SP tem salas de aulas lotadas, mas melhor infraestrutura que a média nacional

Com relação às vagas nas creches, o estado mais rico do país tem o segundo pior desempenho

São Paulo

São Paulo está entre os estados brasileiros com mais alunos cursando séries escolares na idade certa, além de ter melhor infraestrutura nas escolas e professores mais qualificados quando comparado à média nacional.

O estado, porém, vai pior em outros indicadores que influenciam a qualidade da educação, como número de alunos por sala e satisfação dos docentes com a carreira.

Esse diagnóstico detalhado foi revelado por um extenso estudo recém-concluído pelo pesquisador Ricardo Paes de Barros, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper.

O trabalho indica características, incluindo pontos positivos e negativos, dos sistemas educacionais das 27 unidades da federação.

No caso da adequação da idade dos alunos à série, São Paulo consegue o bom desempenho com uma participação do setor privado na educação maior do que a média nacional em quatro das cinco etapas do ensino básico.

 
 

Os governos municipais respondem por apenas 52% das vagas nas creches do estado mais rico do país.

Esse número é 14 pontos percentuais inferior à média de 66% registrada no Brasil como um todo. 

Esses números fazem de São Paulo a unidade da federação com o segundo pior desempenho nesse quesito, perdendo apenas para o Distrito Federal, onde o percentual de vagas em creches na rede pública é de apenas 3%.

Em proporção um pouco menor, mas ainda marcante, a situação de baixa presença relativa do setor público de São Paulo na educação também ocorre nos anos finais do ciclo fundamental e no ensino médio.

O estudo também traz, em alguns casos, projeções do que deve ocorrer na esteira da chamada transição demográfica, processo vivido atualmente pelo país, que envolve a queda simultânea e rápida das taxas de natalidade e mortalidade.

 

O estudo ressalta que, por envolver um declínio no número de alunos em idade escolar, essa mudança abre espaço para uma economia de recursos que pode ser revertida em prol da própria educação.

Mas para que a transição demográfica se transforme em oportunidade de melhora da qualidade do ensino, é preciso que os governantes apontem na direção das mudanças mais adequadas para seus respectivos estados. 

Por isso, a pesquisa indica as peculiaridades de cada unidade da federação, assim como escolhas de políticas possíveis dentro de sete temas diferentes, ressaltando sempre o que mostram as evidências empíricas acerca da efetividade de cada uma delas.

Entre os caminhos apresentados, há escolhas difíceis do ponto de vista político, tais como: reduzir o número de alunos por turma ou manter classes mais cheias em um número menor de escolas? 

No quesito lotação, São Paulo também tem um dos piores desempenhos do país. As turmas tanto da pré-escola quanto dos anos finais do ensino fundamental do estado são as mais cheias do país, com tamanhos médios de, respectivamente, 23 e 29 alunos. No Brasil como um todo, esses números caem para 19 e 24 estudantes por turma, respectivamente.

Segundo a pesquisadora Laura Machado, que integrou a equipe do estudo, fatores como esse podem ajudar a explicar a participação relativamente menor do setor público nas matrículas escolares em São Paulo.

“Não me parece que é um problema de oferta de vagas, mas de falta de demanda, com muitas famílias preferindo que seus filhos estudem em escolas privadas, em busca de maior qualidade e melhor logística”, diz a especialista de educação da cátedra Instituto Ayrton Senna do Insper.

No caso específico das creches, segundo Laura, o grande peso de escolas privadas em São Paulo pode não se explicar apenas por preferência das famílias mas também pela baixa oferta de vagas nas redes municipais.

Ela ressalta que esse é o estágio educacional do país em que as unidades da federação estão mais longe da universalização.

No caso do ensino médio —em que o Brasil tem o grande desafio de reduzir uma taxa muito alta de evasão—, o índice de São Paulo é de 74%.

Embora muito abaixo dos 100% ideais, o dado paulista é o mais alto do país, que tem uma média nacional de apenas 61%. 

Esse não é o único destaque positivo da educação no estado, que também vai bem em quesitos como infraestrutura.

Segundo a pesquisa do IAS, estudos apontam que condições básicas para funcionar —como eletricidade, rede de saneamento adequado e boa conservação das salas de aula— têm efeito positivo sobre a aprendizagem. Mas as evidências não são claras sobre o peso desse impacto. 

Já a qualidade do professor é indicada pelo trabalho como o fator que mais influencia o desempenho dos alunos. 

Nesse ponto, São Paulo tem problemas graves em comum com outros estados, como um perfil de alunos de pedagogia e licenciaturas com grande déficit educacional em relação aos estudantes de outras áreas. 

Mas, em outros aspectos relacionados à qualidade docente, o maior estado do país vai bem em comparação à média nacional.

É, por exemplo, a unidade da federação com o maior percentual de professores dos anos iniciais do ensino fundamental, na rede pública, com diploma de licenciatura.

O estado também se destaca em termos de docentes com formação relacionada à área que lecionam. 
Apesar disso, o quadro de professores da rede pública do estado é pouco motivado.

O ambiente escolar, que tem sido alvo de um número crescente de pesquisas, é, por exemplo, um ponto fraco.

São Paulo é campeão de agressões de alunos a outros docentes ou funcionários da escola que professores relatam ter presenciado.

Tem ainda o segundo pior desempenho em termos de ameaças, atentados ou furtos sofridos pelos próprios docentes. 

 
 
 
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