Bolsonaro convida Renato Feder, secretário do Paraná, para assumir Ministério da Educação

Após demissão de Decotelli, voltou a contatar aliados do presidente para demonstrar interesse no cargo

Brasília

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) convidou o secretário de Educação do Paraná, Renato Feder, 41, para comandar o Ministério da Educação após a polêmica dupla com as saídas de Abraham Weintraub, que insultou o STF (Supremo Tribunal Federal), e de Carlos Decotelli, por causa de falsidades e seu currículo.

A informação foi confirmada por auxiliares diretos do presidente no Palácio do Planalto e também por aliados de Feder.

Bolsonaro chegou a dizer a assessores, ainda pela manhã, que anunciaria nesta sexta (3) o novo ministro. A escolha por Renato Feder, porém, veio acompanhada de críticas e pressão para uma mudança por parte de evangélicos, militares e membros da chamada ala ideológica, ligados aos seguidores de Olavo de Carvalho e aos filhos do presidente.

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SÃO PAULO, SP, 28.06.2018 - Renato Feder, presidente da fabricante de eletrônicos Multilaser, em São Paulo. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress) - Folhapress

Com a reação, Bolsonaro disse a pessoas próximas que aguardará o tempo que julgar necessário antes de anunciá-lo oficialmente. O objetivo é observar a repercussão, uma vez que o presidente e assessores avaliam que não é mais possível errar na escolha do titular do MEC.

Olavistas acreditam que o anúncio pode ocorrer somente na segunda-feira (5). Segundo pessoas próximas a Feder, ele foi convidado para estar em Brasília nesse dia.

O MEC é alvo de disputas entre alas de influência do governo, e cada grupo insiste em emplacar um indicado que atenda sua agenda. Depois da saída de Weintraub e os desgastes acumulados, o governo tenta um nome de respaldo técnico que não desagrade a militância ideológica mais fiel a Bolsonaro.

Escolha com roupagem técnica, Feder ascendeu como cotado a partir de negociações políticas envolvendo o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD). O ministro das Comunicações, Fabio Faria, é da mesma legenda e apoia o secretário.

​Enquanto avalia a repercussão, o governo escalou aliados para tentar converter a oposição ao nome. A deputada Carla Zambelli (PSL-SP) foi uma das principais defensoras da indicação de Feder nesta sexta pelas redes sociais. Como ela, Weintraub também publicou mensagem desejando sorte a ele.

"Desejo sorte e sucesso ao novo ministro da Educação, Renato Feder, e ao presidente Jair Bolsonaro. Estarei sempre torcendo pelo bem do Brasil", escreveu o ex-ministro, que está nos Estados Unidos.

As mensagens foram seguidas de críticas da militância, que espera um nome mais alinhado à chamada "guerra cultural" que marcou as gestões de Weintraub e Ricardo Vélez Rodríguez no MEC.

Olavistas têm ressaltado a proximidade de Feder com o PSDB e o financiamento dele para a candidatura de João Doria em São Paulo, o que pesou para que ele fosse preterido após a saída de Weintraub. Uma denúncia de crime fiscal relacionada à empresa Multilaser, da qual ele é sócio, também tem sido explorada contra sua ida para o MEC.

Olavo de Carvalho escreveu no Facebook que não conhece Feder. "Não escrevi nem disse uma palavra a favor ou contra ele. Se me atribuem alguma coisa, é mentira grossa", publicou o escritor.

Após a derrocada de Decotelli, Feder fez chegar ao Planalto a mensagem de que não guardava ressentimentos por não ter sido o escolhido na época e que estava à disposição para o cargo. O secretário telefonou para o ministro Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) para demonstrar seu interesse.

O empresário também buscou contato com Olavo de Carvalho por meio de alunos do escritor, mas não teve retorno, segundo aliados.

Paulista, Feder alcançou ainda jovem o sucesso profissional com a empresa de tecnologia Multilaser. Começou a se envolver com política na onda de mobilizações pós-junho de 2013.

Aproximou-se do núcleo tucano de São Paulo e, em 2018, atuou como assessor voluntário da Secretaria da Educação do Estado de São paulo no governo de Geraldo Alckmin (PSDB). Esteve por trás da criação de um site chamado Ranking de Políticos, que lista desempenho de parlamentares mas desconsidera políticos de partidos de esquerda.

Feder declara uma paixão sobre educação e o sonho de ser gestor na área, o que não escondia quando ainda estava em São Paulo. Conseguiu chegar ao posto no Paraná com o governador Ratinho Junior.

No estado, comandou um sistema bem estruturado para manter o ensino no período de fechamento de escolas. O Paraná elaborou um sistema com aulas transmitidas em quatro canais de TV aberta, com replicação de conteúdos no YouTube e em ambientes virtuais para as turmas.

A secretaria ainda fechou pacote de internet com operadoras para garantir acesso gratuito aos alunos. O MEC não tem até agora atuação relevante no enfrentamento da pandemia de coronavírus na educação básica.

As principais apostas de Feder como ministro incluem a intensificação do uso da tecnologia, sobretudo nesse período de pandemia e fechamento de escolas, e a melhoria do diálogo com secretários de Educação.

O empresário insiste em ressaltar seu perfil técnico, mas as negociações para a sucessão no MEC envolvem acenos ao chamado núcleo ideológico. A Feder foi pedido que os secretários de Alfabetização, Carlos Nadalim, e de Educação Básica, Ilona Becskeházy, continuem na equipe. Ambos são admirados pelos olavistas.

Também está na negociação a preservação do centrão no comando do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação).

Feder já disse que vai procurar intensificar o papel do governo federal tanto na oferta digital de aulas quanto na formação de professores, também de forma online. Ele não defende o aumento do orçamento da Educação e é visto por especialistas como entusiasta da privatização na área.

Sua nomeação conta com apoio de parte dos secretários estaduais de Educação. Espera-se uma melhora no diálogo com as redes de ensino —sob Weintraub, essa articulação foi bastante enfraquecida. O otimismo vem do fato de que Feder se tornou um dos vice-presidentes do Consed, o órgão que agrega secretários estaduais de Educação.

Eleitor de Bolsonaro, deixava claro seu desejo de assumir o MEC quando era apontado como um dos cotados e minimizava o histórico turbulento do governo e da pasta. Fez forte campanha para ser escolhido, ainda antes da escolha de Decotelli, e concedeu entrevistas. A exposição exagerada, porém, desagradou o Planalto.

Feder mudou a estratégia depois da demissão de Decotelli. Passou a ser discreto com a imprensa, mas manteve a articulações para que Bolsonaro soubesse que estava disposto a assumir o cargo.

Além de Feder, Anderson Correia, atual reitor do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), foi sondado por assessores de Bolsonaro e enviou o currículo para análise, mas não teve resposta positiva do governo.

Outros nomes também foram cotados. Entre eles, o ex-assessor do Ministério da Educação Sérgio Sant'Ana, que é olavista, e do conselheiro do CNE (Conselho Nacional de Educação) Antonio Freitas, pró-reitor na FGV e cujo nome aparecia como orientador do doutorado não realizado por Decotelli.

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