Massacre de Suzano faz um ano com escola atenta a problemas e segurança

Com 90% da reforma concluída, Raul Brasil retoma atividades em abril, agora com portão fechado

São Paulo

O massacre de Suzano, maior atentado contra uma escola pública de São Paulo, completa um ano nesta sexta-feira (13). O episódio gerou uma demanda: como criar ambiente seguro e de bem-estar nos colégios sem aprisionar alunos e professores?

A escola alvo do massacre, a Raul Brasil, tinha o portão aberto para sua comunidade de Suzano, cidade da Grande São Paulo com pouco mais de 297 mil habitantes.

Canteiro de obras na escola Raul Brasil
A escola estadual Raul Brasil, em Suzano, que foi palco de massacre em 2019 e retomará atividades no mês de abril, passa por obras e reformas - Zanone Fraissat/Folhapress

Tanto é que os atiradores Guilherme Taucci, 17, e Luiz Henrique de Castro, 25, entraram pela portão sem problemas. Foram recepcionados pela coordenadora Marilena Umezu, 59, tida como "o coração do colégio" pela doçura como tratava os alunos.

Ela foi uma das primeiras a morrer. Outros cinco alunos e mais uma funcionária também foram assassinados a tiros. Antes de chegarem à escola, a dupla de atiradores havia matado um empresário, tio de Guilherme.

Ao final do massacre e percebendo a chegada da polícia, Guilherme matou seu comparsa e se suicidou. A maior medida pós-massacre tomada por Rossieli Soares, secretário de Educação da gestão Doria (PSDB), foi reformar o prédio do colégio.

Os locais em que os alunos foram baleados e mortos ganharam nova cara para melhorar o clima escolar.

Para as obras, foram captados R$ 2,7 milhões da iniciativa privada e outros R$ 400 mil de recursos da secretaria, um modelo de parceria público-privada que poderá ser replicada em futuros projetos.

Em abril, os 1.072 alunos –número 10,5% superior ao registrado em 2019– vão encontrar uma Raul Brasil com novos prédios, nova quadra esportiva, salas mais amplas e um laboratório maker (espaço que estimula o aprendizado por meio da tecnologia).

Só após o massacre a escola conseguirá ver de pé uma demanda antiga: uma biblioteca com espaço suficiente para abrigar aulas de leitura para uma turma inteira. O espaço anterior era minúsculo.

"Por que a reforma da escola não chegou um ano antes?", pergunta Jussara Melo, 56, professora da Raul Brasil que se aposentou ao adquirir sequelas emocionais decorrentes do atentado.

"Eu li que as pessoas de fora da escola terão acesso apenas à secretaria da escola. E que os estudantes terão entrada e saída exclusivas. Essas são demandas não só da Raul Brasil mas de toda a rede escolar", afirma Melo.

Rossieli diz que seu desafio pós-Raul Brasil é do tamanho do Uruguai. "Estão sob a minha responsabilidade uma população igual à do país vizinho [3,4 milhões de habitantes]".

A pasta da Educação trabalha em duas frentes: na escuta dos alunos e na aplicação de projetos pró-segurança.

Um questionário respondido por 1 milhão de estudantes da rede em novembro de 2019 detectou, por exemplo, que o maior problema enfrentado por crianças e adolescentes é o cyberbullying, um assédio virtual praticado contra uma pessoa por meio de plataformas online.

Os demais resultados da pesquisa, ainda não divulgados, servirão de base para estruturar o Conviva SP, programa que prevê atacar ocorrências de automutilação e suicídio entre os estudantes.

Pensando na saúde mental dos professores, a secretaria planeja contratar 85 psicólogos que já atuam na rede estadual como professores nos programas de formação. "Não temos dinheiro para colocar um psicólogo em cada uma das 5.400 escolas", diz Rossieli.

Apesar de polêmica, o secretário testa a presença da Polícia Militar no ambiente escolar. Neste semestre, um programa-piloto é realizado na escola Caetano de Campos, no centro da capital paulista.

"O policial não fica fardado nem armado", diz. "Mas é ele quem está criando junto com professores e alunos os protocolos de segurança da escola". "Parece banal, mas nós temos que formular regras desde como quando o portão da escola deve ser aberto e fechado e em quais casos a PM precisa ser acionada. Isso ainda não está desenhado", conta.

Outra iniciativa criada por Rossieli foi erguer no andar abaixo de seu gabinete um gabinete para gerenciamento de crises. O local é composto por PMs, sociólogos, psicólogos e educadores que monitoram em tempo real todas as ocorrências policiais registradas pelas 8.400 câmeras nas escolas que estão integradas aos sistemas das autoridades policiais.

"Uma ocorrência de violência é policial, mas é essa equipe que presta o suporte para a comunidade escolar afetada."

Para o secretário, o maior erro de sua gestão na condução do massacre da Raul Brasil foi a demora na contratação de psicólogos para atender à população de Suzano abalada pela violência, que foi estimada em 24 mil pessoas, segundo a prefeitura da cidade. "A burocracia atrapalhou."

"Mas é por isso que eu coloquei no meu gabinete essa porta metralhada que foi retirada da escola para a gente nunca se esquecer que episódios como o da Raul Brasil não podem voltar a se repetir".

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