Prefeito de Salvador, ACM Neto, vai vetar projeto que tira nome de Paulo Freire de escola pública

Medida foi aprovada por vereadores da capital baiana um dia depois que presidente Bolsonaro chamou educador de 'energúmeno'

Salvador

O prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), afirmou nesta quinta-feira (19) que vai vetar o projeto aprovado pela Câmara Municipal de Salvador que retiraria do nome do educador Paulo Freire (1921-1997) de uma escola municipal da capital baiana.

Ao justificar a decisão, o prefeito disse que respeita as diferenças e alegou que não faz sentido trocar o nome de uma escola para atender a uma questão ideológica.

“As minhas decisões não são tomadas com ideologia. Temos que respeitar as diferenças ideológicas, mesmo sendo projeto de autoria do vereador do meu partido, da minha bancada”, afirmou o prefeito em entrevista a jornalistas na inauguração de uma unidade de saúde.

Fachada da escola municipal Educador Paulo Freire, que teve o seu nome mudado pela Câmara Municipal de Salvador
Fachada da escola municipal Educador Paulo Freire, que teve o seu nome mudado pela Câmara Municipal de Salvador - Rose Tatiane Barreto/Divulgação

O projeto foi proposto pelo vereador Alexandre Aleluia (DEM), um dos principais nomes do bolsonarismo na Bahia e que deve migrar para o novo partido que está sendo formado pelo presidente Jair Bolsonaro, a Aliança pelo Brasil. 

A proposta foi aprovada um dia depois de Bolsonaro se referir a Paulo Freire como energúmeno. Patrono da Educação Brasileira, Freire é considerado um dos principais pensadores da pedagogia mundial e ganhou notoriedade ao desenvolver um método de alfabetização que estimula a valorização do saber do aluno e o aprendizado como forma de transformação política.

O projeto aprovado previa que a escola tivesse o seu nome alterado para escola municipal José Bonifácio, em homenagem ao patriarca da Independência do Brasil. Fundada em 1997, a unida de ensino tem 264 alunos e fica no bairro do Arraial do Retiro, periferia de Salvador.

A mudança do nome da escola foi criticada pela comunidade escolar, que afirma que em nenhum momento foi consultada sobre o assunto. “Estamos surpresos e perplexos. Foi algo que aconteceu de repente, sem o nosso conhecimento. Não concordamos com essa mudança”, afirma a diretora da escola Rose Tatiane Barreto, 45.

Também houve críticas de vereadores da oposição e da base do prefeito ACM Neto. Líder do PT na Câmara Municipal, a vereadora Marta Rodrigues afirmou que o projeto foi incluído na pauta de última hora e votado sem a explicação de que haveria a retirada do nome de Paulo Freire da escola.

“A intenção do projeto de Aleluia é claramente perseguir Paulo Freire por causa do ódio que ele nutre pelo pedagogo, assim como o presidente Bolsonaro. [Ele quer] afrontar professores e todos aqueles que prezam pela diversidade e pluralidade na educação”, afirma.

O vereador Téo Senna (PHS), que é aliado do prefeito e tem base eleitoral no bairro de Arraial do Retiro, também criticou a alteração do nome da escola.

“É muito triste ver situações em que a mera questão ideológica vai de encontro com a vida das pessoas. Como uma pessoa que nunca pisou em Arraial do Retiro quer mudar aleatoriamente o nome de uma escola?”, afirmou.

O educador Paulo Freire tem sido alvo de constantes críticas do presidente Jair Bolsonaro e do ministro da Educação Abraham Weintraub.

Na última segunda-feira (16), Bolsonaro criticou Freire ao defender o cancelamento de contrato do Ministério da Educação com a TV Escola.

“Era uma programação totalmente de esquerda. Ideologia de gênero. Tem que mudar. Daqui 5, 10 anos vai ter reflexo disso aí. 30 anos em cima dessa ideologia aí desse Paulo Freire, desse energúmeno aí que foi ídolo da esquerda”, afirmou o presidente.

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