Uma ponte entre a escola e a democracia

Educação midiática pode ajudar crianças e jovens a ampliar sua participação na vida pública

Daniela Machado

Coordenadora do EducaMídia, programa de educação midiática do Instituto Palavra Aberta

São Paulo

No próximo domingo começam a ser escolhidos mais de 60 mil prefeitos e vereadores no Brasil. Eleitos a cada quatro anos, eles tomam decisões que envolvem desde assuntos simples, como o nome de ruas e avenidas até aqueles com potencial de afetar significativamente nossas vidas, incluindo as opções de lazer e transporte público ou o plano de educação de cada município. Política e eleições são, portanto, assunto para todo mundo —ou deveriam ser.

Infelizmente, sabemos que há muito desinteresse ou desconhecimento (e até uma mistura de ambos) sobre esses assuntos, principalmente entre o público mais jovem. Segundo o Politize, organização sem fins lucrativos voltada para a educação política, muitos estudantes saem da escola sem conhecer a diferença entre um prefeito e um vereador ou sem saber como exercer direitos básicos de cidadãos.

O que pode ser feito para mudar esse cenário? Como levar para a sala de aula projetos sobre política capazes de engajar crianças e adolescentes?

Não há receita única, mas algumas iniciativas bem sucedidas nos dão pistas do caminho a ser seguido: criar oportunidades para que os alunos trabalhem a partir de situações ou problemas reais, façam uso de plataformas ou redes nas quais já estão inseridos e, com isso, atuem além do ambiente escolar. Não à toa, são abordagens pedagógicas caras à educação midiática.

Ao preparar os alunos para ler o mundo de forma mais reflexiva, estabelecer uma atitude inquisitiva diante da informação e incentivar a produção de mídias para uma audiência real, a educação midiática busca ampliar a voz de crianças e adolescentes, proporcionando-lhes as condições para participar ativamente da sociedade. Projetos que envolvam a criação de mídias, como cartilhas, podcasts, conteúdo para redes sociais e até memes, são uma forma interessante de chamar a atenção dos estudantes para o uso fortalecedor da tecnologia com a qual já interagem.

O TikTok, por exemplo, pode ir além da diversão e tornar-se o palco a partir do qual campanhas de utilidade pública sobre as eleições são produzidas por e para jovens. É o que propõe uma ação da Câmara dos Deputados, em parceria com o Instituto Palavra Aberta: o projeto “Questione-se” convida adolescentes a usar essa plataforma para refletir não só sobre a escolha de candidatos, mas também sobre o que acontece após a eleição, incentivando o exercício contínuo da cidadania.

O Prêmio Educador Nota 10 conquistado este ano pelo professor de geografia Diogo Jordão é outro modelo de como levar a política — e a defesa da democracia — para a escola, com boas pitadas de educação midiática.

A partir da realidade dos alunos e de sua comunidade, em uma escola de Campos dos Goytacazes (RJ), Jordão foi o guia de uma jornada que despertou a consciência de uma turma do 2o ano do Ensino Médio.

“Eles sempre viram a política como muito distante e o que a gente tentou fazer foi justamente desmistificar isso, trazer a política para o dia a dia, para a escola, porque a merenda que eles comem depende de decisões políticas, o ônibus que eles pegam ou a ausência de uma linha também é questão política. Nosso papel foi fazer com que eles entendessem que esses direitos só serão exercidos se eles agirem”, conta Diogo Jordão sobre o projeto “Nos trilhos da democracia”. Ele participou recentemente da live de lançamento da parceria entre a Câmara dos Deputados e o Palavra Aberta.

Ao mesmo tempo, os estudantes também puderam desenvolver habilidades de educação midiática, ao analisar criticamente reportagens sobre serviços públicos, pesquisar e selecionar informações confiáveis, planejar enquetes e entrevistas etc.

Para o professor, democracia e uso fortalecedor das mídias são indissociáveis. “Nossos jovens fazem política sem perceber. Eles estão subindo uma hashtag, compartilhando um post no Instagram para se manifestar sobre a violência contra a mulher… Nossos jovens têm voz, eles têm opinião, mas nem sempre sabem como dizer. É nosso papel fazer com que tenham capacidade de ampliar suas vozes, melhorar sua participação política nesta sociedade que é cada vez mais conectada.”

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