Descrição de chapéu Escolha a escola

Troca de colégio antes de fim de ciclo é ruim, mas às vezes faz parte

Se os pais percebem que erraram na escolha da instituição precisam saber corrigir, mas sem pressa e sem culpa

Rosane Queiroz
São Paulo

Mudanças de escola, em geral, marcam o fim de um ciclo, da educação infantil para o ensino fundamental, e do fundamental para o médio. Mas, e quando se fez uma escolha errada?

O melhor é evitar a troca em meio de período, por isso é importante, antes de escolher, estudar o projeto político-pedagógico da instituição.

A psicóloga e psicopedagoga Fabiana Aragão Wassall lembra, entretanto, que não existe "a melhor" escola. "Há grandes, pequenas, colaborativas, religiosas etc. É preciso definir as prioridades", diz ela. 

Glória Viana e o filho, Lucca, 12, em sua casa 
Glória Viana e o filho, Lucca, 12, em sua casa  - Keiny Andrade/Folhapress

Antes de optar, é recomendado visitar a escola em dias diferentes e conversar com pais de alunos, para ter várias referências. Sem deixar de levar em conta, também, a personalidade da criança.

"Quando os filhos são pequenos, a escola tem o perfil dos pais. Na adolescência, é preciso considerar o perfil do filho", afirma a especialista. 

Lucca, 12, passou por uma saga até chegar ao Colégio Equipe, em Higienópolis, onde cursa o sexto ano do fundamental. Antes, fez o pré em um colégio tradicional, definido por sua mãe, a nutricionista Glória Viana, 36, como "uma máquina", onde os pais não tinham "voz ativa".

Descontente, ela optou pela mudança para uma escola trilíngue, tida como de elite, com uma proposta mais humanista e individualizada. Ali, no ensino infantil, ela sentiu que escolhera errado.

"Lucca vivia de castigo, trancado na sala da diretora, levando advertências. Uma coordenadora sugeriu medicá-lo com tarja preta", lembra. 

Embora soubesse que o filho tinha dificuldades de adaptação, Glória se decepcionou com a forma como a escola lidou com isso. "Não me senti acolhida. Nas reuniões, os pais eram agressivos, não havia um olhar coletivo", diz. 

Aí, ela transferiu o filho, no meio do ano, às pressas, para um colégio pequeno, de bairro, meio "fraquinho", onde ele fez escala rápida até surgir uma vaga no Equipe, onde se adaptou. Não sem repetir um ano.

"A repetição foi parte da adaptação, para ele rever as matérias. Quando Lucca fica bem emocionalmente, tira boas notas. Agora, faz terapia, tem amigos e eu me dou bem com outros pais", diz Glória. 

Importante, em casos assim, é que a criança recupere a confiança na escola, diz Luciana Fevorini, diretora do Equipe.

"Se há comportamento que merece punição, corrigimos, deixando a mensagem que o aluno tem capacidade de melhorar. Lucca demorou, mas resgatou a confiança e evoluiu na sociabilidade."

Sinais comuns de falta de adaptação são recusa em ir às aulas, dificuldade de fazer amigos e sentimentos de tristeza ou de ansiedade na volta da escola. "Frequentar reuniões de pais é fundamental para ter pistas sobre o comportamento da criança e trocar opiniões", aconselha a diretora.

"Percebi que algo não ia bem porque minha filha voltava estressada da escola", diz a empresária Milene Musitano, 49. Pensando em facilitar a transição do ensino fundamental ao médio, ela apostou em mudança radical para Isabella, na virada do sexto para o sétimo ano. A menina deixou o colégio de freiras onde estava desde o jardim da infância e foi para um focado no vestibular. 

Mas a mãe sentiu que a disciplina da nova escola deixava a desejar. "Eram 40 alunos na classe, nos intervalos ficavam soltos, sem supervisão", critica. Isabella reclamava que os meninos "zoavam" as meninas, pegavam suas mochilas à força e as atiravam longe. 

Um dia, um colega pisou de propósito no celular dela. "Busquei ajuda na escola e nem tive retorno", diz a mãe. 

Então, Milene optou por nova mudança no final do ano. Acertou nesse ponto: não se deve tirar a criança do colégio de um dia para o outro.

"A mudança no meio do ciclo pode causar traumas e dificultar de adaptação na nova escola. É essencial fazer a passagem conversando com o filho e a escola, para entender o que deu errado e aumentar as chances de acertar na próxima", diz Fabiana. 

Hoje, Isabella, aos 14, cursa o primeiro ano do ensino médio no Colégio Internacional Emece, na Pompéia. 

Quando adultos tratam as correções de rota com leveza, ajudam a criança. "Os pais se culpam pela escolha. É importante não passar esse peso ao filho", diz a pisicopedagoga.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.