'Enem não é para polemizar', diz ministro sobre falta de questões sobre ditadura

Prova foi a primeira em ao menos dez anos que não tratou do tema

Thiago Resende Daniel Carvalho
Brasília

Ao comentar a ausência de questões no Enem sobre a ditadura militar (1964-1985), o ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse que o objetivo da prova “não é dividir, nem polemizar, nem doutrinar”.

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Levantamento feito pela Folha mostrou que a primeira edição do Enem sob o governo Jair Bolsonaro (PSL) foi também a primeira em ao menos dez anos que não trouxe nenhuma questão relativa à ditadura nas provas de ciências humanas e linguagens.

“A gente já pode começar falando em regime militar, ditadura militar. Essa é uma discussão que eu acho que a gente não vai caminhar para nenhum lugar”, respondeu o ministro ao ser questionado sobre o assunto.

O ministro da Educação, Abraham Weintraub
O ministro da Educação, Abraham Weintraub - Luciano Freire/MEC

Weintraub afirma que, antes da realização da prova, não teve acesso a nenhuma questão. “E se não caiu [questões sobre a ditadura militar], eu não participei das escolhas das questões”.

Em linha com o discurso do ministro, o presidente do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), Alexandre Lopes, declarou que a prova buscou cobrir toda a base curricular do Ensino Médio sem gerar polêmicas.

Neste domingo (3), os pouco mais 5 milhões de inscritos tiveram de responder a 90 questões distribuídas entre as áreas de linguagens (língua portuguesa, inglês ou espanhol e literatura), geografia, história, e uma redação cujo tema foi “Democratização do acesso ao cinema no Brasil”.

Cerca de 3,9 milhões compareceram ao local de prova. A abstenção de 23%, segundo o ministro, foi a menor da história. Há registro de 376 pessoas eliminadas, por exemplo, por problemas de comportamento e por se recusar a fazer a análise biométrica. “Foi muito tranquilo. Eu esperava até mais probleminhas operacionais”, disse Weintraub.

A segunda etapa do Enem ocorrerá no próximo domingo (10). A expectativa do governo é que a abstenção continue baixa. A Polícia Federal está ainda apurando o vazamento de uma imagem da prova do Enem. Uma pessoa que aplicava a prova é suspeita de ter cometido o ilícito, mas o ainda não foi divulgado o nome do acusado.

O ministro disse que fará o possível para punir o responsável. “O que a gente vai tentar é escangalhar ao máximo a vida dele. Eu sou a favor, sempre, que a pessoa que é um transgressor pague o preço da transgressão dela. Eu sou uma pessoa que acha que as punições no Brasil são leves”, declarou Weintraub. E completou: “Vamos atrás dele. Não estamos mais no império romano. Não existe mais empalamento nem crucificação”.


À noite, Jair Bolsonaro foi ao jogo Itália x Paraguai, pela Copa do Mundo Sub-17, em Brasília e comentou o primeiro Enem de seu governo quando abordado por jornalistas ao cumprimentar torcedores paraguaios.

"O tema da redação foi justificável, não foi nada de anormal. Então, foi bem", afirmou Bolsonaro.

Indagado sobre o vazamento da prova, também relativizou o caso. "Já está quase identificado quem foi que vazou e parece que foi quando iniciou a prova que vazou. Uma página. Ele tirou uma fotografia e vazou uma página, esta foi a informação que eu tive até o momento", disse o presidente.

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