Descrição de chapéu Vestibular no meio do ano

É melhor deixar debate acalorado fora das provas no vestibular, diz especialista

Se surgirem questões sobre política, orientação é privilegiar bons argumentos

Homem de pé, vestindo camisa rosa, e mulher sentada, usando camiseta marrom, em sala cheia de cadeiras pretas
A estudante Isabela Maluly e o coordenador pedagógico Daniel Perry, em São Paulo - Alberto Rocha/Folhapress
 
Luciana Alvarez
São Paulo

Em um ano em que a doutrinação ideológica nas universidades tornou-se tema prioritário do governo, não há consenso entre alunos e professores de cursinhos se o debate chegará às provas de vestibular de meio de ano. 

Os especialistas aconselham aos estudantes que, caso se deparem com uma questão potencialmente polêmica, evitem discussões acaloradas e foquem esforços em uma boa argumentação.

“O que se espera é que o candidato consiga estabelecer relações, pense nas causas e efeitos de cada fenômeno. Se usar palavras muito fortes, classificar o corte de verbas das universidades como ‘nefasto’ ou ‘imprescindível’, por exemplo, vai ter dificuldade de sustentar isso na argumentação”, explica Gabriela Carvalho, coordenadora de redação do curso Poliedro.

Isso não significa, porém, que os estudantes devam ficar alheios às discussões políticas ou ideológicas, segundo a coordenadora. 

Ela diz crer, por exemplo, que o bloqueio de cerca de 30% das verbas das universidades federais, anunciado na semana passada pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, e que causou protestos do setor, terá espaço nos exames de meio de ano.

“Talvez algumas provas cobrem isso de forma mais implícita que outras, apresentando um gráfico com as verbas das instituições”, diz.

Carvalho lembra que algumas provas são “tradicionalmente ousadas” na abordagem política, como a aplicada pela Vunesp, fundação responsável por aplicar o vestibular da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo). 

“A Vunesp é umas das que têm peito para encarar todo tipo de questão e pede um posicionamento claro dos candidatos. A Fundação Getúlio Vargas também sempre traz questões bem polêmicas”, lista a coordenadora.

Para a professora de história no Colégio Equipe Eliane Yambanis, como o país passa por um momento político muito singular, é cada vez mais comum que os exames levem o “mundo real” para dentro da prova.

A estudante Isabela Maluly, 18, é uma das que se preparam para responder questões de cunho político nos três vestibulares que irá prestar para cursos de direito e comunicação em faculdades particulares de São Paulo. “Não acredito que as instituições vão fugir de temas supostamente ideológicos”, diz Maluly.

Já para o coordenador do Anglo Vestibulares, Daniel Perry, é pouco provável que o discurso do governo federal contra a “ideologia” na educação se concretize em uma mudança na abordagem dos vestibulares. 

“Ainda que tenhamos neste ano temas mais ‘chapa branca’, não significa que tenha havido interferência [do governo]. Isso já aconteceu em outros momentos, mesmo no Enem na época dos governos petistas”, afirma.

Ele diz que a preparação dos alunos para vestibulares segue inalterada, independentemente das polêmicas em torno da atual gestão. 

“Nos cursos preparatórios, o que impera é o pragmatismo. Os professores trabalham com base em evidências: veem como foram as provas dos anos anteriores para montar suas aulas.”

O estudante Tales Andrade Paiva, 20, que tenta pelo terceiro ano uma vaga em medicina na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), diz imaginar que, desta vez, vai se deparar com temas mais neutros nas provas. 

“Acho que as universidades públicas, sobretudo as federais, por causa do corte de verbas, não vão cobrar assuntos que possam vistos como ideológicos, para não parecer que estão provocando o Ministério da Educação.”

Todos, no entanto, são unânimes em apontar outros dois temas que devem ter espaço garantido nas provas deste ano: o rompimento da barragem em Brumadinho (MG) e a crise na Venezuela. 

De acordo com os professores, os dois itens podem ser abordados tanto a partir de uma perspectiva mais técnica quanto por um viés mais político.

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