Com as escolas fechadas há seis meses, o Brasil ensaia a discussão do que fazer em relação ao necessário retorno tentando responder à questão errada: Quando voltar?
É improvável que se reduza o medo de pais e professores com sua segurança e a dos alunos se o poder público não se dispuser a responder prévia e satisfatoriamente a outras duas: em quais condições as escolas devem estar para receber estudantes e professores e quando elas estarão prontas?
A população não confia nos governos e nos políticos. Ocupando funções públicas, aprendi que não se briga com essa realidade, mas lida-se com ela com humildade, perseverança e sentido de missão.
Após meses solicitando às pessoas que ficassem em casa e respeitassem medidas de isolamento, com os números de contágio e óbitos ainda altos convencer a população de que as escolas estarão seguras exigirá mais do que o pedido de um voto de confiança.
Como esta Folha mostrou, escolas privadas de elite contaram com equipes de saúde na definição de protocolos rigorosos. Estudantes e profissionais serão testados antes do retorno das aulas e semanalmente depois, com o afastamento de quem tiver resultado positivo para a Covid-19.
Entradas e saídas segregadas, contratação de professores para substituir profissionais em grupos de risco, rodízio de alunos, distribuição de kits individuais de materiais escolar e de saúde, enfermarias adaptadas, investimento em comunicação visual, pesquisa e comunicação intensiva com os pais ou responsáveis e formação de professores para garantir um retorno seguro são algumas medidas.
No setor público há deficit de comunicação sobre as medidas para garantir o retorno seguro. Com isso, o debate hoje se resume a quem é contrário ao retorno alegar que falta até papel higiênico nas escolas, governos empurrando a decisão para os pais enquanto dizem que tudo “estará pronto” e escolas privadas pressionando pela volta imediata, dada a perda de receita.
Instituições de elite cobram mensalmente por aluno até o dobro do custo anual de escolas públicas. Mas isso não impede os governos de cumprirem a obrigação de garantir educação aos estudantes, dando segurança a eles e a quem trabalha nas escolas.
Desta forma as questões passam a ser outras. O que é uma escola segura? Quais os critérios e protocolos definidos? Todas as escolas públicas estão adaptadas para cumpri-los? Quando estarão?
E mais: Quais os investimentos em infraestrutura necessários? Quantos profissionais deverão ser afastados por integrar os grupos de risco? Já foram substituídos? Foi implantada a comunicação visual nas escolas? Há materiais de proteção individual para alunos e professores na quantidade adequada?
Os planos de circulação respeitam protocolos sanitários? Todos os profissionais da escola foram treinados para receber os alunos e trabalhar na nova realidade? Há enfermaria? Há uma unidade básica saúde de referência?
Foram feitas pesquisas com pais, professores e estudantes sobre o retorno? Há plano de comunicação que contemple medidas a serem tomadas em casa e demonstrem que a escola está pronta?
Essas questões são mais importantes do que “quando voltar”. As aulas não voltarão só depois da vacinação em massa. É preciso colocar esse debate em seu devido lugar.
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