Descrição de chapéu Coronavírus enem

Ministro avalia que Inep 'acertou' em prever alta abstenção para organizar aplicação do Enem

Enem 2020 termina com abstenção de 55,3%, a maior da história, relatos de aglomeração e casos de alunos barrados por salas lotadas

São Paulo

O Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2020, na sua versão impressa, terminou neste domingo (24) com o maior índice de abstenção desde sua reformulação, em 2009. Dos 5.523.029 inscritos da prova impressa 51,5% faltaram ao primeiro dia, enquanto a abstenção do segundo dia de provas foi de 55,33%.

A avaliação, que é a principal forma de ingresso em instituições públicas de ensino superior, foi aplicada após muitas manifestações pedindo o adiamento, já que os casos de Covid-19 voltaram a crescer pelo país.

O ministro da Educação, Milton Ribeiro, acompanhou a entrada dos candidatos neste domingo na escola estadual Cesar Martinez, em Moema, bairro nobre de São Paulo. Ele afirmou que a pasta previu corretamente a alta abstenção no primeiro dia do Enem e defendeu a organização das salas de aplicação do teste.

Ministro da Educação, Milton Ribeiro, acompanhou entrada de candidatos para o Enem em escola estadual na região nobre de São Paulo
Ministro da Educação, Milton Ribeiro, acompanhou entrada de candidatos para o Enem em escola estadual na região nobre de São Paulo - Eduardo Anizelli/ Folhapress

No último domingo (17), quando foram feitas as primeiras provas, com questões de liguagens, ciências humanas e a redação, candidatos foram barrados por conta de salas superlotadas.

A Folha mostrou que, apesar de ter anunciado que todas as 14 mil salas de prova do país receberiam apenas 50% da capacidade, havia locais em que a organização alocou número de candidatos até 80%.

"Se houve esse pensamento, de que a abstenção seria de pelo menos 30%, então estávamos certos porque ela foi de 51% [no primeiro dia]. Temos que ver o outro lado também, e não estou querendo defender ninguém, mas imagine, se tivéssemos contratado tudo [número se salas suficiente], o valor de dinheiro público que haveríamos de usar", disse o ministro do governo de Jair Bolsonaro (sem partido).

Segundo Ribeiro, pela gestão “séria e responsável” do dinheiro público foi correto ter contado com a alta abstenção para organizar os locais de prova, ou seja, sem ampliação suficiente do número de salas para garantir que todas só tivessem 50% de candidatos.

“Gastamos mais de R$ 700 milhões do Tesouro para a aplicação do Enem neste ano. Imagine se não tivesse feito uma mínima previsão [de abstenção] aí as coisas ficariam mais difíceis”, afirmou o ministro.

A Defensoria Pública da União entrou com uma ação na Justiça Federal em que argumenta que o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), órgão responsável pela prova, sabia que algumas salas tinham lotação acima do anunciado. A ação, que foi rejeitada, diz que a organização mentiu aos candidatos sobre as medidas de segurança.

Neste domingo, em vários locais de prova, houve aglomeração na entrada dos portões próximo do horário de início do exame. Mas, segundo os estudantes, havia distanciamento de duas carteiras entre os inscritos e álcool em gel. Todos mantiveram as máscaras.

A prova cobrou mais uma vez conteúdos relacionados a situações do dia a dia dos estudantes e não houve surpresas, já que o nível de dificuldade estava dentro do esperado.

As questões abordaram, por exemplo, funcionamento do fone de ouvido, uso de óleos essenciais, bomba atômica, nanotecnologia, consumo de etanol por carros elétricos, proteção contra raios, óleo nas praias do Nordeste e cálculo de orçamento familiar.

O percentual de abstenção mais próximo ao Enem 2020 foi o de 2009, ano em que foi reformulado e as provas vazaram ainda na gráfica —o que gerou o adiamento do exame. Na época, eram poucas as universidades que usavam o exame como forma de ingresso e por isso a procura era inferior.

Este ano, outros 96.086 candidatos se inscreveram para o Enem Digital, modalidade que terá provas nos dias 21 de janeiro e 7 de fevereiro. Apesar de ter provas virtuais, o exame será realizado presencialmente, em laboratórios de informática de instituições de ensino parceiras do Ministério da Educação.

De 25 a 29 de janeiro, serão recebidos pedidos de reaplicação do exame para quem se sentiu prejudicado ou foi impedido de fazer o exame por problemas logísticos (falta de energia, desastres naturais etc). Pessoas que tiveram Covid-19 ou outras doenças infectocontagiosas também poderão solicitar que a prova seja reaplicada.

​De acordo com o Inep, 56 municípios do Amazonas e nas cidades de Espigão D'Oeste e Rolim de Moura, em Rondônia, terão a reaplicação em 23 e 24 de fevereiro pois as provas não foram aplicadas em tais lugares por causa da Covid-19.

Apesar da abstenção recorde e dos candidatos barrados, Ribeiro voltou a defender a realização do Enem no momento em que a pandemia se agravou em todo o país. Segundo ele, além de não poder prejudicar os alunos com um novo adiamento, havia preocupação com a saúde financeira das faculdades privadas.

“No Brasil, 76% do ensino superior é tocado pelas instituições privadas. Elas são parceiras da educação brasileira, que não tem perna nem braço para dar vaga a todos os alunos.Elas não aguentariam mais um semestre sem mensalidade”, disse.

Ribeiro tem mantido boa relação com donos de faculdade privada, que exercem influência sobre o ministro. O setor foi um dos que mais o pressionou para a realização da prova, já que querem matricular o quanto antes novos estudantes pelos programas Prouni e Fies, em que recebem parte do valor da mensalidade pelo governo federal.

A visita deste domingo foi acompanhada pelo secretário de Educação de São Paulo, Rossieli Soares, que é ex-ministro da Educação. Ele foi um dos poucos gestores estaduais da área a defender publicamente a realização do Enem em janeiro.

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