Descrição de chapéu Pós-graduação

Transformação digital obriga escolas e líderes a se atualizar

Cursos de pós-graduação ensinam a usar análise de dados e inteligência artificial para inovar

Luciana Alvarez
São Paulo

As empresas se preparam para a chamada transformação digital. Um conceito que implica incluir a tecnologia na estrutura dos negócios, desde processos internos até o relacionamento com os clientes e fornecedores, de forma a promover mudanças em cada peça da cadeia produtiva.

Para se manterem relevantes, as companhias e seus funcionários vão precisar se “repensar”, afirma Amyris Fernandes, coordenadora de três cursos que abordam a transformação digital na Fundação Getulio Vargas (FGV).

Segundo ela, o profissional precisa se perguntar de que maneira pode usar os elementos da tecnologia atual para produzir e entregar seu produto. “Ele deve encontrar brechas e usar tecnologia em cada uma”, explica sobre o processo que leva à inovação.

O curso mais recente lançado por Fernandes na FGV é o de marketing e inteligência artificial, de curta duração, que mostra como usar os dados de navegação dos potenciais clientes para oferecer produtos personalizados ao seu perfil.

“Não é só aprender a usar ferramentas, mas planejar e organizar um plano de mídia”, afirma.

A mudança mexe nas empresas e também na rotina de cada profissional. “A médio prazo, tudo que é um trabalho muito mecânico vai ser transferido para as máquinas e sistemas de inteligência artificial. De fato, muitas profissões vão acabar”, afirma Marcia Auriani, coordenadora do curso de Gestão em Economia Criativa da Belas Artes, criado há dois anos.

“Teremos as chamadas superminds (supermentes), que são pessoas e computadores trabalhando juntos para resolver problemas. Quem estiver acompanhando as mudanças, se preparando, estudando, vai continuar tendo trabalho. O diferencial são as habilidades humanas, como a capacidade de ser original, o pensamento crítico. É isso o que a gente busca desenvolver nos nossos alunos”, diz.

Embora a pós-graduação da Belas Artes seja mais procurada por profissionais criativos que desejam se tornar melhores gestores, como designers que querem aprender a tirar proveito do big data, há também gestores que buscam se aproximar do lado criativo.

“Já tive uma estudante que era enfermeira-chefe de um grande hospital, e um advogado que desejava entender mais sobre criação para lidar com questões de direito autoral”, conta Auriani.

A tecnologia está transformando os próprios negócios educacionais.

O Insper, uma escola tradicionalmente de negócios e administração, vai lançar uma pós-graduação de data science (ciências de dados).

“Nossa vocação sempre foi abordar a área de negócios com base em fatos e evidências. O aumento do volume de dados à disposição das pessoas tem tornado o mundo dos negócios mais baseado na realidade e menos em palpites e intuições”, afirma Guy Cliquet, coordenador das pós-graduações do Insper.

“Portanto, foi natural nossa aproximação com a engenharia e a computação, avançando para as ciências exatas”.

Em meio à transformação digital, a academia se vê obrigada à renovação contínua. “Nossos professores revisam todos os conteúdos de um semestre para outro”, afirma Julio Figueiredo, coordenador acadêmico da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). 

A oferta de pós-graduações voltadas à tecnologia digital começou na década de 1990 na ESPM e desde então a demanda cresce sem parar.

“A academia, por meio de pesquisas, precisa se antecipar. Lançamos um curso sobre inteligência artificial e já estou estudando como montar um curso de computação quântica”, relata Figueiredo.

Com a procura por atualização de profissionais de diversas áreas, cursos voltados ao mundo digital se tornaram um nicho certeiro para instituições de ensino.

“Levei a proposta para a FIA (Fundação Instituto de Administração) porque percebi a demanda do mercado. Muita gente me pedia consultoria ou cursos in company”, conta a advogada Patrícia Peck, uma das pioneiras do direito digital no Brasil, que hoje coordena a pós gestão da inovação e direito digital.

