TV ligada ao MEC vai exibir série sobre história com visão de direita

O primeiro episódio da série 'Brasil: A Última Cruzada' está disponível no YouTube desde 2017

Brasília

A TV Escola, ligada ao MEC (Ministério da Educação), vai iniciar nesta segunda-feira (9) a exibição de uma série sobre a história do Brasil com visão ideológica de direita e conservadora, com entrevistas do escritor Olavo de Carvalho e religiosos.

A série "Brasil: A Última Cruzada" foi realizada pelo grupo Brasil Paralelo e o primeiro episódio está disponível no YouTube desde 2017. Criado em 2016, a produtora se propõe a uma revisão histórica em seus materiais.

Em 31 de março deste ano, aniversário do golpe militar, a produtora lançou "1964: O Brasil entre Armas e Livros", documentário que justifica a derrubada do presidente João Goulart como um movimento de reação a uma real ameaça comunista —é consenso entre historiadores que essa ameaça real nunca existiu.

A série, segundo a TV Escola, faz parte da nova programação do canal. A TV Escola é gerida pela Associação Roquette Pinto com recursos públicos repassados pelo MEC. O material foi cedido e não haverá custos para a exibição.

No documentário, a história é narrada de forma a engrandecer o papel da Igreja Católica e da fé na empreitada de Portugal na chegada ao território que seria o Brasil. O genocídio indígena e a história dos negros escravizados são minimizados.

"Quando falamos dos escravos, lembramos da luta dos abolicionistas", diz o narrador no segundo episódio.

O primeiro episódio, que vai ao ar às 21h desta segunda, propõe-se a retomar o contexto de Portugal nas grandes navegações e segue na cronologia até a ação dos bandeirantes. 

Nas palavras do deputado Luiz Philippe de Orléans e Bragança (PSL-SP), que é descendente da família real, o fator motivador das grandes navegações portuguesas foi mais religioso do que mercantil.

"Você não se lança no pequeno barco através de um oceano que você não conhece para encontrar um pau brasa vermelhinho. Não é isso, é para encontrar a terra prometida, é para encontrar a terra abençoada", diz ele, no primeiro episódio. 

"Não era coisa pequena, frívola, como se constrói [entre historiadores]. Claro, é mais difícil se contar essa história para um número grande de pessoas."

A série tem início com uma breve fala do historiador Alberto da Costa e Silva, que não aparece mais no primeiro capítulo. No segundo episódio, o historiador Jorge Caldeira também faz colaborações.

Mas são figuras conservadoras que mais se revezam na tela, como Olavo de Carvalho, referência do bolsonarismo, e Luiz Philippe.

Entre os entrevistados estão José Carlos Sepúlveda, intitulado discípulo de Plínio Corrêa de Oliveira (líder da TFP, a Tradição, Família e Propriedade), o delegado, católico e autor de livros jurídicos Rafael Vitola, o licenciado em história Thomas Giulliano Ferreira dos Santos, que escreveu um livro em que critica Paulo Freire, e o analista político Percival Puggina, também conservador e religioso.

Ainda faz parte Rafael Nogueira, aluno de Olavo, consultor do documentário e recentemente nomeado para a a presidência da Biblioteca Nacional. 

Em seu site, ele se diz bacharel e licenciado em filosofia, bacharel em direito e pós-graduado em educação.

De acordo com a TV Escola, a "avaliação do conteúdo e a escolha dos programas passam pelas áreas de programação, produção e direção". 

A Roquette Pinto tem como diretor-geral-adjunto Eduardo Melo, ligado a ala mais ideológica do governo e que teve seu nome incensado entre olavistas para assumir o MEC.

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, também se associa ao grupo mais ideológico do governo e se diz admirador de Olavo de Carvalho.

Foi a TV Escola quem buscou a empresa, segundo um dos sócios, Lucas Ferrugem, que diz não lembrar de quem veio o contato.

O empresário ressalta que o grupo é independente, não recebe dinheiro público e um contrato foi firmado entre as partes para que houvesse transparência. O documento tem duração de três anos e foi assinado entre a TV Escola e a produtora Brasil Paralelo.  

Ferrugem disse que os materiais da empresa não são enviesados mas, segundo ele, haveria um predomínio da visão de esquerda entre historiadores. 

Já os entrevistados teriam sido escolhidos em um processo que envolveu consulta a professores de história e ao público —também foram usados, segundo ele, vasta bibliografia, como a obra do historiador Pedro Calmon (1902-1985).

Questionado sobre a falta de pluralidade de visões, Ferrugem disse que a "a pluralidade é o compromisso com a verdade". 

"A gente esta ali buscando a verdade. Se acharem que disse alguma coisa, e nós formos pesquisar, e aquilo ali não corresponder com a verdade, ou parecer mais precário com informação que compete com aquela, vamos buscar informação mais sólida."

O MEC não respondeu aos questionamentos da Folha

No ano passado, a Roquette Pinto recebeu R$ 73 milhões do MEC. Além de gerenciar a TV Escola, a associação também é responsável TV Ines, canal voltado a surdos, e pela Cinemateca.

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