Escola de elite de SP dará bolsas de estudos a crianças negras e indígenas por toda vida escolar

Plano do Vera Cruz inclui mensalidade, material, uniforme, transporte e alimentação para famílias com renda per capita de até R$ 1.558

São Paulo

O Vera Cruz, escola privada tradicional de São Paulo, lançou com um grupo de mães e pais do colégio um programa que concederá bolsas para crianças negras e indígenas, raras na escola, a partir do próximo ano letivo.

Batizada de Projeto Travessias, em 2021 a iniciativa beneficiará 18 crianças de cinco anos, que estarão concluindo o ensino infantil. Segundo a direção do colégio, 24 horas após o lançamento, nesta segunda-feira (26), 30 famílias já haviam se inscrito para o processo seletivo.

A escola arcará com metade do custo das bolsas, que, além das mensalidades, incluirá material escolar, uniforme, transporte, passeios pedagógicos e alimentação.

Os outros 50% terão de vir da contribuição de famílias com filhos na escola e eventuais doações externas. No ano que vem, a estimativa é que o financiamento necessário –além da parte da escola– será de R$ 502 mil.

Se faltarem recursos em 2021, o colégio cobrirá a diferença necessária para as primeiras 18 bolsas. Outro compromisso assumido pelo Vera Cruz é que, independentemente do rumo do projeto, é que todos os alunos que entrarem no colégio pelo Travessias terão suas bolsas garantidas até o fim do ensino médio.

Mas, a partir de 2022, o número de novos beneficiários dependerá do montante arrecadado pela associação sem fins lucrativos formada pelas famílias que coordenam o projeto junto com a escola para angariar as doações.

A intenção do grupo é ir atrás de empresas, instituições e ex-alunos para garantir a sustentabilidade do Travessias. “Estamos otimistas. O programa foi lançado na última segunda-feira e já temos mais de 50 famílias doadoras da comunidade de pais”, diz a advogada Roberta di Ricco Loria, que tem três filhos no Vera e foi uma das idealizadoras.

Segundo a direção da escola, além de 56 doadores já confirmados, dezenas de candidatos que manifestaram a intenção de financiar a iniciativa.

Regina Scarpa, diretora pedagógica do colégio, diz que o projeto nasceu de uma discussão iniciada no ano passado, quando os pais manifestaram insatisfação com a falta de diversidade racial na escola. "Discutimos e procuramos muitas referências sobre o assunto porque nossa preocupação era não ter uma ação assistencialista. Queremos incluir essas crianças de forma saudável e ética."

A meta do programa é manter a entrada de 18 novos bolsistas no ensino infantil anualmente, garantindo que, conforme esses estudantes avancem no ciclo escolar, todas as turmas do colégio tenham de 10% a 20% de beneficiários.

Segundo cálculos da escola, isso levará o Vera Cruz a ter 270 estudantes com bolsas concedidas pelo critério racial em 13 anos.

No final desse período, se as metas de inclusão forem atingidas, o custo do programa –sem incluir a contraparte da escola– se estabilizará em torno de R$ 7,8 milhões (a preços de hoje) anuais.

Essas contas, segundo o site do Travessias, são conservadoras e estimam que 80% das bolsas concedidas serão integrais e 20% parciais.

Além do critério racial –que se baseará na autodeclaração dos responsáveis pelas crianças–, será considerado um limite de renda per capita.

Famílias com rendimento mensal por integrante de até R$ 1.558,50 poderão solicitar bolsa integral. Para aquelas cuja renda per capita chegue a R$ 2.337,50, o benefício será de 75%. E, no caso de uma renda per capita de até R$ 3.117, a bolsa será de 50%.

Outros fatores que serão considerados na seleção é a presença de irmãos na escola e o tempo de transporte público da casa do aluno até o colégio. A coordenação diz que também haverá um componente subjetivo na avaliação dos candidatos, considerando, por exemplo, a percepção da escola em relação ao engajamento da família com a educação dos filhos.

Embora o movimento antirracismo do Vera tenha começado em 2019, o debate entre pais e a direção da escola ganhou fôlego em meio a uma recente onda de pressão de famílias por maior diversidade nas escolas privadas de São Paulo, após o assassinato do americano George Floyd nos EUA virar um símbolo da luta contra o racismo estrutural.

Além do aumento no número de funcionários e alunos negros, eles demandam que os currículos abordem a história africana e a contribuição dos negros para áreas como ciências e artes de forma mais profunda. Outro pedido é por um esforço maior das escolas para conscientizar pais, funcionários e alunos sobre os mecanismos que levam à perpetuação do racismo estrutural.

Segundo especialistas, pautas que não abranjam todos esses aspectos –seja em escolas ou em empresas que têm adotado ações afirmativas– correm o risco de não ir além do assistencialismo.

A comunicadora Deh Bastos, criadora do canal Criando Crianças Pretas e integrante do movimento “Escolas Antirracistas”, é uma das vozes que tem feito alertas sobre esse tema.

“Vejo com preocupação essa situação de combate ao racismo como se fosse altruísmo. Diz muito sobre a nossa hierarquia racial e não resolve a estrutura. É preciso que haja outras mudanças, que haja um olhar para o corpo docente, a direção, o material didático que ela apresenta aos alunos”, diz.

Bastos afirma que a inclusão dos alunos negros dentro de uma estrutura escolar tradicionalmente branca, com poucos professores e coordenadores negros, também a preocupa.

Em reportagem recente, a Folha mostrou que uma em cada dez escolas privadas da capital paulistana não tem professores negros. Entre as que têm, a média é de 20%.

“Sabemos que é um projeto com muitos desafios sociais, emocionais, afinal, vão espelhar mais de 500 anos de uma branquitude cheia de privilégios que construiu esse lugar”, diz Scarpa, segundo quem o processo seletivo de contratação de professores para o próximo ano foi alterado para receber mais indicações de profissionais negros.

Outras escolas têm programas de bolsas em Sao Paulo. Mas o critério para concessão costuma ser social. Além disso, em algumas delas, os beneficiários formam turmas separadas dos alunos pagantes.

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