Estimular fala, tato, audição e soneca na escola acelera alfabetização de crianças, aponta estudo

Pesquisa conseguiu zerar erro de troca de letras e dobrar velocidade de leitura em alunos de 5 a 7 anos

São Paulo

Fechar os olhos das crianças e estimular que “enxerguem” as letras com os outros sentidos sensoriais acelera o processo de alfabetização. O aprendizado é ainda mais eficaz e duradouro se elas dormirem após as atividades.

As descobertas são de um estudo feito por um grupo de pesquisadores ligado ao Laboratório de Memória, Sono e Sonhos, da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e ao Cepid Neuromat (Centro de Pesquisa em Neuromatemática). As conclusões estão em um artigo publicado nesta quinta (17) na revista científica Current Biology.

O estudo, que tem entre seus autores o neurocientista Sidarta Ribeiro, fez um treino multissensorial em crianças de 5 a 7 anos de uma escola de Natal, a capital do Rio Grande do Norte, para tentar resolver uma confusão visual que o cérebro faz na identificação das letras e que prejudica o processo de alfabetização.

Com apenas três semanas de atividades, o treinamento conseguiu zerar a quantidade de erros que as crianças cometem no início da alfabetização e duplicar a velocidade de leitura. Entre os alunos em que foi testado dar um tempo de sono de duas horas após o treino, o conhecimento adquirido se manteve intacto após quatro meses.

Pesquisas anteriores já sugeriam que um mecanismo cerebral chamado de invariância em espelho impede a distinção entre imagens espelhadas. Apesar de os olhos enxergarem as imagens como diferentes, o cérebro as processa como sendo iguais.

Essa confusão visual atrapalha a alfabetização, já que a criança não consegue distinguir letras espelhadas, como d e b ou p e q. A dificuldade de distinção também alcança outras letras, por isso é comum os alunos nessa idade escreverem algumas delas ao contrário, como s e z.

“É um comportamento do cérebro que está ativo há 25 milhões de anos e que não atrapalha outras tarefas cotidianas, mas dificulta a alfabetização. É normal que as crianças apresentem essa dificuldade em algum momento, mas que vai sendo corrigida conforme aprendem a ler e escrever”, explica Ribeiro, vice-diretor do Instituto do Cérebro da UFRN.

Segundo o estudo, a distinção visual melhora conforme a fluência na leitura avança. Processo que demora de 2 a 3 anos para ser consolidado. No entanto, os pesquisadores descobriram que o estímulo com outros sentidos pode acelerar essa capacidade. Com o treino desenvolvido, as crianças aprenderam a distinguir as letras com apenas três semanas de atividades.

O estudo foi feito com 102 crianças de uma escola de Natal, que foram distribuídas aleatoriamente em quatro grupos —dois deles de controle, um que fez apenas o treinamento multissensorial e outro que recebeu o treino e depois pôde dormir.

Com o treino, de atividades diárias de 30 minutos durante três semanas, foi verificado que era possível consertar a confusão visual. O treinamento consistia em vendar as crianças e apresentar as letras espelhadas a elas com outros estímulos.

Exemplos incluem desenhar na palma das mãos dos alunos as letras e falar em voz alta os sons que têm. Dessa forma, outras áreas do cérebro foram estimuladas a entender a diferença entre letras que antes eram processadas pelo sistema visual como iguais.

“O treino que desenvolvemos multiplicou os mapas entres os sistemas cerebrais para assimilar essas diferenças. A criança para de depender apenas do sistema visual, que é exatamente onde há a confusão. Com diferentes estímulos, ela ganha novas percepções sobre as letras”, diz o psiquiatra Felipe Pegado.

Após as três semanas, as crianças que receberam o treinamento zeraram os erros de confusão de letra que cometiam antes, enquanto seus colegas que estavam no grupo sem intervenção continuaram com o mesmo erro e na mesma proporção inicial, em 75% das vezes que tinham de fazer a distinção.

Além do treino multissensorial, os pesquisadores também separaram um grupo de crianças para que pudessem dormir logo após o treinamento. Outras pesquisas do laboratório já haviam indicado que a soneca na escola ajuda a consolidar o aprendizado.

“No sono acontecem processos que ajudam o cérebro a lembrar melhor, esquecer o que não importa e a reestruturar memórias. Se o sono for logo depois de um aprendizado significativo, há menos interferência e o cérebro consegue selecionar melhor o que guardar”, diz Ribeiro.

A pesquisa identificou que, quatro meses após o fim do treinamento, as crianças que tiveram o tempo de sono mantiveram o aprendizado, com índice praticamente zero de erros na distinção de letras. No entanto, as que só receberam o treino sem ter tirado uma soneca depois voltaram a apresentar erros, em cerca de 20% das vezes —ainda abaixo dos que não foram treinados.

“Descobrimos que o treinamento funciona porque a discriminação visual das crianças ficou perfeita e em muito pouco tempo. Só que, sem dormir, elas desaprendem depois. Sem o sono, o aprendizado tem curta duração”, diz Ribeiro.

Para os pesquisadores, as descobertas trazem contribuições importantes para o processo da alfabetização, etapa considerada crucial para a trajetória escolar das crianças. Além dos resultados rápidos e eficazes, as intervenções são simples e poderiam ser aplicadas em qualquer escola.

“Essa troca que a criança faz atrapalha o aprendizado e pode, já no começo da vida escolar, criar uma resistência. O aluno tem dificuldade, lê mais devagar, não compreende o que está lendo e perde o interesse. A intervenção pode ajudar a resolver mais rapidamente essa confusão do cérebro”, diz Ana Raquel Torres, pesquisadora e primeira autora do trabalho.

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