Pesquisa científica aproxima estudante do ensino médio da universidade pública

Alunos vêem nas bolsas uma oportunidade de aprender de forma mais prática

Raphael Preto Pereira
São Paulo

Quando começou a estudar na Escola Técnica Estadual Santa Efigênia, na região central de São Paulo, Victor Luigi, 15, do primeiro ano do ensino médio, já tinha interesse por pesquisa acadêmica. O gosto foi despertado pela irmã, que cursou licenciatura em ciências da natureza na USP (Universidade de São Paulo). “Ela me levava em alguns eventos abertos na área de ciências na faculdade e despertava curiosidade”, diz ele.  

No início de 2019, ele soube de um edital para pré-iniciação científica destinado a estudantes de ensino médio e foi um dos 11 mil bolsistas contemplados com uma bolsa de R$ 100 pelo programa do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). A instituição ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, promove essa modalidade desde 2003. 

Com o auxílio de uma professora da ETEC e de uma docente da USP, Victor vai desenvolver uma pesquisa sobre jogadores de basquete em cadeira de rodas

Laboratório no campus de Pirassununga da USP, uma das universidades que têm pesquisadores bolsistas do ensino médio
Laboratório no campus de Pirassununga da USP, uma das universidades que têm pesquisadores bolsistas do ensino médio - Gabriel Cabral - 30.set.19/Folhapress

Seu interesse pelo esporte praticado por pessoas com deficiência foi natural: ele jogou basquete durante um ano como armador. “Quando descobri a existência dessa modalidade para pessoas com deficiência, comecei a pensar em maneiras de ajudar os praticantes do esporte. O objetivo é pesquisar e entender a rotina dos jogadores, identificando também as dificuldades que eles têm”, diz o jovem cientista. O projeto faz parte do Espaço Ciência Cultura e Educação (ECCE) da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (Each) da USP Leste.  

Vitor afirma ter tido dificuldade para entender como eram os procedimentos para a inscrição. “Tive a ajuda da minha irmã, que tinha feito iniciação científica na faculdade. Mas, no geral, acho que é pouco divulgado”, afirma. 

Um ponto negativo é o baixo orçamento: apenas 1,5% do que é investido em pesquisa vai para os projetos relativos ao ensino médio, e esse valor engloba também as bolsas dadas aos estudantes que tem bom desempenho na Olímpiada brasileira de matemática (OBMEP).

Outro fator que joga contra o incentivo à pesquisa é a forma de contratação da maioria dos docentes da educação básica. Via de regra, eles são pagos por hora-aula. Isso significa que, quando um educador no ensino médio trabalha como orientador de uma pesquisa, não ganha nada a mais por isso.

Além da USP, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a Universidade de Campinas (Unicamp) também têm pesquisadores bolsistas no ensino médio. O orçamento do CNPq para bolsas de todas as modalidades é de R$ 784 milhões para 2019. 

Lucas Lima 16, Maria Yoshida, 15, e Isaque Sena, 16 pretendem utilizar drones para desenvolver métodos mais acessíveis de automação residencial. Eles são alunos do Instituto Técnico de Barueri (ITB).

Lucas aponta que muitas vezes a iniciação científica é uma oportunidade de ter  contato com uma forma de aprendizado mais prática, algo que não ocorre no ensino médio.  “No ano passado, por exemplo, eu tinha uma matéria que se chamava técnica de processos construtivos. Não via muita relevância nela porque era um aprendizado muito teórico. Aqui [na iniciação científica] a gente aprende fazendo”, afirma.

Entre agosto e novembro deste ano, as bolsas do projeto sofreram um contingenciamento. Agora, o pagamento foi normalizado, mas três meses de financiamento não serão pagos. 

“Fazemos um trabalho de formiguinha, que é para mostrar ao estudante de escola pública que estudar em uma universidade pública também é possível”, diz Edwaldo Simões Júnior, professor doutor da Escola Politécnica e responsável pela orientação do projeto. O educador Ulises Mendes, professor dos alunos no ensino médio, também acompanha a pesquisa. 

Edwaldo tem experiência na orientação de pesquisas com alunos do ensino médio. No ano passado, ele orientou Victor Alves e Luana Torres, ambos de 19 anos, que hoje estudam na USP. “O nosso projeto foi sobre topografia, e eu aprendi a utilizar vários equipamentos que usava na pesquisa e que voltei a utilizar no primeiro ano da faculdade. A gente tem alguma coisa de desenho topográfico na escola, mas é muito diferente, tinha poucos equipamentos, então no ensino médio foi mais teórico”, diz Victor. 

Para o Fernando Cássio, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), que já orientou trabalhos de iniciação científica no ensino médio e é membro da Rede Escola Pública e Universidade (REPU), a pré-iniciação científica ajuda a quebrar alguns mitos sobre a educação pública.

“Há uma demonização da escola, e ainda mais da escola pública, mas o fato é que esses estudantes estão procurando a iniciação científica. Alguma coisa estimula esses jovens a quererem mais e a extravasar a escola”, afirma o docente. 

Fernando reforça também a importância do contato com a metodologia de pesquisa já no ensino médio: “a gente vive querendo defender uma educação investigativa, que faça sentido para o estudante, a prática da pesquisa, de se pensar, investigar e responder a partir de métodos e metodologias de pesquisas. O estudante que está nesse movimento já superou a escola, no sentido de que o que ele deseja e precisa já não está mais lá. Mas mesmo assim, o fato deste estudante procurar a universidade demonstra que coisas interessantes acontecem na escola, e principalmente na escola pública”, diz ele. 

Além disso, segundo o docente, a aproximação da escola pública também é benéfica para as universidades: “dificilmente a escola é vista como espaço com pesquisadores em potencial; geralmente o espaço escolar é visto somente como objeto de pesquisa. A chegada de pesquisadores vindos de uma escola pública inverte essa relação de um jeito muito positivo”, diz o professor.

Beatriz Melo, 18, é estudante da Unesp, cursou escola pública e teve o primeiro contato com a universidade através de uma iniciação científica na escola. Ela desenvolveu um projeto na área de humanas quando estava no ensino médio e hoje cursa o primeiro ano de pedagogia.

“É muito interessante porque, quando fiz iniciação científica, o projeto também tratava de questões relativas à pedagogia, como o bullying, que é um tema que eu voltei a estudar com a mesma professora que orientou minha pesquisa no ensino médio”, diz a aluna.

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