Descrição de chapéu
Coronavírus

Não à judicialização das escolas abertas

Escolas, alunos e famílias precisam ser salvos da politização

Chaim Zaher

Presidente do Grupo SEB

O futuro de uma geração de alunos está ameaçado pela judicialização do ensino no Brasil. Refiro-me à recente decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, que, atendendo ao pleito do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeosp), deu liminar contrária à volta às aulas presenciais, por conta da segurança dos professores.

Antes de mais nada, minha total solidariedade aos professores e demais funcionários das escolas. Sem eles, as escolas não existem. Escolas não são construções, não é tijolo. Escola é gente, e gente qualificada.

Entendo perfeitamente a preocupação da Justiça com a segurança dos professores. Aliás, já encaminhei um pedido formal para que os professores fossem incluídos entre os grupos prioritários para receber a vacina contra a Covid.

Também apresentei esse argumento ao governador de São Paulo, João Doria, que se mostrou sensível à proposta. Além disso, concedi entrevistas enfatizando a necessidade de que, na volta às aulas presenciais, sejam respeitadas todas as recomendações dos profissionais da saúde.

Dito isso, tenho certeza de que todas as escolas sérias estão preparadas para adotar todos os protocolos referentes à saúde do seu corpo docente. Nenhum empresário do setor colocaria em risco vidas humanas.

A questão é que a volta às atividades presenciais nas escolas, principalmente neste momento em que a vacinação já começou, não deve ser objeto de decisões judiciais. O que está em jogo é o futuro dos nossos filhos, o futuro do Brasil. Mesmo antes da pandemia, a evasão escolar era um dos maiores problemas do ensino fundamental e médio. Os indicadores mostram que, com a pandemia, aumentou a evasão escolar, sobretudo entre os alunos mais pobres.

Afirma-se, sem base em estatísticas confiáveis, que crianças nas escolas representariam um risco de contaminação de seus pais, avós e professores. É uma afirmação leviana, para dizer o mínimo, porque não se leva em conta a alternativa.

Será que alguém sabe o que essas crianças e adolescentes fazem o dia todo sem frequentar a escola, distantes do convívio dos professores e dos colegas? Essa é uma preocupação que toda a sociedade deveria ter. Sobretudo em relação aos alunos das escolas públicas que vivem nas periferias dos grandes centros urbanos.

Sem opções de lazer, sem acesso a equipamentos de cultura, sem poder praticar esportes de maneira segura e organizada, muitos deles, meninos e meninas, podem estar expostos a péssimas influências.

E não se trata apenas da formação de caráter ou acadêmica. É uma questão de saúde pública também. Sem ter um compromisso sério fora de casa, muitos alunos passam a frequentar as ruas, em aglomerações que representam maior ameaça de disseminação do novo coronavírus, pois sem as devidas proteções e distanciamento. A saúde mental das crianças também está ameaçada, o que está refletido na maior incidência de casos de ansiedade e até de depressão.

Ou seja, eles são deixados fora da escola como medida de precaução, mas, na prática, acabam em situações em que o risco é ainda maior. Nas ruas, eles estão longe da supervisão de adultos e do olhar dos pais, alguns trabalhando fora, outros em home office – de um jeito ou de outro sem tempo e condições para cuidar das crianças.

A solução seria delegar aos pais o que fazer. Ninguém mais do que eles estão preocupados com a saúde dos seus filhos e dos professores deles. Eles precisam ter voz ativa nessa questão. Alguns podem preferir deixar as crianças em casa. Outros ponderarão que seria melhor que voltassem às escolas. Outros ainda argumentariam a favor de um esquema híbrido.

O que não podemos é permitir a politização do assunto, sob pena de deixarmos interesses meramente corporativos –e que não representam a classe– influenciarem nos destinos das crianças.

O Brasil precisa salvá-las. Precisa salvar a educação. E os educadores. Todos sob a orientação dos profissionais da saúde.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.