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Governo Bolsonaro

É possível conciliar fundamentalismo religioso e educação moderna?

No MEC, Milton Ribeiro terá de fazer valer sua proposta de pacto pela educação, não seus sermões

Hubert Alquéres

O primeiro grande desafio do novo ministro da Educação, Milton Ribeiro, será reverter o ceticismo de educadores e gestores quanto à possibilidade da pasta voltar a ter um papel protagonista após um ano e meio de omissão em questões vitais para o ensino público. Os descalabros das gestões Ricardo Vélez e Abraham Weintraub, o episódio burlesco da indicação de Carlos Alberto Decotelli e a fritura de Renato Feder levaram a educação ao portal do inferno de Dante: “abandonai todas as esperanças, oh vós que entrais”.

A educação já passou por três círculos do inferno. A grande indagação é se Milton Ribeiro conseguirá levá-la ao menos para o purgatório ou se será mais um caos dantesco. As desconfianças decorrem menos de suas intenções, que podem até ser boas. Sua pregação de um grande pacto nacional pela qualidade da Educação vão na direção correta.

O breve discurso de posse conteve algumas palavras de alento, como a valorização do ensino público e sua reafirmação de compromisso com o diálogo, além do reconhecimento de que a Educação não começou na gestão Jair Bolsonaro e que educadores deram, ao longo da história, importantes contribuições. Pode ser um bom indicativo. Mas, como se sabe, de boas intenções o inferno anda cheio.

Seria necessário sintonia entre a intenção e o gesto. Afinal, palavras os ventos levam. É preciso ver como o ministro desativará na prática as minas que impedem a passagem da educação para outro patamar, se é que se dispõe a desativá-las.

Milton Ribeiro recebe um Ministério inteiramente balcanizado, com mais alas do que a Estação Primeira da Mangueira. Não pode dar certo uma política educacional na qual o pastor Silas Malafaia é voz de peso tanto para vetar como para indicar ministro. A cabeça de Jair Bolsonaro considera a Educação como campo de batalha da sua guerra cultural contra o “marxismo cultural” e quer impor o método fônico de alfabetização por entender o método construtivista como de “esquerda”.

A divisão em alas levou o presidente a acender uma vela a Deus e outra ao diabo. Para ministro, escolheu um nome menos comprometido com o discurso ideológico, mas no mesmo dia emprenhou o Conselho Nacional da Educação (CNE) de olavistas. Ao mesmo tempo, rejeitou todos os nomes indicados pelo Conselho Nacional dos Secretários de Educação (Consed) e pela Undime, entidade representativa dos secretários municipais.

O CNE é um importante órgão normativo. Recentemente desempenhou papel estratégico na normatização da volta as aulas, por meio de parecer da conselheira Maria Helena de Castro, ex-secretária executiva do MEC. Política educacional alguma logrará êxito se não houver uma forte articulação do ministério com as redes estaduais e municipais, onde estudam 80% dos alunos do ensino básico. É inimaginável um CNE sem uma forte presença de educadores com experiência no ensino público.

Terá o novo ministro a determinação de desideologizar o MEC? Se ficar refém da balcanização, o conflito entre as alas levará à paralisia da pasta.

É pedra cantada que olavistas e o fundamentalismo religioso se unirão para torpedear a ideia de um pacto nacional da educação. O todo poderoso Silas Malafaia já deu a senha quando questionou o pedido de Milton Ribeiro por um pacto: "Nos unir a esquerdopatas que destruíram o próprio sentido de educar ideologizando a educação. Como fazer isso?".

Nenhum problema no fato de o ministro ser um pastor e conservador, mas com ressalvas: tem de manter o caráter laico da educação e não impor seus valores calvinistas. Pouco se conhece de suas ideias sobre a educação, mas esse pouco é motivo de preocupação. Será um desastre se ficar apegado à sua declaração de quatro anos atrás, quando defendeu educar crianças pela dor. Só faltava essa, o Brasil voltar aos tempos do castigo na sala de aula.

Também preocupa sua fala de 2018, carregada de preconceito em relação às universidades. À época disse que a linha existencialista é ensinada nas universidades e incentiva “uma prática sem limites do sexo”. Não há muita diferença entre sua afirmação e as do ex-ministro Weintraub para quem as universidades eram um antro de balbúrdia e de maconheiros.

Em matéria de declarações polêmicas, Milton Ribeiro faz acontecer.

Ao se referir, em 2013 ao assassinato de uma adolescente, atribuiu o feminicídio à paixão, transferindo a responsabilidade para a vítima. Sua explicação para a pedofilia é extremamente chocante: “O que me preocupa é a erotização da criança, e a criança então com atitudes e com maneiras e trejeitos que ela vê e imita, provocando pessoas que entendem que a criança está querendo ter algum tipo de relacionamento com ela".

Sua mente está longe de ser arejada. Ao contrário, está presa a uma visão patriarcal da sociedade, atribuindo ao homem o papel de “cabeça do lar”. Como vai conciliar seu fundamentalismo religioso com uma visão moderna da educação onde não há espaço para dogmas é uma incógnita imensa.

Tudo isto não invalida sua proposta de um pacto nacional pela qualidade da educação, que tem sido reivindicada por educadores e gestores há tempos. Mas é preciso esperar para ver.

Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação.

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