Descrição de chapéu jornalismo

Temos o dever de envolver as crianças nas atualidades, diz fundadora de jornal infantil

Stéphanie Habrich, criadora do Joca, lança na terça (17) o livro "Uma Jornada com Propósito"

São Paulo

Aluno do quinto ano, João Vinicius, 10, não lia nem escrevia. Era indisciplinado e se recusava a tentar aprender. Até que chegou às suas mãos um tabloide colorido, com reportagens atuais escritas para crianças e adolescentes. Três meses depois de a professora ter passado a usar nas aulas edições desse jornal infantojuvenil, o garoto pediu para ler uma notícia em voz alta para a turma.

A alfabetização desse estudante de uma escola estadual de São Paulo é uma das histórias de transformação em torno do Joca, criado em 2011 por Stéphanie Habrich, 49, e que atualmente está presente em 326 colégios particulares e em 12 redes públicas de ensino do país.

No livro “Uma Jornada com Propósito” (ed. Magia de Ler; R$ 48,90), a ser lançado no dia 17, a trajetória do jornal é narrada por sua fundadora. Sobrevivente dos atentados ao World Trade Center, onde trabalhava, deixou para trás uma carreira bem-sucedida como executiva de banco para criar o periódico.

Foram muitas as dificuldades até comemorar o papel do Joca na vida de João Vinicius e de outros leitores. Ela montou a Redação em casa, empacotou e distribuiu exemplares e quase chegou à falência. O rol de desconfianças foi da chance de um jornal impresso para crianças ter sucesso à capacidade de uma mulher para criá-lo e liderá-lo.

Stéphanie Habrich, mulher branca de meia idade e cabelos loiros pelos ombros, olha diretamente para a câmera; ela é fotografada sentada, da cintura para cima, e usa um xale branco e brincos redondos
Stéphanie Habrich, fundadora do jornal infantojuvenil Joca, que lança o livro "Uma Jornada com Propósito" - Dasha Horita/Divulgação

O livro mistura reflexões sobre o empreendedorismo a lembranças pessoais, desde a infância na Alemanha, onde nasceu, e a mudança para o Brasil na década de 1970. É também uma obra que milita pela alfabetização midiática, ou seja, para que crianças e jovens sejam ensinados a se relacionar com a mídia de forma crítica, consumindo informação de qualidade e fugindo de fake news.

Pelo seu trabalho por essa causa a partir do Joca, Habrich receberá nesta sexta-feira (13), da Câmara Municipal de São Paulo, o título de cidadã paulistana.

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Por que, apesar da avalanche de fake news e dos prejuízos evidentes dessa disseminação, ainda é escassa a mobilização de escolas para a alfabetização midiática?

É surpreendente que a educação midiática ainda não faça parte do currículo das escolas, neste momento em que a utilização do digital é o que impera. O público infantojuvenil tem hoje mais acesso do que nunca à informação e se utiliza das redes sociais para se divertir, produzir conteúdo e se informar, nem sempre por meio de plataformas ou fontes confiáveis.

Existe ainda a barreira da compreensão de que levar notícias para crianças e jovens, por meio do jornalismo profissional, além de ser uma necessidade para a formação desse público, é um direito que eles têm, previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e pela Convenção Sobre os Direitos da Criança, da ONU.

Você conta que foi preciso investir nos professores para engajá-los na ideia de trabalhar com o Joca, pois encontra resistência de alguns deles para usar o jornal em aula. Há falha na formação dos educadores para a alfabetização midiática?

O que ocorre não é exatamente uma resistência, mas o desconhecimento de que o jornal pode ser usado como complemento ao material didático, em todas as disciplinas. Quando o educador percebe que o jornal aproxima a escola do mundo fora dela, entende que é uma ferramenta de informação e formação.

A alfabetização midiática exige uma formação continuada que contemple os novos aspectos da educação por meio das tecnologias de informação e das novas metodologias de ensino.

Entre os motivos do sucesso Joca, você lista o fato de ser impresso. É uma ideia oposta ao senso comum de que esse público só quer saber de meios digitais. Será sempre possível chamar a atenção das crianças com o “velho jornal”? Que benefícios isso traz em tempos de uso intenso de tecnologia na infância?

Minha experiência até aqui, com os nove anos do Joca, não me dá sinais de que a versão impressa será deixada de lado. Especialistas em psicologia relatam a diferença que existe entre a relação que a criança tem com vídeos e outros conteúdos digitais e a relação com o consumo de notícias e informação. Lidar com o jornal impresso, folheá-lo, nessa relação concreta –e não abstrata, como a dos meios digitais–, faz diferença para o envolvimento do leitor.

O que não deixa o Joca distante da necessidade de criar conteúdos também em outros formatos. Por isso, temos site com atualizações diárias, podcasts, vídeos no YouTube e lives semanais. Na pandemia, a situação obviamente impôs às crianças e aos adolescentes um mergulho ainda maior no digital. E o jornal, assim como outros materiais físicos, é um aliado no descanso do excesso de telas.

O livro menciona que a sua experiência com a maternidade foi inspiradora para escrever para crianças, mas que você se deparou com ideias machistas sobre a capacidade de uma mulher, com três filhos, empreender e liderar um projeto. Como o Joca atua para que as crianças e jovens pensem de forma diferente?

Estar bem informado faz parte de rever esses pré-conceitos. No Joca, como trazemos atualidades, não faltam exemplos de liderança de mulheres, negros, pessoas de diversas classes sociais. Por meio das notícias, o leitor pode passar a enxergar com mais clareza os preconceitos e as formas de combatê-los.

O contato com os fatos que giram em torno de temas como racismo e machismo também pode ser um ponto de partida para conversas em casa, entre pais e filhos.

Que impactos a pandemia tem na relação de crianças e adolescentes com a informação?

A pandemia provou, mais uma vez, a importância de jovens e crianças compreenderem o que se passa na sua comunidade, no país e no mundo. Se não entendem, podem criar falsos medos e angústias.

O jornalismo profissional, com a prestação de serviço por meio da apuração bem feita, sai fortalecido da pandemia. E o jornalismo infantojuvenil também. Recebemos muitas dúvidas de leitores sobre o vírus e as esclarecemos. Nós, como sociedade, temos o dever de envolver jovens e crianças nas atualidades.

Bem informados, formam as próprias opiniões e se tornam cidadãos críticos e ativos. Lutam por seus direitos, cumprem seus deveres e têm ferramentas para construir um país melhor.

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