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Escolas devem fomentar a criatividade, e não o empreender em si

Instituição pode assumir função de construir habilidades como comunicação e pensamento crítico

Ulisses F. Araujo

O que significa ser empreendedor? De acordo com a plataforma Enterprising Oxford, da Oxford University, não se trata só de começar um negócio ou de criar uma empresa a partir de pesquisas. É uma mentalidade. 

O empreendedor pensa e faz as coisas de maneira diferente, flexível, adaptável.

Conhece bem o seu campo de atuação para poder criar oportunidades, compartilha ideias livremente e celebra as falhas como aprendizado. Como se diz por aí, ser empreendedor significa pensar "fora da caixa".

Essa definição mostra uma série de competências e habilidades necessárias para o desenvolvimento da mentalidade empreendedora, como a criatividade, a capacidade de comunicação, o pensamento crítico, a resolução de problemas e outras mais.

Uma questão que permeia a sociedade nos dias atuais é sobre quem deve promover essa maneira de pensar.

A resposta, em geral, recai sobre a escola, enquanto instituição responsável pela educação das novas gerações.

Será que a escola, já sobrecarregada de tantas outras responsabilidades, deve assumir mais essa, de formar empreendedores? Será que todos os estudantes devem ser empreendedores? 

A resposta a essa pergunta pode ser negativa ou positiva, dependendo de nossa visão de mundo e de sociedade, e sobre a função da escola.

Com certeza não é tarefa da escola desejar que todos os estudantes comecem um negócio ou criem uma empresa.

No entanto, pode, sim, ser considerada função da escola a de promover a construção das competências e habilidades de criatividade, capacidade de comunicação, pensamento crítico e resolução de problemas.

Assumindo, por exemplo, um novo papel relevante para a formação pessoal e profissional de crianças e jovens, para toda e qualquer dimensão da vida futura.

Especialmente se tais habilidades estiverem atreladas à construção da competência ética e de responsabilidade social.

Trabalhar na escola essas competências e habilidades, portanto, é possível e desejável nos dias atuais, como bem determina a BNCC (Base Nacional Curricular Comum), desde as séries iniciais do ensino fundamental. 

O foco, no entanto, não deve ser o de formar empreendedores por si só. E sim o de promover a formação de potenciais empresários, se assim o desejarem.

E também designers, médicos, engenheiros, professores, filósofos, geneticistas etc., desde que tenham a mentalidade criativa. 

Alguns se tornarão empreendedores no sentido de criar negócios e empresas, mas outros terão as competências e habilidades para atuar nas múltiplas dimensões e profissões da vida pessoal, econômica, social e cultural.

Concluindo, essa discussão nos remete ao que Howard Gardner, professor da Universidade Harvard, no seu trabalho "The Good Project", define como sendo a boa educação: aquela pautada na excelência, na ética e no engajamento. 

As escolas e universidades devem se lembrar desses princípios ao formar empreendedores, bem como todo e qualquer profissional.

Professor titular da USP e coordenador do The Good Project Brasil

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