A morbidez das redes sociais

Imagens de tragédias, além de antiéticas, podem gerar discurso de ódio ou reforçar preconceitos

Mariana Mandelli

Coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta

São Paulo

Quem navega pela internet há um certo tempo provavelmente já recebeu um email contendo supostas fotos confidenciais de alguma tragédia. Antes das redes sociais, essa prática bizarra e sensacionalista era comum também em sites próprios para um público inclinado a consumir conteúdo mórbido, teorias conspiratórias e material sobre crimes nacionais e internacionais, especialmente envolvendo a morte de pessoas famosas.

Se antes era preciso procurar esse tipo de imagem ou baixar arquivos zipados da caixa de entrada, hoje basta abrir a timeline para correr o risco de se deparar com uma “cobertura” em tempo real de um atentado ou acidente, com cenas chocantes. Foi assim com o assassinato de um professor na França, cujas fotos do corpo foram postadas no Twitter.

E tem sido assim há alguns anos, como aconteceu em 2016 em Nice, também na França, quando um caminhão atropelou e matou dezenas de pessoas. Além dos vídeos da fatalidade, retratos de falsas vítimas foram disseminados à época, incluindo o de um rapaz cuja imagem havia sido divulgada em outros atentados terroristas. Segundo checadores de uma emissora francesa, ele deve dinheiro a pessoas que, por vingança, utilizaram seu rosto em ataques digitais.

Quem retuitou essa foto obviamente não sabia disso, não conhece o autor do post original e talvez tenha compartilhado o conteúdo pensando em ajudar ou prestar uma homenagem a um desconhecido. No entanto, acabou endossando uma campanha de difamação.

Como usuários das plataformas digitais, nossa reação a esse tipo de postagem que envolva comoção costuma ser imediatista. Entre a opção de não compartilhar um conteúdo trágico sem verificar a sua veracidade e a de jogar aquilo na timeline alheia, antes de todo mundo, a preferência tem sido pela segunda.

Uma explosão de dimensões assustadoras em Beirute, Líbano, em agosto é uma prova disso: as imagens do estouro, em diversos ângulos, foram compartilhadas incessantemente, sem praticamente ninguém se questionar se aquilo era real (poderia ser um vídeo manipulado), se era recente (poderia ser antigo) ou se era mesmo na capital libanesa (poderia ser em qualquer outro lugar).

No Brasil, o caso de Brumadinho é outro exemplo. Fotos de outros resgates e gravações de barragens em outros locais mundo afora foram publicadas, inclusive pela imprensa, como sendo da tragédia que matou quase três centenas de pessoas na cidade mineira.

Espalhar esse tipo de desinformação pode parecer inocente, mas não é. Além de atrapalhar a busca por dados precisos, é um desrespeito com as vítimas e também pode gerar, a depender do tipo de situação, uma onda de ódio nas redes. Isso porque a pressa em participar de algo maior e compreender o que aconteceu também esbarram, consequentemente, na busca por culpados. Em atentados terroristas, é comum o crescimento de conteúdos islamofóbicos nas redes antes mesmo da abertura de investigações oficiais.

Ademais, a partir do momento em que você curte, comenta ou compartilha um post, mesmo que para chamar atenção para o absurdo que aquilo representa, você está dando engajamento para ele, fazendo com que ele apareça na timeline de outras pessoas, propagando o horror.

Talvez o caso mais emblemático desse tipo tenha acontecido na Nova Zelândia, em 2019, quando um atirador matou dezenas de pessoas em duas mesquitas. Com o objetivo de viralizar sua ação, o terrorista transmitiu tudo pelo Facebook, o que rapidamente se espalhou por outras redes. Assustados, muitos internautas republicaram o vídeo, questionando se aquilo era mesmo real.

Mas há também quem divulgue esses conteúdos em busca de audiência. Por mais que as plataformas tenham regras para a exibição de conteúdo sensível, infelizmente há quem desrespeite essas normas para atrair atenção para si, como se estivessem dando um furo jornalístico. Essas pessoas não se dão conta de que podem estar cometendo uma infração: o crime de vilipendiar cadáveres, previsto pelo Código Penal, que pode resultar em até três anos de detenção e multa.

Sabemos que o tempo da internet não é o mesmo de uma pesquisa científica, de uma investigação policial, de uma reportagem ou de uma ação judicial. Tais processos levam tempo e obedecem – ou pelo deveriam obedecer – a regras e métodos que o imediatismo da vida online ignora.

Cabe a nós frear todos esses estímulos –pressa, curiosidade, ânsia– que são inatos às redes e não darmos engajamento para conteúdos mórbidos ou inapropriados. Quando participamos desse “comportamento de manada digital”, estamos enfraquecendo o jornalismo, atropelando as instituições, difamando vítimas, confundindo pessoas e espalhando possíveis gatilhos.

Ao se deparar com esse tipo de conteúdo, questione-se e denuncie. Preciso mesmo compartilhar isso? Por que estou compartilhando? Já verifiquei nos veículos de imprensa o que se sabe oficialmente sobre esse fato? Estou desrespeitando a memória ou atingindo a reputação de alguém ao disseminar essa postagem? Se é difícil evitar que as pessoas publiquem esse tipo de coisa, é nossa a responsabilidade de não amplificar tragédias.

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