Descrição de chapéu Palavra Aberta

Somos todos jornalistas?

A internet nos deu poder de produzir e disseminar informações, sem necessariamente nos preparar para as responsabilidades

Há pouco mais de um ano, o Museu Nacional no Rio de Janeiro queimava diante dos olhos de quase todo o país. Era praticamente impossível não saber do incêndio, em meio a uma avalanche de imagens, vídeos, mensagens, testemunhos e opiniões das mais variadas – produzidas e compartilhadas praticamente em tempo real. 

Tela de smartphone com a rede social Twitter
Tela de smartphone com a rede social Twitter - Alastair Pike / AFP

Apenas no Twitter, a tragédia rendeu 1,6 milhão de postagens em menos de 20 horas, de acordo com dados da Sala de Democracia Digital (uma iniciativa da Fundação Getúlio Vargas). Não só nessa plataforma, mas nas redes sociais de uma maneira geral, foi travada uma “guerra de versões” sobre as causas e os responsáveis pelo incêndio. ​

Em um passado nem tão distante mas radicalmente diferente, 188 pessoas morreram no incêndio que atingiu o edifício Joelma, em São Paulo. Era fevereiro de 1974. O episódio foi tão grave que marcou a história da prevenção a incêndios no país, dando origem a normas mais rígidas de segurança para os prédios. Mas, apesar da dimensão e da gravidade das chamas, é possível que algumas pessoas só tenham sido informadas do acontecimento pelos jornais do dia seguinte.

Naquele momento, as notícias percorriam um caminho mais longo e, até certo ponto, previsível. Eram publicadas em jornais impressos ou transmitidas pelo rádio e pela TV. Por trás da informação havia sempre a figura de um jornalista profissional – responsável por investigar, entrevistar, confirmar, hierarquizar e, finalmente, divulgar o que tinha acontecido.

Agora vivemos um cenário totalmente diferente. A internet e, principalmente, a popularização dos smartphones e de outros dispositivos similares alteraram profundamente a nossa relação com a informação, possibilitando a clara fusão dos papéis de consumidor e produtor de conteúdos.

Dar voz a novos atores é algo poderoso. Mas todo poder exige responsabilidade, e essa responsabilidade passa pela seleção de palavras, imagens ou vídeos que serão compartilhados, para que não sejam falsos ou ofensivos, pela escolha de fontes apropriadas e de credibilidade, pelo entendimento das regras de copyright, pela percepção de que toda produção carrega junto nossa visão de mundo, entre outros vários aspectos.

Posturas como essas precisam ser estimuladas – e ensinadas. Esta é a missão da educação midiática.

Queremos que crianças e jovens desenvolvam as habilidades necessárias para atuar de maneira reflexiva no ambiente informacional em que estamos mergulhados. 

Na escola há boas oportunidades para incentivar a produção responsável de conteúdos.  Ao propor uma pesquisa, por exemplo, você pode discutir com os alunos a importância de selecionar fontes de qualidade e que saibam do que estão falando ou de ouvir diferentes pontos de vista.

É possível refletir sobre a necessidade de confirmar quaisquer dados antes de transmiti-los e debater conceitos como direito de imagem, autoria e plágio. Isso sem falar nas decisões inerentes a todo processo de construção de conhecimento: escolher, editar, hierarquizar e, finalmente, apresentar de maneira clara o que foi encontrado para o público (mesmo que seja apenas o professor).

Nada muito diferente do que deve ser o processo jornalístico. O repórter precisa pesquisar, procurar fontes, entrevistar, confirmar dados, selecionar materiais, editar e hierarquizar para, então, publicar aquilo que descobriu.

Tais procedimentos são úteis para todos nós. Como consumidores, é nosso direito que as informações cheguem até nós com todos esses cuidados. Como produtores, é nosso dever que as informações sejam assim desenvolvidas.

Sem isso, já sabemos os riscos a que estamos expostos. O fenômeno das “fake news”, por exemplo, escancarou as fragilidades de uma sociedade despreparada para lidar com o fluxo inédito de informações a que temos acesso hoje em dia. 

Seja pela falta de responsabilidade de alguns atores mal-intencionados ou pela ingenuidade de outros, o fato é que é difícil encontrar hoje alguém que tenha passado totalmente imune pelos problemas causados pela desinformação. 

Não existe solução mágica ou bala de prata capaz de criar, de uma hora para outra, um ambiente informacional 100% saudável. Mas é possível caminhar em direção a ele e, nesse caso, a educação é certamente a trilha mais segura.

Daniela Machado

Coordenadora do EducaMídia, programa de educação midiática do Instituto Palavra Aberta

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