O curso da FIA é interdisciplinar, unindo direito, gestão e tecnologia. “Uma empresa que queira eliminar o papel tem que lidar com a gestão de riscos digitais e com a legislação de proteção de dados. A transformação digital exige um pensamento multidisciplinar”, afirma Peck. 

Além de tornar os profissionais capazes de navegar por campos diferentes, as mudanças trazidas pelo digital também facilitam que cada um alcance o seu público. 

“Tem muita gente que vira empreendedor digital depois do curso. Isso porque, mais do que conhecer uma tecnologia específica, a gente fortalece o pensamento estratégico”, afirma Thiago Costa, coordenador do curso comunicação e marketing digital da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). 

 

DEPOIMENTOS

‘Tive que estudar muito para montar um plano de negócios’

"O curso de pós me abriu horizontes, me fez pensar de forma diferente. Aprendi que inovar é encontrar novas maneiras de fazer as coisas. Fiquei responsável pela abertura de uma divisão na empresa onde já atuava havia vários anos. A companhia aluga produtos de informática e agora tem um divisão de bem-estar, que aluga cadeiras de massagem e salas de descompressão em empresas. Trabalho como se o negócio fosse meu: sou uma empreendedora dentro da estrutura de uma empresa. Tive que estudar muito para montar o plano de negócios. E tudo está em movimento: conforme vêm os resultados, temos que voltar ao plano de negócios e modificar. Os professores da pós me ajudaram muito em todo o processo, me senti acolhida. A relação era muito próxima, podia levar dúvidas sempre. O aprendizado não acabava em sala de aula."

Cristhiane Pedral de Souza, 37 anos, coordenadora comercial, cursou pós em gestão estratégica da inovação, no Senac

'Já mudei a maneira de ver o negócio e a relação com os clientes’

"Daqui para frente, vamos usar cada vez mais big data e os sistemas de machine learning para a análise dos dados. E eu preciso me atualizar. Como diz um professor da pós, estamos só molhando os pés na água —e ainda temos uma praia inteira para explorar.
Esses conhecimentos influenciam em todos os campos, mesmo para empresas offline, para os pequenos comércios de bairro. É uma transformação para o mundo todo, como foi a eletricidade.
Minha agência é focada na mídia tradicional —TV, rádio, jornal e revistas—, mas quero ter um diferencial. Desde que comecei o curso, apesar de ainda estar no começo, já mudei minha maneira de ver o negócio, sobretudo minha relação com o cliente.
É como ir a um restaurante: não é só a comida o que conta, mas toda a experiência que você tem lá dentro."

Valter Peres, 40 anos, dono de agência de publicidade, cursou pós em inteligência artificial e data science aplicados ao marketing, na ESPM

 

​O QUE E ONDE ESTUDAR

Inteligência artificial e data science aplicados ao marketing
Na ESPM, master em parceria com a IBM oferece aulas sobre visão estratégica de marketing e inteligência artificial. Dura três semestres. Inscrições até 3/3. Aulas em 13/3. Preço: R$ 44.253

Comunicação e marketing digital
Na Faap, voltado para profissionais de marketing, gestores e empreendedores. Disciplinas pensadas a partir do ambiente digital. Dura três semestres. Inscrições até o início das aulas, em março. Preço: R$ 27.685

Gestão da inovação e direito digital
Curso de três semestres na FIA aborda a aplicação do direito em novos modelos de negócio ou na transformação digital de empresas. Inscrições até 15/3. Início em 19/3. Preço: R$ 22 mil

Gestão estratégica da inovação
Especialização de três semestres no Senac para profissionais que desejam desenvolver processos de inovação, com disciplinas sobre marketing e liderança. Inscrições até 28/2. Início em março. Preço: R$ 14.489

Marketing e inteligência artificial
Na FGV, curso de 3 meses ensina a usar dados dos ambientes digitais para transformar processos de marketing. Inscrições e início das aulas em 22/3. Preço: R$ 5.400

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.