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Coronavírus terá efeito colateral de ampliar desigualdade na educação

Estudantes não podem ser vítimas de processo em que se finge que se ensina e se aprende

Alexandre Schneider

Ao redor do mundo a pandemia do novo coronavírus desafia estudantes, pais, professores, escolas, redes públicas e privadas. Neste momento há mais dúvidas que certezas em relação ao método mais adequado para garantir a aprendizagem por ensino remoto, quando e como deve ser realizado o retorno às aulas presenciais e o que deve ser feito no retorno para recuperar as aprendizagens dos alunos.

Por fim, há ainda a dúvida em relação ao impacto da pandemia na educação básica: o que muda?

Se temos uma certeza nos dois hemisférios é a de que a desigualdade educacional será ampliada nesse período. A articulista do The New York Times Dana Goldstein listou três estudos interessantes sobre o impacto da epidemia do Covid-19 no desempenho dos 55 milhões de estudantes americanos. Nenhum deles nos dá notícias alvissareiras.

O primeiro deles, do Annenberg Institute da Universidade de Brown, indica que os estudantes norte-americanos devem voltar às escolas em setembro com uma perda de aprendizagem da ordem de 30% em leitura e de 50% em matemática.

Pesquisadores da Universidade Harvard e da Universidade Brown realizaram uma pesquisa para avaliar o efeito do uso de um software de matemática antes e depois da pandemia com 800 mil alunos. De janeiro a abril o desempenho dos estudantes de baixa renda caiu 50%, enquanto os de estudantes que vivem de comunidades de renda mais alta não tiveram alteração de desempenho. Já em junho a queda foi de
78% para os de baixa renda.

A consultoria McKinsey também produziu uma análise indicando que os estudantes “perderão” sete meses, com os estudantes negros e latinos perdendo em média 10 meses de aprendizado por causa do
fechamento das escolas.

Por compreender os efeitos da pandemia na ampliação da desigualdade educacional, a cidade de Nova York decidiu não reprovar estudantes este ano. Aqueles com desempenho abaixo do esperado serão acompanhados e terão atividades de reforço nas férias e no próximo ano letivo.

No Brasil, onde a desigualdade é ainda maior do que a americana, é urgente adotar medidas capazes de recuperar as aprendizagens dos estudantes. Se o dilema de um pai de classe média é dividir o computador que usa para trabalhar com o filho que realiza tarefas da escola, os mais pobres não têm sequer um espaço em casa para estudar.


É preciso coragem para flexibilizar o currículo, escolher aquilo que deve ser ensinado até o fim deste ano com qualidade, entender este ano letivo e o próximo como um ciclo e garantir que todos aprendam o esperado em dois anos letivos.

Nossos estudantes não podem ser vítimas de uma prática cruel: o simulacro, um processo em que se finge que se ensina e se aprende.

No momento em que escrevo esse artigo chega a notícia de que Pequim cancelou a volta às aulas porque foram registradas transferências comunitárias de Covid-19 na cidade. O Brasil, onde a epidemia é mais grave que na China, está abrindo suas cidades.

Qual o melhor caminho no caso da educação? Começar pela educação infantil, para facilitar a volta ao trabalho das mães? Ou pelos maiores, onde o risco de transmissão é mais baixo? Usar o critério técnico ou o político?

Aprendemos algumas coisas nesta pandemia, como a capacidade de reinvenção e de entrega dos professores, que na maioria das vezes com recursos próprios têm se desdobrado para dar aulas ou elaborar materiais para uso remoto.

Nenhum profissional é hoje tão acompanhado quanto o professor. Com os filhos em casa, pais e responsáveis têm clareza de que a docência não é trabalho para amadores.

Também aprendemos a necessidade de repensar a relação entre tecnologia e educação. O fetiche das salas de aula hiperconectadas deverá ser substituído pelo uso mais intensivo da tecnologia como suporte à aprendizagem e a uma mudança na organização das aulas, com menos tempo dedicado à transmissão de conhecimento e mais às atividades coletivas.

A fotografia que emerge na educação após 90 dias de isolamento não é bela. Mas nos dá a oportunidade de compreender o tamanho das nossas desigualdades educacionais e enfrentá-las.

Basta eleger a redução dessas desigualdades educacionais como meta, em detrimento da compra de sistemas e aplicativos milagrosos.

Alexandre Schneider é pesquisador visitante e professor adjunto da Universidade Columbia em Nova York, pesquisador do Centro de Economia e Política do Setor Público da FGV/SP, consultor e ex-secretário municipal de Educação de São Paulo

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