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Professores se queixam de falta de estrutura e contaminações por Covid em escolas estaduais de SP

Dossiê de parlamentar do PSOL lista casos relatados por docentes; deputados não podem entrar nas escolas

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São Paulo

Resultados positivos para a Covid-19 entre funcionários, falta de pessoal para a limpeza das salas e inadequação de estrutura, além da discrepância dessas condições dentro da própria rede, têm alimentado a insegurança de alunos e docentes nas escolas estaduais de São Paulo.

A codeputada Paula Aparecida, da bancada do PSOL na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) vem compilando denúncias recebidas de professores da rede estadual e diz já ter detectado ao menos 15 escolas em que falta estrutura para a retomada das aulas presenciais, algumas das quais já registraram casos de contaminação de docentes ou funcionários.

Segundo docentes e funcionários, contudo, há subnotificação, pois muitas vezes os profissionais precisam fazer os testes sem o auxílio do estado e não há registro das suspeitas.

De acordo com o Simed (Sistema de Informação e Monitoramento da Educação para Covid-19 da Seduc-SP, que monitora os casos na rede), apenas na primeira semana de volta às aulas, de 8 a 12 de fevereiro, houve 77 registros de infecção confirmada. Os dados não deixam claro se a contaminação ocorreu no ambiente do ensino ou fora dele.

A doença, de acordo com dados do consórcio de imprensa formado por Folha, UOL, G1, O Globo, Extra e Estado de S. Paulo, já causou 255.018 mortes no país. A doença têm avançado rapidamente pelo país nas últimas semanas, com sucessivos recordes de mortes, e o estado de São Paulo já registra um número de internações por Covid em UTI 15% acima de seu pico em 2020.

Procurada a Secretaria da Educação afirma que “foram confirmados casos positivos em quatro unidades [das 15 citadas no relatório], um caso por escola”.

Outros relatos que não constam do relatório estão sendo averiguados.

Segundo a pasta, o “protocolo orienta que servidores e estudantes sejam prontamente afastados e todos que tiveram contato direto com o contaminado fiquem em atividades remotas, conforme orientações da vigilância em saúde do município”.

Os casos confirmados e sob suspeita são acompanhados por meio do Simed. A secretaria afirma que a equipe da Citem (Coordenadoria de Informação, Tecnologia e Matrícula), a Prodesp (Companhia de Processamento de Dados do Estado de São Paulo) e a Comissão Médica da Educação se mobilizaram para elaborar um Painel de Monitoramento.

Este permite “que as escolas possam acompanhar o impacto da pandemia localmente, além de permitir às diretorias de ensino as informações contidas no Simed provendo conhecimento para subsidiar decisões da Secretaria da Educação", segundo a pasta.

Joseane Batista da Silva, 35, professora de matemática da rede estadual e conselheira da Associação de Pais e Mestres mostra a fragilidade do EPI dado pelo estado
Joseane Batista da Silva, 35, professora de matemática da rede estadual e conselheira da Associação de Pais e Mestres mostra a fragilidade do EPI dado pelo estado - Eduardo Anizelli/Folhapress

Citando casos específicos, o dossiê cita também problemas de estrutura que evidenciariam a falta de preparo para receber os alunos.

Na escola estadual Pedro Alexandrino, na zona norte de São Paulo, a confirmação da contaminação de uma das duas únicas funcionárias da limpeza resultou em um dia sem higienização das dependências de ensino.

Apesar da contaminação comprovada, a outra funcionária —que mantinha contato próximo com a colega— só foi dispensada do trabalho após pressão dos professores, de acordo com o relatório.

Em intervalos de trabalho, as duas dividiam uma sala sem janelas e sem ventilação —segundo o relatório, um espaço para depósito de objetos embaixo da escadaria da escola.

“Essas funcionárias foram ao posto de saúde por conta própria. A secretaria não disponibiliza nada”, diz Joseane Batista da Silva, 35, professora e conselheira da Associação de Pais e Mestres.

Segundo ela, os professores temem que a falta de estrutura e a incapacidade das escolas de garantir o afastamento entre os alunos resulte em mais casos de Covid.

“O pátio da escola tem grades, e para colocar essas grades ele ficou menor, algumas janelas têm chapas de ferro, a sala de professores é pequena e abafada”, afirma a conselheira. “Tem dias em que não dá para ficar na sala de aula quando bate sol e o calor aumenta. A biblioteca tem janelas que ficam atrás das prateleiras, e os alunos ficam aglomerados."

Uma professora da rede que pede para não se identificar por temer represália afirma que a situação se repete em diversas escolas, e que parte dos casos confirmados não é repassada por diretores à secretaria, pois estes, a seu ver, temeriam represálias.

“Os diretores designados podem ser removidos a qualquer momento por ordem da Diretoria de Ensino, então se sentem fragilizados e têm medo”, afirma a codeputada da bancada do PSOL Paula Aparecida, ela própria professora licenciada.

Segundo ela, a fiscalização dos problemas tornou-se mais difícil após o governo do estado proibir a entrada de parlamentares nas escolas sem a autorização prévia das diretorias de ensino.

Paula afirma que a gestão Doria reabriu as escolas sem um plano técnico individualizado contra a disseminação da Covid-19. “A situação das escolas reflete a desigualdade social. Tem escolas, no interior, que a atuação da Associação de Pais e Mestres (APM) ajuda a melhorar, mas não é o que acontece na maioria delas”, afirma.

“Na Pedro Alexandrino já eram apenas duas funcionárias para limpar a escola inteira antes da pandemia. Agora, então, isso é impossível, porque as escolas são estruturadas como verdadeiras cadeias, falta ventilação, falta água, falta sabonete nos banheiros”, diz.

Na escola Professor Antonio José Leite, também na zona norte da capital, um professor filmou as torneiras secas, e, segundo os funcionários, falta pessoal para controlar o distanciamento dos alunos e a entrada e saída.

“Estamos com falta de funcionários para controlar e fiscalizar o uso adequado de máscara e aglomerações. Teve um dia que deu o horário para os alunos saírem e não tinha ninguém para abrir o portão e os alunos ficaram na frente do portão aglomerados um tempão", diz um trecho do documento que compila os relatos.

"No refeitório, para organizar a fila e um protocolo para a merenda, também não tem funcionário, e muitos ficam sem máscara.”

Na Professor Moacyr Campos, na zona leste, professores relatam quatro casos de docentes contaminados até o fim de fevereiro.

“A equipe gestora não se preocupa em manter os estudantes sentados nas mesas do refeitório com distanciamento para se alimentar. Eles andam livremente comendo sem máscara e compartilhando esses alimentos. Não existe educação alimentar, não existe um protocolo a ser seguido, e a prioridade parece ser a venda dos lanches da cantina, e não a alimentação segura com distanciamento", diz o texto.

"Professores antigos também circulam na sala dos professores sem máscara.”

Na Professor Sebastião de Oliveira Gusmão, no Morro Doce, zona norte da capital, há relatos de casos entre professores e funcionários, de falta de ventilação nas salas e de alunos que não mantêm o distanciamento.

Os docentes também questionam a qualidade do material de proteção individual, os EPIs, disponibilizado pela Secretaria de Educação. "Na primeira semana, as máscaras já estavam rasgando", diz Joseane. "Não tem como se sentir seguro."

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