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Professora da rede pública de SP briga por 'Oscar' da educação

Débora Garofalo, de colégio municipal da zona sul, está entre os 10 melhores docentes do mundo

William Cardoso
São Paulo | Agora

A professora Débora Garofalo, 39, estará em Dubai, nos Emirados Árabes, no dia 24 de março, para disputar um prêmio de US$ 1 milhão (cerca de R$ 3,7 milhões).

Tudo porque ela já é considerada uma das dez melhores do mundo pelo Global Teacher Prize, considerado o “Oscar” da educação. Nunca uma brasileira foi tão longe.

O que a levará até o Oriente Médio é o projeto “Robótica com Sucata”, em tecnologias para a aprendizagem, na Emef Almirante Ary Parreiras, um colégio da rede pública, na entrada da favela Alba, na região do Jabaquara (zona sul de São Paulo). “Ver o nosso trabalho entre a elite do mundo é um grande presente.”

A professora diz que se interessou pelo ensino de tecnologia ao perceber, quando trabalhou no RH de uma empresa, que muitos jovens diziam dominar o tema, mas na prática tinham pouco conhecimento na área, que não se resume a celular, computador e redes sociais.

No colégio, ela percebeu nos últimos três anos a importância de fazer aquilo que chama de “intervenção social”. “É uma das realidades mais tristes que vivenciei. Eles olhavam a escola como extensão do quintal de casa. Tinham como sonho apenas ganhar pacote de bolacha. Quis trazer a tecnologia como processo transformador da vida das crianças”, diz.

Débora levou os alunos para fora dos muros do colégio, fazendo aulas públicas sobre a importância do descarte correto do lixo. Também convidou os alunos a reutilizar rolinhos de papel higiênico, tampinhas, canudos ou pedaços de papelão nas aulas de tecnologia.

Os alunos então passaram a usar todo tipo de material para produzir brinquedos nascidos de sua própria imaginação, aplicando conceitos matemáticos e da física, entre outros ensinamentos.

Assim, a professora afirma ter envolvido até aqueles que eram considerados os mais indisciplinados.

COMUNIDADE VIBRA COM INDICAÇÃO​

A indicação da professora Débora Garofalo é também comemorada por pais, alunos e colegas de trabalho. A educadora é vista como motivo de inspiração por quem convive com ela.

“Comecei a gostar mais de matemática depois de aprender a montar as coisas com ela. Também não jogo mais lixo em qualquer lugar”, afirma Kaique Alexsander da Silva Justino, 14, estudante do 9º ano.

A aluna Lívia Kaylane dos Santos Fernandes, 14, também do 9º ano, é só elogios e sonha alto com tudo o que aprendeu. “Fiz até um labirinto elétrico, com luzes que se acendem. Já pensei até em montar um carro voador”, afirma.

“Dá muito orgulho da professora e também dos alunos, por tudo o que eles fazem. A minha filha fala muito bem das aulas, gosta muito do que aprende”, afirma a auxiliar de limpeza Tairine Santiago dos Santos, 27, que além de mãe da aluna Tauane, do oitavo ano, também trabalha no colégio.

Professora do ensino fundamental 1, Alva Garcez, 47, elogia a colega. “São professores que se importam com as condições de vida dos alunos”, afirma.

O coordenador pedagógico Luiz Fernando Machado, 33, é um dos incentivadores de Débora e viu de perto a transformação. “Até alunos que têm dificuldade em língua portuguesa e matemática desenvolvem coisas impressionantes. Eles se apropriam da escola. O aprender não precisa estar relacionado só a papel e lousa.”

DOCENTE DÁ DRIBLE NA REALIDADE

Coordenador do curso de Pedagogia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Ítalo Francisco Curcio afirma que o reconhecimento conquistado pela professora Débora Garofalo é merecido, por ela conseguir envolver os alunos mesmo em uma realidade adversa.

“Para mim, é a verdadeira professora. Se colocá-la em um colégio de alto nível, ela será brilhante, como também é brilhante em uma escola em uma região carente”, afirma.

Segundo Curcio, a habilidade demonstrada pela professora não isenta os governos da responsabilidade de fornecer recursos para a educação. Porém, diz que um bom educador faz diferença na sociedade. “Quando chama o aluno, ela o desperta, o útil e protagonista. Ficamos maravilhados, porque são poucos”, afirma.

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