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Daniela Machado

Listas de checagem falham no combate à desinformação

Leitura lateral é estratégia mais eficiente para avaliar confiabilidade de mensagens que inundam a internet

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A esta altura da pandemia, é bem provável que você já tenha se deparado com alguma desinformação sobre a Covid-19 e percebido que os malefícios das chamadas fake news são ainda mais perversos no contexto de uma crise sanitária mundial. Quando o que está em jogo é a nossa saúde, ser capaz de avaliar a confiabilidade das informações que chegam até nós torna-se ainda mais urgente.

Existem diversas iniciativas para combater a desinformação —de jornalistas especializados na checagem de fatos e dados a programas completos para desenvolver e aprimorar a análise crítica de todos os tipos de mensagens. Mas uma abordagem em especial serve a todos nós a qualquer momento (e, por isso mesmo, precisa ser incorporada ao nosso dia a dia): a leitura lateral.

A ideia central desta estratégia, defendida por um grupo de especialistas da área de educação em história da Universidade de Stanford, é a de que o melhor caminho para avaliar a confiabilidade de um site (ou mensagem) é saindo o quanto antes dele. Ao invés de perder muito tempo analisando o site ou o post em si, numa varredura de alto a baixo, devemos passar rapidamente os olhos pelas informações oferecidas, selecionar algumas palavras-chave e abrir novas abas de pesquisa na internet para avaliar sua credibilidade.

Os educadores à frente do Stanford History Education Group (SHEG) argumentam que ficar preso no mesmo conteúdo não faz mais sentido diante do grau de sofisticação alcançado por sites ou posts impostores ou fraudulentos. Segundo eles, usar um checklist para analisar apenas se o site tem visual desleixado, erros de ortografia ou poucos dados na área de “Quem Somos” é uma ferramenta analógica que não consegue dar conta da complexidade a que estamos expostos no universo digital. Hoje, muita desinformação tem aspecto totalmente profissional, seja imitando a aparência de veículos de comunicação consolidados ou caprichando no uso da língua portuguesa.

A leitura lateral é inspirada no trabalho dos jornalistas especializados em checagem de informações, que são treinados para analisar a veracidade de uma série de conteúdos, incluindo discursos de políticos e personalidades, no menor tempo possível. Em uma pesquisa, os educadores de Stanford observaram como esses profissionais avaliam as informações encontradas em sites e compararam seu comportamento com o de outros dois grupos de pessoas: historiadores e universitários.

Imagem tem ao lado direito um post com texto sobre uma suposta paciente de Covid curada em 48h na Tailândia. Do lado esquerdo, há um selo com uma seta indicando que a notícia é falsa
Exemplo de fake news desmentida pelo Ministério da Saúde em 2020 - Reprodução

A investigação mostrou que, com frequência, os historiadores e os estudantes foram enganados por sites facilmente manipulados, contendo logotipos e nomes de domínio parecidos com os de instituições oficiais. “Eles leem verticalmente, permanecendo dentro de um site para avaliar sua confiabilidade”, apontou o estudo. “Em contraste, os checadores leem lateralmente, saindo do site após uma verificação rápida e abrindo novas guias do navegador para julgar a credibilidade do site original.” É esse protocolo que pode ser simplificado e adaptado para que todos nós possamos, habitualmente, combater a desinformação.

É claro que essa luta precisa de muitas outras frentes. Mas a leitura lateral deve ser ensinada e praticada, como um excelente ponto de partida.

A internet escancarou as portas para que todos possamos produzir, e não apenas consumir informações. Essa possibilidade é muito rica, mas igualmente desafiadora: não há qualquer garantia de que todos os conteúdos criados e compartilhados a cada segundo têm a mesma qualidade ou são confiáveis. É por isso que precisamos desenvolver habilidades para analisar e filtrar tudo o que chega até nós, além de ativamente buscar novas perspectivas e mais repertório —somos, mais do que nunca, responsáveis pela curadoria do que lemos, assistimos e ouvimos.

Ou, como nas palavras do escritor espanhol Fernando Aramburu, recentemente entrevistado pela Folha de S.Paulo, “os cidadãos devem adotar uma postura ativa para saber o que ocorre ao seu redor, e não ter uma atitude passiva diante de uma tela, esperando que lhes digam o que têm de saber, de sentir, de pensar. Porque aí sim estarão numa posição de debilidade, em que as ‘fake news’ realmente podem ter êxito”.

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