Doação deve ser rotina, dizem debatedores no 'Diálogos Transformadores'

Participantes do evento também concluem que ato solidário precisa ir além da renúncia fiscal

Rosane Queiroz
São Paulo

Arredondar o troco em benefício de uma ONG, ir além da renúncia fiscal na hora de apoiar uma causa e inovar na forma de captação são iniciativas que pessoas físicas, jurídicas e organizações dispõem para ampliar o impacto das doações no Brasil. Essas são algumas das conclusões da primeira edição 2018 do "Diálogos Transformadores".

No fim de março, o evento multimídia realizado pela Folha, em parceria com a Ashoka em torno do tema "Como Estimular a Cultura de Doação no Brasil" mostrou a evolução e os desafios de modelos de captação como o do Graacc (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer).

"Nos anos 1980, quando começamos, eram necessárias 50 ligações para conquistar um sócio. Hoje, são 215 telefonemas, para um sócio", disse Sérgio Petrilli, fundador da ONG que é a maior captadora de doações de pessoas físicas no país.

O call center da instituição segue com 80 funcionários, treinados para não serem opressivos na abordagem com potenciais doadores.

A venda de produtos com renda revertida para causas, dentro do conceito ganha-ganha, aquele em que o doador recebe algo palpável em troca, é uma das alternativas que tem se revelado eficaz. 

O modelo foi apresentado por Roberta Faria, diretora da Mol, editora que há uma década cria projetos socioediotoriais como revistas vendidas no comércio. "O varejo tem forte poder mobilizador. Na farmácia, conseguimos falar com a mãe que vai comprar fraldas e com o avô que vai comprar remédio para pressão. O consumidor se sente ajudando e recebe um conteúdo na revista, o varejista faz seu marketing social com um produto que cabe no troco, e todos saem beneficiados", afirmou. 

Na mobilização em estabelecimentos comerciais, a editora já conseguiu repassar a 37 ONGs um total de doações de R$ 23,8 milhões ao longo de dez anos.

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Nina Valentini, do Arredondar, apresentou um outro modelo de sucesso. "Quer arredondar o troco?" A pergunta, cada vez mais comum nos caixas de lojas e supermercados, vem do movimento Arredondar, cofundado pela empreendedora social. 

Versão atualizada do cofrinho, significa que, ao inteirar o valor da conta, os centavos que sobram são destinados a ONGs. Em quatro anos, o Arredondar arrecadou R$ 1,83 milhão, de centavo em centavo na boca do caixa e conta hoje com 32 instituições beneficiadas.

"É preciso criar oportunidades simples de doar no dia a dia, pois muitas pessoas querem colaborar, mas não sabem como nem querem nada complicado, como pagar boletos", disse Nina. 

disseminação

Roberta Faria destacou ainda a necessidade de simplificar as causas. A transparência dos números das instituições, mostrando para onde vai cada centavo doado, foi um dos tópicos debatidos.

Paula Fabiani, diretora do Idis (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social) falou da importância de tornar balanços e relatórios acessíveis aos doadores. 

Um outro entrave à cultura de doação no país, segundo pesquisa do Idis, é o fato de que 88% dos brasileiros dizem que não se deve contar que faz doações. 

"Como vamos fomentar a cultura de doação se a gente não pode falar que doa? É uma barreira importante, uma questão cultural, diferente do que acontece nos países anglo-saxões, onde isso é bem visto e que deve ser falado."

Uma das conclusões é que o brasileiro ainda vê a doação como um paliativo para aliviar o sofrimento e não como um mecanismo de transformação social. "Precisamos nos mobilizar como sociedade civil responsável pela transformação que deseja, diminuindo a ideia de que tudo tem de vir do governo", disse Paula.

A diretora do Idis falou ainda sobre a importância dos fundos patrimoniais e a urgência de regulamentar a doação de grandes fortunas, que enfrenta entraves legais no Brasil. "Temos seis projetos de lei tramitando no Congresso Nacional para criar um ambiente regulatório propício para a doação."  

Renúncia fiscal

O filantropo José Luiz Setúbal, ex-mantenedor da Santa Casa de São Paulo e diretor da fundação que leva seu nome, testemunhou sobre o trabalho de convencer grandes empresários a doar. Fez ainda uma provação: "Doação não é renúncia fiscal, que é direcionamento de imposto. Doação é quando você tira do seu bolso para dar alguma coisa, seja tempo, sangue, órgão".

Para Setúbal, as pessoas no Brasil estão mal acostumadas. "Quando pergunto se alguém quer doar para uma causa, a pessoa responde: 'Ah, tem recibo?'. É preciso escolher uma causa, se engajar e lutar por ela", disse Setúbal. 

Elie Horn, fundador e presidente do Conselho da Cyrela, também deu seu depoimento como filantropo em um vídeo exibido no evento. Ele falou sobre ter sido o primeiro bilionário brasileiro a aderir ao movimento "The Giving Pledge", capitaneado por Bill Gates nos Estados Unidos.

Horn, assumiu o compromisso público de doar em vida 60% do patrimônio pessoal, estimado em US$ 1 bilhão (cerca de R$ 3,2 bilhões), para causas sociais. "Faça o bem. É a única coisa que conta. Esse é o legado", afirmou. 

Desculpas para doar

Inspirado no exemplo dos pais e de filantropos, o gerente de marketing Paulo Unger Ibri, de 30 anos, destina mensalmente uma parcela de seu salário para instituições, colocando as doações em débito automático.

Como representante de uma nova geração de doadores, ele ressaltou que não importa a quantia e sim o gesto. "Doar é um hábito que se constrói. Se você não doa 10% quando ganha R$ 1 mil, não vai doar quando ganhar R$ 1 milhão."

Na última rodada do debate, Luciana Quintão, fundadora do Banco de Alimentos, ONG que arrecada sobras de alimentos e distribui para 40 instituições, comoveu a plateia de mais de 150 pessoas ao abordar a questão da fome e do desperdício de comida no país e no planeta.

"Essa maluca já doou mais de 70 milhões de pratos de comida no Brasil. Consciência é a palavra-chave para pensarmos em evolução social. Doar não é caridade, é construção de uma sociedade melhor."  

Se 46% dos brasileiros já fazem doações, conforme pesquisa Idis, os modelos que facilitam a arrecadação, como produtos sociais, plataformas de crowdfunding, troco no caixa, entre tantos outros, estão aí para se contrapor aos empecilhos para não colaborar.

"Em vez de achar uma desculpa para não doar, precisamos encontrar desculpas para doar. Uma sociedade civil mobilizada é capaz de fazer milagres", concluiu Setúbal. 

O tema desta oitava edição da série Diálogos Transformadores, Como Estimular a Cultura de Doação no Brasil, foi apresentado pela Editora Mol, e contou com o apoio do Idis, da Fundação José Luiz Egydio Setúbal e do Instituto Cyrela. 

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