame pediu que os participantes escrevessem sobre “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. A proposta trazia um texto da filósofa francesa Simone de Beauvoir, o que foi considerado uma tentativa de doutrinação pelo hoje presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) e pelo parlamentar Marco Feliciano (PSC).

No ano passado, às vésperas da prova, uma decisão judicial proibiu o MEC de anular textos que desrespeitassem os direitos humanos, o que era previsto pelo Enem desde 2013. A presidente do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lúcia, endossou a decisão, e o governo Michel Temer (MDB) não recorreu.

Estudantes desrespeitaram os direitos humanos em 205 redações no Enem 2017, segundo o MEC. Eles tiveram desconto de pontos, mas não nota zero. Em 2016, 4.798 dissertações haviam sido anuladas por essa razão.

Conheça as todas as propostas de redação do Enem

2018 Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet

2017 Desafio para a formação educacional de surdos no Brasil

2016 Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil

2015 A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira

2014 Publicidade infantil em questão no Brasil

2013 Efeitos da implantação da Lei Seca no Brasil

2012 Movimento imigratório para o Brasil no século 21

2011 Viver em rede no século 21: os limites entre o público e o privado

2010 O trabalho na construção da dignidade humana

2009 O indivíduo frente à ética nacional

2008 Como preservar a floresta Amazônica: suspender imediatamente o desmatamento; dar incentivo financeiros a proprietários que deixarem de desmatar; ou aumentar a fiscalização e aplicar multas a quem desmatar

2007 O desafio de se conviver com as diferenças

2006 O poder de transformação da leitura

2005 O trabalho infantil na sociedade brasileira

2004 Como garantir a liberdade de informação e evitar abusos nos meios de comunicação

2003 A violência na sociedade brasileira: como mudar as regras desse jogo

2002 O direito de votar: como fazer dessa conquista um meio para promover as transformações sociais que o Brasil necessita?

2001 Desenvolvimento e preservação ambiental: como conciliar os interesses em conflito?

2000 Direitos da criança e do adolescente: como enfrentar esse desafio nacional

1999 Cidadania e participação social

1998 Viver e Aprender

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