Descrição de chapéu Palavra Aberta

Escola precisa debater as relações online e offline pelo bem dos alunos

Isabella Galante Mariana Mandelli

Quantas vezes você já se deparou com casais em restaurantes ou amigos reunidos em uma mesa de bar, sem olharem uns para os outros e sim dando atenção ao que veem na tela dos celulares? Tal imagem é bastante comentada quando o tema é a distância afetiva que os aparelhos tecnológicos estariam criando entre os indivíduos, fazendo com que eles preferissem as interações virtuais ao contato físico.

Há muito se discute, na academia e fora dela, se a web está nos deixando antissociais. Muitos estudos de diferentes áreas tentam dissecar a questão, especialmente quando se trata do público infantil. Apesar das diferentes conclusões, a verdade é que as formas com que os jovens se relacionam hoje é absurdamente diferente das quais seus pais se relacionavam há poucas décadas.

No Brasil, pelo menos 86% das crianças e dos adolescentes, com idade entre 9 e 17 anos, são usuários de internet (24,3 milhões), segundo a pesquisa TIC Kids Online 2018, divulgada em setembro de 2019.

Desenho mostra fileira de alunos em sala de aula segurando telefone celular
Jean Galvão/Folhapress

Em todo o mundo, o impacto do maior acesso à rede já resulta em algumas tendências de comportamento. Um exemplo é o levantamento realizado em 2018 pela Common Sense Media com adolescentes entre 13 e 17 anos nos Estados Unidos. De acordo com o relatório, apenas 32% deles dizem preferir conversar pessoalmente.

Além disso, grande parte das nossas relações cotidianas são mediadas por tecnologia. A consultoria Gartner prevê que até este ano apenas 10% das interações entre consumidor e empresa serão feitas por mecanismos de voz.

Tendo esse cenário em vista, como trazer esse debate para a escola, posto que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) prioriza a cultura digital como uma competência a ser desenvolvida ao longo da educação básica? Explorar a voz ativa que os jovens têm nas redes sociais, ponderando a responsabilidade que ela traz, é o melhor começo.

Nesse sentido, temas como discurso de ódio e cyberbullying merecem destaque. Eles ressignificaram relações sociais outrora presentes apenas fora das redes, e podem ser explorados justamente como forma de mostrar aos alunos e alunas que a web potencializa comportamentos infelizmente comuns ao longo da história humana.

Tais assuntos podem motivar rodas de conversa, debates e seminários que estimulem o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, outra demanda da BNCC. As conversas podem revelar como a sociabilidade do mundo virtual tem efeitos na vida prática, afetando relações e fazendo com que as vítimas se isolem ou desenvolvam distúrbios psicológicos.

Pedir aos estudantes que meçam, durante uma semana, o tempo que gastam no computador e no celular conversando com os amigos versus o tempo que passam juntos fisicamente também é interessante para impulsionar uma discussão que trate do tipo de uso que eles fazem dos aparelhos e das relações. Os resultados podem ser apresentados em gráficos e ilustrações, criados no papel ou em aplicativos.

Em síntese, o universo online e o mundo offline hoje são indissociáveis, e essa percepção precisa fazer parte do cotidiano de crianças e jovens.

É fato que o smartphone de um adolescente o “conhece” melhor do que a maior parte das pessoas que o cerca –é nele que estão armazenados senhas, dados, contatos, números de documentos, históricos de conversas, agenda de compromissos, redes sociais e outros elementos cotidianos e digitais que entregam gostos, preferências e escolhas.

Classificar a tecnologia como algoz das relações e como causa de processos de isolamento social, portanto, dificilmente funcionará no contexto em que vivemos. Prezar por um uso seguro e ético dela, com o objetivo de criar empatia e reforçar afetos, é a melhor opção. 

 
Isabella Galante

colaboradora do Instituto Palavra Aberta

Mariana Mandelli

Coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta

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