Gestão Doria amplia escola de tempo integral, mas só atende metade da demanda

Número de alunos atendidos cresceu 49% em 2020; procura provocou filas nas portas dos colégios

São Paulo

Com melhores índices de qualidade, o ensino em tempo integral tem ganhado espaço nas escolas estaduais de São Paulo, mas ainda atende apenas pouco mais de metade da demanda.

Dados obtidos pela Folha por meio da Lei de de Acesso à Informação mostram que 545,5 mil alunos da rede manifestaram interesse em estudar neste ano em um colégio com carga horária ampliada.

Foi a primeira vez que o dado foi pesquisado pela Secretaria da Educação. Antes, só era computada a intenção de matrícula dos ingressantes na rede estadual —e não a dos já matriculados no ano anterior.

Entre os estudantes que manifestaram interesse em estudar em tempo integral neste ano, 280 mil tiveram o pedido atendido pela gestão João Doria (PSDB), o equivalente a 51,3%.

O número é 49% maior do que o do ano passado, mas ainda corresponde a uma fração de 8% do total de uma rede que tem 3,5 milhões de alunos.

O Plano Nacional de Educação prevê que pelo menos 25% dos estudantes tenham carga de sete horas diárias até 2024.

O programa paulista de tempo integral expande a jornada escolar de 5 horas e 15 minutos ao dia para até 9 horas e meia. Os colégios que adotam o modelo têm obtido melhores resultados nas avaliações de qualidade educacional.

Segundo os dados mais recentes disponíveis, eles tiveram em 2018 um desempenho 60% melhor do que os demais no Idesp (Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de SP).

O professor que aceita dar aulas pelo modelo recebe 75% do salário a mais em gratificações.

Apesar disso, ao menos 77 escolas da rede estadual recusaram a ampliação da jornada em assembleias no ano passado, segundo levantamento feito pela Apeoesp (sindicato dos professores), como a Folha mostrou em outubro.

Os professores contrários ao modelo afirmam que ele prejudica financeiramente o educador que atua ao mesmo tempo em outra rede de ensino, já que exige dedicação integral à escola, e afasta o aluno que precisa conciliar o estudo com o trabalho.

Por outro lado, a fixação do professor em uma só escola é reconhecida na literatura acadêmica como uma medida associada a uma melhor qualidade do ensino.

Os dados obtidos pela reportagem mostram que o número de jovens que querem estudar em tempo integral é quase o dobro do total daqueles que pleiteiam uma vaga no período noturno (282,8 mil).

Pais fazem fila para matricular os filhos em escola de tempo integral na zona sul de SP
Pais fazem fila para matricular os filhos em escola de tempo integral na zona sul de SP - Rivaldo Gomes - 3.jan.2020/Folhapress

Uma demonstração do tamanho do interesse pelo período integral são as filas que se formaram em colégios com a modalidade no ano passado. Houve casos na capital e no interior do estado.

A esteticista Eliana Baptista Ribeiro encabeçou uma delas. Chegou às 5h da manhã de um sábado à porta da escola Profa. Sarah Arnoldi Barbosa, em Votuporanga (SP), e se revezou ali com o marido por dois dias até conseguir uma vaga para a filha.

Assim como ela, todos ali esperavam que alguma vaga abrisse em decorrência de alguma desistência, já que todas as classes estavam preenchidas naquele momento.

O que atraiu Eliana foi o reconhecimento da escola. “Ela é muito conhecida, tem um índice maior que as outras.” De fato: o Idesp do Sarah para o 9º ano do ensino fundamental é de 5,79; o da unidade de tempo parcial para onde a filha de Eliana iria se não tivesse vaga ali era de 3,83.

Eliana conseguiu o que queria e não se arrepende do esforço. Segundo ela, o horário estendido não é o mais importante, mas sim as atividades extracurriculares às quais a garota agora tem acesso, como as aulas de projeto de vida, que ajudam os estudantes a definir metas para sua trajetória.

“O aluno nessa idade está muito perdido, não é mais criança nem adulto. Com essas matérias, ela chega explosiva em casa de tão entusiasmada. Estuda e nem percebe”, diz.

Na mesma fila que ela, a artesã Jacira Costa da Silva não teve a mesma sorte. Ficou 18 horas na calçada, sentada em uma cadeira de praia e alimentada à base de bolacha. Banheiro, conseguiu usar porque um colega de fila tinha um parente que morava perto. 

Mesmo assim, não conseguiu uma vaga para o filho no 7º ano. “Cheguei em casa e tomei banho chorando, porque é uma situação muito humilhante para uma mãe.” O garoto está em uma unidade de tempo parcial, mas ela ainda tem esperança de conseguir uma transferência para ele. 

“Mais tempo de escola é muito importante para uma criança, eles precisam ocupar a cabeça e fazer planos para a vida”, diz.

Para o professor da UFABC (Universidade Federal do ABC) Fernando Cássio, as filas revelam uma face perversa da política de tempo integral do governo paulista.

“São cenas que reeditam imagens que víamos nos anos 1980, quando nem todo mundo tinha acesso à escola.”

Mesmo com a expansão, afirma ele, o índice de estudantes beneficiados pela extensão da jornada segue irrisório. Por isso, ele considera o programa excludente. “O estado só está olhando para uma parte ínfima dos alunos.”

Estudo publicado por ele e por Eduardo Girotto, da USP, em 2018, com base em uma amostra de escolas na capital, mostrou que a introdução do período integral na rede paulista levou os colégios a atender jovens de melhor perfil socioeconômico. 

Com isso, argumentam os dois pesquisadores, não se pode dizer que o desempenho dos estudantes melhorou, uma vez que aqueles que poderiam ter mais dificuldades foram excluídos do sistema.

Secretário da Educação do estado, Rossieli Soares afirma que a solução para que o período integral não gere desigualdade é ampliar ao máximo o número de unidades no programa, priorizando as áreas mais vulneráveis.

Segundo ele, a pasta elabora um planejamento para que 100% da rede ofereça o tempo integral em 10 a 15 anos.

Até 2023, o objetivo é passar das atuais 664 escolas no programa para mais de 1.400. A meta de matrículas ainda não foi definida.

Rossieli diz ver o dado sobre a demanda dos alunos pela modalidade como positivo, pois, afirma, é o caminho que o governo estadual pretende seguir. Pondera ainda que os conteúdos extras oferecidos na jornada ampliada, como aulas de projeto de vida, agora estão também no ensino regular, graças a um rearranjo da carga horária anunciado no ano passado.

Ele avalia que a busca deve aumentar à medida que os colégios no programa demonstrarem resultado.

Fenômeno semelhante aconteceu com Pernambuco, que alcançou o posto de terceiro melhor ensino médio no país depois de uma política com forte investimento na ampliação da carga horária.

Inicialmente, parte das famílias resistia à medida. Atualmente, 57% dos ingressantes nessa etapa de ensino na rede do estado estão no período integral. Muitos, inclusive, passaram a adiar o ingresso no mercado de trabalho em função dos resultados obtidos pelas escolas.

Já em São Paulo, segundo a avaliação estadual mais recente, o resultado do ensino fundamental da rede paulista melhorou, mas o do ensino médio piorou.

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