Descrição de chapéu Enem

Ex-moradora de rua presta Enem em Campinas; 'fiz com confiança', diz

Foi a primeira vez que Adriana Heloisa, 29, fez uma prova de vestibular

Adriana Heloisa, 29, candidata ao Enem em Campinas
Adriana Heloisa, 29, candidata ao Enem em Campinas - Guilherme Botacini/Folhapress
Guilherme Botacini
Campinas

Estreante no Enem, Adriana Heloísa, 29, chegou descalça para o segundo dia do exame neste domingo (11), em Campinas (SP). É a primeira vez que presta vestibular. Pretende cursar direito.

Pernambucana, ela se identifica como Adriana de Aruanda e foi para o Rio de Janeiro antes de ir morar em Campinas aos 11 anos de idade. Não conheceu o pai, e diz que não criou laços afetivos familiares ao longo de sua vida. Ainda criança passou a viver na rua.

Por volta dos 13, diz que, ao testemunhar um crime, foi incriminada pelo juiz. Levada para a antiga Febem, atual Fundação Casa, ficou em primeiro lugar no concurso de música da fundação. 

Os motivos para tentar uma vaga em direito confundem-se com sua própria trajetória de vida. Adriana participou de movimentos sociais da população de rua. Quando indagada sobre sua militância, ela fala como se discursasse. "Não é ensaiado não, viu?", diz.

Em junho deste ano, entrou em conflito com a Guarda Municipal de Campinas. Chegou a dar socos na viatura. Diz que apenas se defendeu do que ela chamou de "violação de seus direitos", sem entrar em detalhes. "Tanto que, quando fui levada pra delegacia, fui liberada no ato. Os guardas acharam que iam me fichar, mas eu sabia que isso não ia acontecer".

"Hoje eu ando sozinha porque todos os meus amigos morreram. Morreram anônimos, esquecidos. É por isso que eu luto. A Constituição ainda é nossa carta magna e eu não vou me calar. Posso até ter o destino dos meus amigos, mas, se eu for, eu vou gritando."

O interesse em prestar o Enem começou, segundo ela, quando o movimento de que participava ganhou maior visibilidade, através da página do Facebook chamada Campinas Invisível, que colhe relatos de pessoas em situação de rua na cidade.

A partir dali, um grupo de apoio se criou em torno dela. Seus gastos com a inscrição para o exame, canetas, materiais de estudo e até a carona para o local de prova foram doados.

Hoje, ela vive em uma espécie de puxadinho cedido por um comerciante na Avenida da Saudade com quatro cachorros: Oníra, Lobinho, Bob e Zeus.

Ao sair do local de prova, Adriana disse que a prova foi difícil mas que fez o seu melhor. "O que eu fiz, eu fiz confiante", afirmou. 

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