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Manaus completa 2 meses de aulas na rede privada sem casos de Covid-19

Experiência bem-sucedida não serve de parâmetro para o resto do país, segundo especialistas

Andressa Motter Carolina Marins
Santa Maria (RS) e São Paulo

Primeira cidade no Brasil a retomar as aulas presenciais, Manaus não registrou nenhum novo caso de Covid-19 em sua rede privada em dois meses, de acordo com o Sinepe-AM (Sindicato das Escolas Particulares de Manaus).

A decisão de retornar em julho, segundo a presidente da entidade, Elaine Saldanha, foi baseada no diálogo constante com as famílias e a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas.

Um plano de volta às aulas, montado com base em protocolos internacionais, estabeleceu seis eixos principais: distanciamento, higienização, uso de equipamentos de proteção, maior espaçamento entre pias e banheiros, aferição da temperatura corporal e comunicação imediata caso alguém apresente sintomas.

Na rede pública, houve uma tentativa de retomada no final de julho, cancelada depois que 342 professores contraíram a doença.

Uma segunda tentativa está sendo feita desde 10 de agosto, mas apenas para alunos do ensino médio e programas de aprendizagem de jovens e adultos. Não há previsão de retorno para as séries iniciais.

O pico da doença em Manaus foi em abril, quando o sistema de saúde entrou em colapso. A cidade também foi a primeira a apresentar queda nas transmissões e no número de mortes. Segundo Saldanha, esse dado, em conjunto com o aumento da disponibilidade de leitos de UTI, permitiram o retorno.

No entanto, especialistas temem que a volta tenha sido precipitada. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), reabrir os colégios deve ser prioridade, mas apenas quando a transmissão comunitária da doença estiver suprimida, o que ainda não é o caso do Brasil.

Cálculos feitos pelo consórcio de veículos de imprensa, que acompanha a evolução do contágio e das mortes por Covid-19, mostram que a maioria dos estados apresenta queda ou estabilidade, mas em patamar elevado. Na quinta (10), a média móvel de novos casos estava em 27,7 mil e, de mortes, em 692.

Para Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência em Inovação e Políticas Educacionais da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e colunista da Folha, é cedo para voltar. “Os países europeus retomaram as aulas quando a curva achatou num patamar baixo.”

China e Coreia do Sul, por exemplo, tinham apenas pequenos focos de contágio e média de casos diários abaixo de cem quando reabriram as escolas.

Ainda assim, alguns países precisaram fechar novamente o sistema educacional por causa de novos surtos.

Foi o caso da França e da própria Coreia do Sul. Israel precisou impor quarentena a alunos e professores após nova onda de casos.

Por aqui, as escolas particulares vêm tentando convencer estados e municípios a autorizá-las a retornar antes da rede pública, argumentando que sua capacidade de adaptação aos protocolos de segurança é maior, além da necessidade de recuperar receitas perdidas com a evasão de alunos na pandemia.

Para Costin, da FGV, o retorno das escolas públicas depois das particulares contribuiria para aumentar a desigualdade educacional e as diferenças sociais no pós-pandemia.

“Eu até entendo esse argumento [das escolas particulares], mas como país a gente não deveria admitir uma coisa dessas”, diz.

O presidente da Undime (União dos Dirigentes Municipais de Educação), Luiz Miguel Martins Garcia, diz que os municípios são orientados a observar a situação epidemiológica local antes de decidir uma data de retorno.

Em sua opinião, ainda é cedo para reabrir. “Eu consigo, com tempo, fazer um processo de recuperação, mas não consigo recuperar uma vida”, afirma.

A cirurgiã-dentista Walkiria Falcão, que vive em Manaus, conta que se sentiu segura para mandar a filha de volta às aulas quando a diretora explicou as medidas adotadas para proteger as crianças.

“Vejo que eles estão tendo bastante cuidado”, diz. Maria, 5, vai à escola em dias alternados e assiste a aulas online quando fica em casa.

Walkiria também levou em consideração o lado emocional da filha ao permitir que ela voltasse ao colégio. “Ela ficou enclausurada por muito tempo. Eu não via a hora de tudo isso passar para ela retornar às atividades”, diz.

Especialistas em educação recomendam que, além de pensar na segurança do retorno, as escolas concentrem esforços na recuperação da aprendizagem dos alunos.

Isso inclui avaliar os resultados das atividades de ensino mantidas no período de fechamento e tomar medidas para corrigir disparidades.

Segundo a presidente do Conselho Estadual de Educação do Rio Grande do Sul, Marcia Adriana de Carvalho, o foco das escolas deve ser avaliar os alunos dos três anos iniciais do ensino fundamental, que estão em fase de alfabetização, e os anos finais do ciclo básico e do ensino médio. Só depois será possível determinar uma estratégia de recuperação, diz Carvalho.

O cronograma de retorno às aulas em Manaus previu a avaliação da aprendizagem. Na escola Martha Falcão, os alunos dos anos iniciais passaram por avaliação de suas capacidades de leitura e escrita, e também de realizar as quatro operações matemáticas.

“Vamos trabalhar com um reforço no dia a dia em cima de conteúdos que podem ter alguma defasagem”, explica Ana Glaucia Claudino, uma das coordenadoras da escola.

O cuidado com o emocional dos alunos também foi importante. “Na educação infantil, por exemplo, os professores vestiram os equipamentos [de proteção] durante a transmissão virtual para mostrar às crianças como elas estariam”, diz Elaine.

Explicações lúdicas foram usadas para conscientizar os alunos sobre a necessidade de uso de máscaras e distanciamento dos colegas.

“Esse acolhimento foi para entender como as crianças estavam se sentindo, e o que aconteceu com elas durante a pandemia”, diz Elaine Saldanha, do Sinepe-AM, que cita a estratégia como fundamental para as crianças que perderam familiares com Covid-19.

Colaboraram Bruna Souza Cruz, João Toledo e Sheyla Santos

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